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Ecobag’s, Sacolinhas de Emprego e As Vítimas das Vítimas.

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Conforme aumentam a propaganda pró-meio ambiente, maior também fica o apelo à abolição das sacolinhas de plástico, indicando todos os males que elas podem causar após o descarte, como entupimento de esgoto, poluição em rios e etc. Substituir essas sacolinhas por Ecobags, sacolas sustentáveis, que seriam a salvação para os problemas que a sacolinha de plástico trariam consigo.

Eu não sei qual seria a melhor opção, não quero tomar partido nessa batalha, ao meu ver, imersa em um mar de pressupostos, nem tenho detalhes sob a discussão para analisar qualquer tipo de conteúdo ideológico que já não tenha sido tratado aqui, entretanto, o que me interessa são duas posições levantadas pelos fabricantes de sacolinhas de plástico. 1) a quantidade de pessoas empregadas pelas indústrias e 2) a culpa não é das sacolinhas, mas sim, das pessoas. Automaticamente, parece que fico à favor da substituição e etc, mas a crítica é geral… Podem generalizar, pois, com certeza, já escutamos em várias situações.

Sinceramente, sempre fiquei imaginando a quantidade de pessoas empregadas na época de guerra para a fabricação de armamento ou para prestar socorros às vitimas da guerra e etc, mas nunca concebi alguém tão maquiavélico à ponto de querer que a guerra continue para manter os empregos gerados por ela. Eu penso que a questão dos empregos não é intimamente ligada aos empregos em específico, mas sim, a situação geral do país e como ele consegue lidar com toda a massa de trabalhadores.

Então, acabar com as indústrias que, supostamente, produzem algo que deve ser acabado, mas empregam muitos trabalhadores que precisam do emprego para não morrer de fome e etc é uma péssima e maquiavélica argumentação. A empresa não está fazendo um favor para o trabalhador, ela está, em última instância, explorando o trabalho dele, lhe dando como salário, somente uma parte daquilo que ele realmente trabalhou, portanto, o sujeito não é um sortudo em ter um emprego na determinada indústria, mas, mesmo assim, este salário é aquilo que dá sustento para si.

Como, levando em conta isso, proceder? Como eu já coloquei mais acima, a questão do trabalho não é só uma questão de ‘ter emprego para o povo’. Ela está incrustada em todas as relações entre empregado e empregador, levando consigo todas as lutas entre eles. O fato dessas pessoas em particular terem um emprego não faz do desemprego ser uma fantasia – até mesmo, sendo tão maquiavélico quantos os proprietários das indústrias que seriam afetadas, a falência deles acarretaria o emprego de mais funcionários nos escritórios de contabilidade, que ficariam abarrotados de trabalhos após pedidos de falência, assim como, também haveria aumento de emprego para toda a burocracia estatal, com o aumento de falências e concordatas para análise. O fato de uns estarem empregados não anulo o desemprego, que existe por todo o canto.

É por isso que a criação de vagas de emprego não pode ser deixada às vontades dos empregadores, pois, os mesmo, e por motivo óbvio, empregariam menos possível (alongando a jornada de trabalho e pagando o mínimo necessário). Logo, a firmação de uma empresa no mercado não é a solução, mas sim, normas que apresentem uma jornada menor, menos cansativa e que, por consequência, obrigue a contratação de mais pessoas para suprir as atividades das empresas.

A segunda posição é muito clara, ela redireciona o culpa dos possíveis males das sacolinhas para cada indivíduo da população que não sabe como utilizá-las. A culpa é da falta de educação das pessoas, da cultura do brasileiro preguiçoso e malandro etc e etc, mas não façam o sacrilégio de culpas os fabricantes, afinal, eles não obrigam ninguém a usar as sacolinhas, as pessoas usam por que querem. Senta lá, Cláudia.

Vladimir Safatle: “Cinismo e falência da crítica” – Parte 1

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Racismo no Caso BBB, Caridade Global e Ação às Avessas

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Dentro deste caso no BBB, o assunto um pouco discutido foi a possível acusação de racismo por parte do programa/público. Basicamente, o programa democrático teve que expulsar um participante após a decisão – dita racista – do público. O público, que manda no programa, foi responsabilizado pelo alvoroço do caso, afinal, não passou de racismo já que o rapaz não fez nada demais. Todo o caso foi construído, desta forma, pelas fantasias racistas do público do BBB.

A minha questão é: onde está o racismo neste caso?

O fato do rapaz ser negro não anula o abuso sexual, pois o abuso foi objetivo. Simplesmente foi um abuso de um sujeito para com outro. Não há o que discutir. Rousseau coloca o soberano como um aplicador cego das regras, ele não aplica as leis a um indivíduo em particular, mas a um indivíduo genérico. O ato é o ato, não importa quem o fez, no entanto, as explicações sobre o ato, as perspectivas, são elas que o legitimam ou não.

Vejamos, o que eu quero avaliar sucintamente é a noção de racismo por parte daqueles que eliminaram o participante, ou seja, o público. Porém, o que eu vejo é o extremo contrário! O racismo está incluso nas atitudes da própria emissora que, ao tentar livrar o programa de acusações diversas, ao tentar desligar totalmente o programa do caso, tenta amenizar a situação, colocando em voga o outro lado da moeda. Daniel não é culpado, é vítima, vítima do preconceito da sociedade brasileira.

Essa reação é da pior possível, pois, ao tratar o caso como racismo, sem ter nenhum tipo de argumento plausível para tal, a própria globo assume uma conduta racista, entretanto, um racismo afetivo, um insulto moral, onde o reconhecimento do negro como um sujeito tão sujeito como os outros (brancos). A degradação do próprio negro como sujeito, como autoridade de sua liberdade é o racismo no caso. O que a globo faz é defender aquele que não consegue se defender. Defender o oprimido, mas… Ele é o oprimido?

Não duvido que ele já tenha sofrido racismo durante sua vida, no entanto, a própria atitude da globo é pontual, então ela se mostra não como verdadeira luta contra as desigualdades estruturais estabelecidas entre negros e brancos, mas, sendo unicamente uma caridade num mundo de miséria, a manutenção do status quo. É passar a mão na cabeça no cachorro e continuar a espancá-lo continuamente.

Destituir o rapaz de sua autoridade como sujeito e ajuda-lo com um pequeno gás de anti-preconceito, mas sem acabar com as estruturas daquilo que gera o próprio preconceito, imputando a culpa no indivíduo (na consciência ruim das pessoas, na falta de ética e etc) e se retirando de qualquer responsabilidade maior, é a base para continuar com uma política social racista. Isso, claro, sem contar com a situação contraditória de proteger o rapaz de algo que não há proteção. Justificar o abuso é quase como naturalizar os comportamentos expressados – o negro selvagem e a mulher manipuladora.

Daniel é objeto da emissora para retirar a própria culpa do acontecido, no entanto, essa maneira de agir reproduz o próprio racismo que tenta ser evitado.

Expulsão no BBB, Liquefação dos Problemas e Democracia Brotheriana

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O membro estuprador do BBB foi expulso do programa. Ponto final? Agora acabou? Fiquemos felizes e que o programa continue? Eu acho que seria de uma idiotice imensa se eu começasse a tecer críticas sobre a população brasileira que não age contra esse tipo de programas, etc e etc, ou que já se esqueceram do ocorrido, que o brasileiro se esquece dos fatos importantes etc e etc. Eu queria abordar, meio que superficialmente, a maneira como a expulsão aconteceu.

O sujeito foi expulso e o problema foi dado como resolvido. Simplesmente. Ou seja, foi uma expressão individual, idiossincrática, nada condizente com o cotidiano. Eu não acredito nisso. Creio que a questão precisa ser levada muito mais a sério. Como eu já deixei escrito no post passado, essa maneira de levar o problema é caótica. Ela coloca, por sua vez, a culpa nos participantes, individualmente, retirando qualquer tipo de responsabilidade do programa. É óbvio que o programa não incentiva o estupro, isso é claro e seria de tamanha demência, mas o programa é o fruto do entretenimento, da diversão como um fim em si – é massificação da individualidade por excelência, quando mostra os detalhes da idiossincrasia do outro.

O programa merece ser culpado somente pela existência, depois, por escancarar o que aconteceu e depois execrar o ato. Tudo isso, somente para ganhar alguns pontos no ibope. O interessante é que, primeiro o ato imoral é exibido, depois, quando o resultado objetivo é positivo, quando a audiência aumenta, quando o programa passa a ser assunto nas conversas alheias, é necessário deixar claro a posição moral da emissora e do programa em relação ao ato. A emissora não aponta o dedo para o sujeito, mas o expulsa do programa – ela absorve a crítica da massa, a reprovação do povo em relação ao estupro e, mesmo sendo, supostamente, contra sua verdadeira opinião, democraticamente (já que, quem manda no BBB é o público) expulsa o participante.

Expulsar o participante e declarar uma neutralidade venenosa sobre o caso é afirmar publicamente que os pressupostos democráticos do programa, como o respeito à decisão autoritária feita público, não foram corrompidos. O programa se passa como um bom representante da modernidade democrático-liberal, mas tenta esconder os podres que carrega em seu núcleo. Por que ele foi retirado do reality show? A nota publicada diz que ele infringiu uma regra do programa – não uma regra moral, social, uma lei formalizada e etc. Ainda não há declaração de um órgão formal sobre o caso, classificando ou não como estupro.

Também nós reparamos na posição da vítima, a moça que sofreu o abuso, sem se lembrar do que ocorreu, talvez pelo horror da situação, continua a negar o que (lhe parece que) houve. A negação dela dá o aval para a não-conclusão dos acontecimentos, entretanto, mesmo se ela não negasse e assumisse uma postura sincera, admitindo que não se lembra e, por conta disso, não pode declarar nada com objetividade, está tudo gravado, toda a situação, desde o início.

Quando a subjetividade, mesmo cínica, ganha mais espaço que a objetividade crua, creio ser necessário perguntar: até que ponto vale a opinião dos participantes? Ou melhor, até que ponto a subjetividade da vítima é verdadeira? Pois é de se pensar que a negativa da vítima aconteceu pelo próprio significado simbólico do estupro. Quem gostaria de ser estuprado e não se lembrar… Pior! Levar a culpa por isso, afinal, quem mandou beber?!

Por que há mulheres que sofrem violência doméstica e negam o fato? Não creio que a resposta “por que ama o marido” ou “por medo” seja suficiente, acho que elas precisam de um reforço: não é só por medo ou só por amor, é pelo próprio significado da violência doméstica e a desestruturação que ela representa, assim como a desigualdade, dentro do relacionamento/família patriarcal. Quando há a denuncia, tudo isso é superado, e, por isso que cada denuncia é um ato de extrema força e extremo desespero (infelizmente).

Estupro no BBB, Participa Quem Quer, Essência do Político.

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Essa semana aconteceu algo diferente no Big Brother. Creio que não é necessário falar se o BBB é ruim ou bom, se é divertido ou não, se é porcaria ou não, basta olhar qualquer texto do site que já haverá uma ideia do que eu provavelmente esboçaria sobre esse programa, mas, o que eu vou tomar como assunto é referente ao caso que fez um reboliço na casa: o estupro.

Eu não vou explicar o que aconteceu nem mostrar as opiniões de ambos os lados e etc, muito menos tentar ser neutro, não gosto de dar tom jornalístico pros textos, portanto, já vou direto ao ponto (se você não sabe o que houve, entre nos links do primeiro parágrafo): foi realmente um estupro? Eu digo que sim. O sujeito foi até a cama de uma inconsciente e se aproveitou da situação para conseguir algo que não conseguiu durante a festa.

Eu ainda não li nada negando que houve um contato mais invasivo… Nem mesmo os dois participantes. A questão é, houve ou não proveito da situação por parte do rapaz? Agora sim, sobre isso eu li em alguns posts de outros sites, principalmente na caixa de comentários, é que a moça gostou, gemeu, que ela quis, ou que ela é piriguete e etc. Aí eu me pergunto, como alguém que está totalmente bêbada e que, durante a sobriedade, rejeitou continuamente o sujeito, pode gostar do que aconteceu? Charminho feminino? Não é não.

Antes de começar, vale dizer que esta perspectiva de que, no fundo ela gostou, só é embasado naquela mística da mulher difícil, cheia de charme pra tudo, mas que, no fundo só está se reprimindo. Ela quer e fala que não quer. O não é o sim. Por que o não é o sim? O não é o sim no momento em que é necessário ser a representação da mulher imaculada, ideal, virgem-ad-eternum, mas que, no fundo, ainda é uma vadia – ou seja, proclamando a “verdadeira” face da mulher como sendo aquela em que não há regras explícitas de repressão. ‘Damas na mesa e putas na cama’ traduz isso belamente. Um suposto instinto sexual que é reprimido no dia-a-dia, em prol dos bons costumes, mas a noite é libertado, por pura vontade de sua domadora. Nesta dialética, a mulher fica como o produto falso, a enganação, aquela que manipula, já que é aquela que controla seus ‘instintos’ por uma aprovação social, entretanto, que os manifesta quando convém – quando deseja.

Agora vem a parte que eu achei mais tensa ainda. Quando um sujeito falou que quem se inscreve no BBB não pode esperar por muita coisa, afinal, sabe-se do nível e… Se inscreve quem quer. Logo, levando a lógica um pouco mais a fundo, a moça foi estuprada, nisso não há dúvida, mas ela já sabia do risco, então, que culpem a própria inscrita, não o estuprador (este estava fazendo seu papel natural de participante de reality show).

Se simplesmente ‘se inscreve quem quer’, ‘assiste quem quer’, então o programa perde totalmente sua responsabilidade, o estuprador (no caso) não é mais um estuprador, é o fruto natural do programa etc e etc. Esta é uma ótima maneira de se retirar a responsabilidade em tudo que aquilo que causa a apatia social e colocar a culpa diretamente naqueles que sofrem de sua imperiosidade. A culpa dos políticos serem horríveis é por que o povo vota mal, não por que há um histórico de ditadura no Brasil onde o povo, simplesmente, não participava de assuntos políticos e era obrigado a abaixar a cabeça para toda decisão ditatorial, além de haver uma desconsideração dos problemas estruturais, das contradições internas do próprio sistema econômico, sendo tudo transformado em problema cultural ou justificado ontologicamente – o político é corrupto por que o ser humano é mau, ou por que o brasileiro é malandro e etc.

Então, onde eu quero chegar, não importa quem sofreu, não importa se “sabia dos riscos” (e eu descordo completamente com essa lógica do “fez por que quis”) estupro é estupro, racismo é racismo, homofobia é homofobia. Não importa se quem sofre fica sorrindo bobamente. Não é uma questão de opinião.

RSA Animate – First as Tragedy, Then as Farce

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Censura, Liberdade de Expressão e Momento Histórico

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Pra mim, a censura não é simplesmente o veto da expressão por uma autoridade, ou a caça a um ato exercido livremente e etc. Pra mim, a censura está em outra esfera. Vejamos, se o nazista é proibido de exercer a livre-expressão de bater na cara de um judeu, negro e etc, ele está sendo censurado? Parece que sim, caso a censura seja uma designação de veto, no entanto, o veto ao nazismo é historicamente e socialmente corroborado, digo, o nazismo, em si, já foi refutado completamente, a teoria nazista não se mantém de pé por mais de dois segundos (ou neurônios).

A censura como concebida no senso-comum, sendo o mal que afeta a liberdade de expressão, vide todos os protestos proferidos por Marcelo Tas, Hope etc e etc, sendo o câncer de uma sociedade totalitária, é, no fim das contas, a via principal para legalizar formalmente e informalmente os discursos preconceituosos. Melhor dizendo, os discursos que revelam a desigualdade existente na esfera sócio-político-econômica. Então, a liberdade de expressão também se traduz de forma diferente que é designada, sua significado é a perversão da verdadeira liberdade da vida social, ela é o gancho reafirmador dos discursos racistas, sexistas e etc.

No entanto, como já deixei entreaberto, considero a censura como a reafirmação da desigualdade exercida pelo grupo dominante. Ou seja, a censura era aquilo feito nas ditaduras militares contra os movimentos democráticos e revolucionários, censura é aquilo feito na China, onde até mesmo os filmes de ficção são proibidos para não mexerem com a história, algo importante demais para ser discutido ou brincado. Somente a conservação do poder.

Mas conservar o poder não é algo a ser demonizado, digo, qualquer um que detenha o poder estatal quer continuar com ele, o problema é a forma como isso acontece. Se a “revolução” só acontece por meio da violência, então não é revolução, é só mais uma tirania pessoal ou de partido. É aí que o veto às campanhas nazistas tomam parte do texto.

Então, vetar o nazi-fascismo é censura? É a reafirmação das relações de poder, ou é o inverso, a tentativa de, claramente, não dar chance ao inimigo declarado e vencido em todos os aspectos, tanto teórico quanto prático (e práxis). Porém, há outro ponto a ser levado em consideração: o momento histórico.

Como lidar com uma sociedade que, diante de tudo, quer o fascismo? Basicamente, não se obriga uma sociedade a viver de determinada forma, a fazer parte de um determinado Estado, por que, simplesmente, isso é totalitarismo puro. Então, o trabalho deve ser também na ideologia. Deve-se fazer da ideologia que se representa, hegemônica.

Eu creio que, a tentativa de “censurar”, por exemplo, Rafinha Bastos, não é uma agressão à sociedade e suas normas, crenças e valores, mas, em última instância, essa suposta censura só tomou seus precedentes após a ação do lado conservador e de seus tentáculos inclusos na mídia, abertamente. O povo não é fascista, o povo é massa (ou melhor, o povo está massa) e a massa é acrítica, ela absorve aquilo que não é muito diferente do que já está, ou até mesmo aquilo que é diferente, mas desde que sob uma perspectiva, mesmo que falsa, que faça parecer com o status quo.

Orgulho Ateu, Fabrica de Feriados e Minorias

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Embora eu não classifique na mesma faixa do dia do orgulho hétero, o dia do orgulho ateu é muito classe-média-sofre.

Em toda história os ateus nunca formaram um povo, nunca constituíram uma nação, não eram um grupo de pessoas associadas em um território com determinada cultura comum (língua, tradições e etc). Nunca houve, portanto, uma opressão ao “povo ateu”. Dentro desta perspectiva, a consequência justa básica, seria criar dias para todas as crenças minoritárias que nunca tiveram grande importância (se comparadas com as grandes) em nosso Estado, sua formação e transferência de poderes.

Não estou dizendo que, por serem minoria, ateus não merecem um dia. Não. Mas estou dizendo que a proposta do dia do orgulho ateu sem ter uma relação histórico-social, fora de todo contexto, é fazer do Estado uma fabrica de Dias. Os feriados perdem seu significado e todos ficam à margem do ridículo, basta comparar o dia do orgulho hétero e o dia do orgulho gay. Qual o real significado do dia do orgulho gay? Uma afirmação de que gays não são a escória da humanidade, como sempre foram tratados, uma demonstração de que há desigualdade social, política e econômica em relação à homossexuais, e que esse dia é um dia de luta, pelo contrário, o dia do orgulho hétero é um dia destituído de significado. É a celebração do grupo que sempre foi dominante por sua… Dominância?

Então, dentro desta perspectiva, o dia do orgulho ateu seria uma mobilização pelos direitos ateístas? Uma onde indignação pela maneira desigual como ateus são tratados historicamente? Olhando no fundo do movimento pró-Dia, o objetivo é só peitar a religião. Só ter um espaço ilegítimo para balançar a própria bandeira como orgulho idiossincrático de uma nata sem crença, totalmente disfarçado sob um argumento pseudo-democrático, pois, se eles podem, por que nós não?

Esse argumento está no mesmo alicerce conservador para reivindicar o dia do orgulho hétero… Mas onde está a democracia nestas posições? Que tal ser socado na rua por ser hétero, só pra começar a democratizar a situação histórica? Se existem dias particulares à algumas religiões dominantes e esses dias são só um jogo político de manifestação pública da bandeira, destituído de significado, então o programa ateu deveria se direcionar ao combate e não a compactuação.

Qual o problema em ser publicamente algo? Digo, a campanha ateu nos ônibus foi muito boa, ao meu ver. O problema é ser pseudo-democrático e exigir, por exemplo, que haja símbolos de todas as religiões em instituições públicas somente pelo senso democrático, sendo que, a real democracia laica seria não haver símbolo nenhum – isso é laicidade.

O culto é particular, é de âmbito individual, em um Estando laico, não deve haver a intromissão de nenhuma religião. O próprio símbolo religioso é um expressão simbólica de poder. Há um cão que marcou seu território e se expressa como natural, como inato – é autoridade sem causa.

Então, a base da crítica precisa ser positiva, não uma defesa pelos, supostos, direitos iguais, democracia e etc.

Zona da Amizade, Troféu e Conquistador

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Quantas vezes, depois de um tempo xavecando alguém, um cara chega pros amigos e diz, “Porra, virei amigo, fodeu!”??? Inúmeras. Essa zona da amizade é assunto tenso, sempre evitada [a zona], já que é ela que termina com qualquer chance de algo mais, o importante não é se relacionar com alguém, mas sim alvejar a moça.

Eu acredito que, por trás dessa reclamação, até mesmo fuga do aterrorizante da zona da amizade, há “boa” e velha maneira machista de viver. Repare, esse termo foi usado, no primeiro parágrafo, com o agente sendo masculino, exatamente por que esse é um termo imputado ações do típico homem. Até mesmo quando mulheres utilizam o termo, ele ainda está na cobertura das ações masculinas, ou seja, quando ela é ativa. O termo não foi resignificado, foi utilizado normalmente, manteve seu significado, a mulher que acaba sendo julgada, por conta disso, da perspectiva histórica do homem.

Eu creio que, por trás da zona da amizade existe a concepção da mulher como troféu e, desta concepção, a passividade feminina. O troféu é aquilo que você luta para conquistar, batalha para conseguir, enfrenta outras pessoas, enfim, compete. O problema é que não há nada de heroico e bravo nisto… Principalmente quando definimos outro sujeito como passivo. Ela será conquistada, será uma vitória para o homem.

Até aqui, pode parecer que há uma vantagem social feminina, afinal, lutam por elas, mas, muito pelo contrário, é aí que reside a desigualdade social, política e econômica que tanto as feministas lutam contra – óbvio, desigualdade essa onde o homem acaba saindo privilegiado em todas as categorias de análise. Por quê?

Enquanto a mulher for enfiada no ideal de delicada, recatada, detentora de boas maneiras, acolhedora e etc, nós devemos contextualizar toda e qualquer classificação nestes pressupostos. Não dá pra formar um novo pressuposto só para modificar o significado de uma ação, o que se faz é exatamente o contrário. Toda mulher precisa ser uma virgem Maria.

Entretanto, a posição da mulher neste tipo de relação é a objetivo – objeto – a ser alcançado. Ou seja, se esquecermos do fator histórico, ela fica numa posição superior! Afinal, ela que poderá escolher o felizardo a passar os dias ao seu lado. O homem seria, então, aquele que prova à todo custo, ser digno do amor da mulher (ou de uma trepada, como queira). Porém, quando se admite o fato histórico, a visão muda. As características sociais impressas na mulher (e que a faz ser mulher), quando imputadas, reformulam essa relação. Ela vira de ponta-cabeça.

A mulher se torna, na verdade, o objeto passivo a ser alcançado, o troféu e, como todo troféu, as glórias são do conquistador. Para onde vamos? Se a zona de amizade é o local onde os homens não conseguirem alcançar seu objetivo, conquistar eu troféu, então o próprio termo é de cunho machista. É fruto de relações homem vs mulher onde esta aparece sob posição social inferior.

Etiqueta da Manhã, Xingar o Chefe e Religião Limitada

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Normalmente eu vou dormir tarde, acordo cedo e fico de mau humor até às nove da manhã. Ou seja, se eu encontro um amigo no trem, eu não serei amigável e isso é natural de ter uma noite de sono curta, não satisfatória, entretanto, ainda sim há o pressuposto da educação com o amigo e etc. Não tenham dúvida, é um sacrifício interagir socialmente durantes as manhãs, é horrível, quase como uma obrigação feita por um déspota que merece ser desobedecida.

Aí vem o ponto. Certas coisas são “obrigação”, todo mundo sabe, por exemplo, tratar educadamente ou calorosamente os amigos. Não importa o horário ou a situação. Aqui vem a contradição: O sujeito é senhor de suas ações, indivíduo agente motor, condenado a liberdade e todos os outros adjetivos que acabam terminando num individualismo onde o patrão não é explorador coisa nenhuma, afinal, o trabalhador escolheu seu emprego; por outro lado, há determinadas convenções que precisam ser obedecidas para o bem andamento de determinadas relações sociais.

Convenhamos, ninguém delibera sobre tratar bem ou não o patrão. Se o sujeito tratar mal, será demitido, se for demitido, não paga as contas do mês, se não pagar as contas do mês, se afoga em dívidas e etc. Ainda há a perspectiva de uma deliberação, pois o sujeito deliberou para saber/concluir que não quer ser despejado de sua casa ou ter a luz cortada, entretanto, antes mesmo desta possível deliberação, há um pressuposto.

O site da Lola teve um post sobre ateísmo, que descambou, nos comentários, em um dado momento, para a tolerância das religiões mais populares. A questão que eu colocava é, dentro dessa percepção de fé moderada e fé fundamentalista, onde, visivelmente, o fundamentalista é taxado de errado e o moderado de correto (afinal, ele é tolerante, respeita a liberdade individual e blá blá blá), o erro não estava em considerar como errado aquele que realmente levava a sério sua crença e pedestalizar o moderado que, antes mesmo da sua crença, tem um sistema de valores [supostamente] universais (de respeito ao outro e seu espaço e etc)?

Por trás da crença do moderado há uma crença fortíssima, que é a própria crença na democracia liberal. Ela sim é totalitária, ela sim assume o papel que a religião, como cosmovisão, deveria assumir. No entanto, ela não se mostra como tal, como ideologia, mas como natural, como óbvio.

Como considerar que há a deliberação do trabalhador a respeito da escolha do trabalho e do respeito sacro ao chefe, quando, por trás desse ato já há uma estrutura embutida nas ações do indivíduo, estrutura essa formada socialmente e anterior ao próprio sujeito? Não, não é uma escolha. A própria noção de escolha envolve a utilização da linguagem que, por usa vez, só é como é por meio das relações sociais.

Então, dentro do trem, essa convenção social de tratar bem o amigo, supera a indisposição individual, o que é expressado até pela sensação de culpa ou pelas repulsas futuras do amigo – para se evitar essas repulsas, trate-o bem. Mas, outra coisa vem em mente, essa convenção não pode parar por aí, em sua definição. Não é só uma convenção, pois, se fosse, teria um acordo entre ambas as partes, mas não há esse acordo, não há deliberação, há coerção!

Se fosse puramente uma deliberação, a ação seria própria, sem sentir culpa por não fazê-la, sem sentir obrigação em fazer. Mas não funciona como uma ação fria. Ela parecer ser fria se dá quando a ação é inteiramente no fluxo da “convenção”, obedecendo-a. Quando é contrária, aí sim sua imperiosidade é sentida.

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