Amanda

A emoção à flor-da-pele de José González

In Música, Uncategorized on fevereiro 5, 2010 at 11:24 am

José González é sueco, não latino, como dizem por ai. Seu pai (ou pai e a mãe – existem essas duas informações) é argentino e ele inclusive fala espanhol. Mas canta em inglês porque disse que não acha que o sueco não é tão melódico e não escreve em espanhol porque acha que ainda não tem vocabulário suficiente. Modesto, não acham?

González faz música de qualidade, voltada ao folk contemporâneo, e tem até agora dois magníficos discos lançados (Veneer, em 2003, e In Our Nature, em 2007), ele lançou três EP’s (Remain EP, Stay in the Shade EP, Crosses), lançou também um EP com dois amigos sobre o nome Junip e participou de quatro músicas do cd The Garden do grupo Zero 7.

Além de uma técnica impecável, ele possui uma sensibilidade enorme. Quer um exemplo? Compare a versão original de Hand In Your Hand cantada pela Kylie Minogue no início de sua carreira e o cover que o José gravou e está no Venner, seu disco de estréia.

De uma música bobinha com uma letra óbvia, ela virou uma linda canção pop de romance. Não bastante toda ‘nova’ melodia, até a letra parece ter sido modificada. Quando a Minogue canta “Put your hand on your heart and tell me it’s all over”, passa a impressão que realmente quer que ele coloque a mão no coração e fale que o relacionamento terminou. A letra é tão direta que fica complicado entender isso como uma metáfora. Na versão de González, as metáforas surgem como extensão da envolvente melodia.

As letras são outro ponto forte sobre José. Diferente de outros artistas que procuram letras extensas, ele busca a essência. A impressão que dá é de que cada palavra que não é estritamente necessária é retirada. O resultado disso são canções muito mais fortes e emocionais, sem ter que ser canções sobre assuntos e sentimentos intensos o tempo todo. José canta detalhes da alma. Costuma não escrever muito sobre amor romântico – o que é um grande alívio, já que esse é quase sempre o tema das músicas que costumamos ouvir, não é verdade? As canções de amor, geralmente, são os covers. Ou no caso dele, as recriações.

Eu sou bastante viciada nas músicas do José e espero que vocês também gostem.

Sentir falta do que ainda não temos

In Sociedade on fevereiro 3, 2010 at 2:38 pm

Parece impossível sentir falta daquela comida que nunca comeu, daquele brinquedo que nunca brincou, ou até daquele dia que nunca viveu, mas é notável que sentimos a falta de atos e fatos que nunca vivenciamos, todos os dias. No fim, essa falta é um desejo profundo de viver o imaginado. Posso sentir muita falta de uma maçã sem nunca a ter comido, mas quando comer vou decidir se gostei ou não. Se o que eu imaginei era real ou só minha mente aumentando as expectativas em algo que desejei ardentemente.

Quando provo algo que tinha muita vontade, a probabilidade de gostar é imensa, pelo menos nas primeiras vezes, quando a necessidade de satisfação ainda é predominante. Não quero que meu objeto de desejo seja pior do que eu achei, não quero que minhas expectativas não sejam realizadas.

Merece ser dito que o objeto de desejo não está sob influências externas diretas, ou seja, não existe toda uma cultura em gostar dele. É um objeto totalmente estranho aos sentidos quem deseja e de pouca importância pública, a vontade veio de pequenas influências indiretas tomadas por toda a vida pelo a gente. Eu gosto de café, fato. No Brasil existe toda uma cultura em torno do café, nos ambientes de trabalho há sempre o café como opção para matar uns segundinhos do tempo, as boas-vindas nas casas normalmente são feitas como o café à tiracolo. O gostar de café existe, existe essa coerção para aceitar o gosto do café e apreciá-lo.

A expectativa causa ódio, felicidade, ansiedade, tudo que possamos imaginar, sempre aos extremos.

Mas ao percebermos que o objeto desejado atende à nossa imaginação, a felicidade em tê-lo por perto, em provar o doce, em tomar a bebida, é imensurável. Há aqueles que sentem prazer em esperar pelo objeto, sentem prazer em adiar vezes e mais vezes muito mais do que realmente provar o desejado, e também aqueles que desejam o inalcançável exatamente para nunca ter, para adiar sem tempo determinado o encontro.

No entanto, ainda considero que a maior delícia é ter aquilo que desejamos muito por perto, é comê-lo, bebê-lo e tudo mais. Não há sensação melhor que a satisfação em perceber que o que sonhamos é tão bom ou melhor, quando realidade, do que o sonho.

Por Amanda e Vinicius.

A temporalidade segundo Merleau-Ponty

In filosofia on janeiro 31, 2010 at 3:01 pm

Segue uma introdução ao conceito de temporalidade, formulado por Merleau-Ponty. Depois, postarei uma continuação deste texto.

Maurice Merleau-Ponty, filósofo fenomenologista francês, foi de suma importância para o desenvolvimento do pensamento no século XX, sendo um dos mais destacados representantes do movimento filosófico denominado fenomenologia. Foi professor da Sorbonne e criou, junto com Sartre, a revista Les Temps Moderns. Possui uma obra vasta, que passa pela psicologia, filosofia e política. Aqui, analisaremos seu conceito de temporalidade.

Para ele, a temporalidade não se define como a temos no senso comum. Para suas investigações, ele toma como base a clássica metáfora do rio: “o tempo flui como um rio que passa. As águas correm de modo contínuo, vindo da fonte em direção ao mar, como o tempo que também escoa de modo contínuo.” Essa idéia nos mostra que o presente é conseqüência do passado e o futuro, por sua vez, conseqüência do presente, pois as águas vêm de trás, da nascente do rio, e seguem sempre adiante. Noutras palavras, é como uma linha horizontal, que começa na esquerda, o passado, e termina na direita, o futuro. Ou seja, o passado atrás e o futuro à frente.

Ora, é absurdo tomar essa metáfora como verdadeira. Primeiramente, suponhamos que haja um observador à beira do rio. Ao contrário do que se pensa, a água faz o caminho oposto – ela nasce no futuro e segue até desaparecer no passado. Por quê? É simples: a água que passa em frente ao observador estava, há dias atrás, na nascente do rio, ou seja, ela estava por vir – o que, logicamente, é o futuro e não, o passado –, enquanto a água que já passou pelo observador, como o próprio verbo sugere, está no passado. A metáfora contém uma inversão nas relações de tempo.

Não se pode supor, como o faz o senso comum, que o tempo vem do passado; o que vem é o futuro, e o que escoa vai para o passado. Portanto, podemos inferir que, em vez de o passado determinar o presente e este determinar o futuro, o tempo vem do futuro e vai para o passado. No entanto, surge outra questão: quando eu considero o rio em si mesmo, i. e., sem a presença de um observador, percebe-se uma diferente visão. A água que antes se encontrava na fonte, agora está passando por onde estava o observador; a água que já passou por onde se encontrava o observador, está agora mais abaixo do rio. Ora, se eu não tenho mais o observador, se agora analiso as coisas em si mesmas, a situação mudará. A água que está na fonte seria futuro caso o observador estivesse lá; a água que está abaixo seria passado caso o observador estivesse lá. Como ele não está lá, percebe-se que o que eram, outrora, futuro e passado são, agora, presente. Pois eles não se sucedem como o faziam antes, não existem mais da forma como existiam antes. Existem apenas como um eterno agora, um eterno presente. Logo, afirma-se que o mundo, em si, não é temporal.

Mas se o mundo não é temporal, como o percebemos como tal? A passagem do tempo, como foi demonstrado acima, existe única e exclusivamente para mim. A temporalidade existe na minha consciência apenas. O erro do senso comum é projetar a temporalidade no mundo e inverte as relações de tempo, tomando o que Sartre chama de “sombra do tempo sobre o mundo” como paradigma, ou seja, “toma a realidade objetiva como modelo para pensar a temporalidade da consciência.” Isso acontece porque ignoram que a consciência não sofre causalidade, ou seja, o evento atual não é causado pelo que o precede. Ignoram que os eventos, em si mesmos, não mantêm uma relação de temporalidade. “Só rompendo com essa projeção posso ver o tempo vindo do futuro e indo para o passado: o a vir é o futuro e o que passou é passado.”