Ocorreu um crime horrível na Paraíba onde mulheres foram estupradas coletivamente como forma de comemorar o aniversário de um homem. Este era o presente. Entretanto, duas mulheres viram os rostos (que estavam encapuzados) dos estupradores e, por conta disso, foram mortas.
Este é o tipo de assunto que a gente simplesmente reproduz o fato, não há muito o que argumentar, não há muito o que pensar, a primeiro momento, no entanto, creio que é bacana falar sobre a própria sensação de “presente” que este ato se deu. Como alguém pode considerar um presente estuprar várias mulheres? Como um abuso sexual, uma destruição da alteridade, a reificação total do outro pode ser um presente? Exatamente por isso.
A condição de presente se dá pela própria coisificação da mulher. Não há dúvida que a mulher é amplamente coisificada, objetivada na sociedade, sendo essa objetivação até mesmo uma crítica machista para a afirmação de que não há opressão por gênero. Se a mulher tem liberdade para ficar seminua na televisão, desafiando todos os valores cristão e etc, como ainda pode haver opressão? Como isso pode ser um sinal de opressão? Não deveria ser o sinal da quebra dos próprios valores cristãos, conservadores, etc e etc?
A exposição dos corpos das mulheres na TV (para tomar este exemplo comum) é só a afirmação dos valores conservadores. Esta exposição se torna, ainda, uma prova da existência de tais valores e sua confirmação dentro da sociedade – a prova disso é o próprio status das mulheres que trabalham desta forma, elas são o objeto de desejo sexual, são aquilo que todo homem queria ter por um noite (ou simplesmente quando estivesse a fim), são a mercadoria sexual perfeita, entretanto, nada disso é de elevado valor social.
Então, a consideração do presente como tal, leva em conta a própria consideração da mulher como a mercadoria sexual perfeita, o estupro é o consumo dessa mercadoria. Qual foi o presente? O consumo de uma mercadoria. Bauman explica que o desejo “é a vontade de consumir. Absorver, devorar, ingerir e digerir – aniquilar”, não foi exatamente isso que pôde ser visto? A mulher, mesmo objetivada, ainda é um outro, como tal, sua presença ainda é intimidadora – ainda instiga a total assimilação ou destruição.
O outro é sempre intimidador, sempre é algo que não sabemos ao certo e que pode, a qualquer momento, ser aquilo/fazer aquilo que menos esperávamos, sua existência nos desestabiliza e o desejo é a forma de consumirmos tudo aquilo que seja possível, jogando o resto na lata do lixo. Consumindo aquilo que a mercadoria me serve e rejeitando os restos como refugo, oras, se a mulher é objeto, ao mesmo tempo que é a interrogação do outro, sua própria existência é uma afronta e a ação de defesa ao outro é, de alguma forma, o incluir em nosso eu, entretanto, as próprias relações sociais que mediam homens e mulheres já trazem uma dominação intrínseca.
O homem consome sua mercadoria pela afronta de sua existência e rejeita os restos sob a forma de representações morais. A mulher se torna, então, o objeto de desejo, a mercadoria sexual, mas, além disso, a víbora venenosa, a manipuladora – a vadia.

Ainda hoje estava eu estudando estética e como a “beleza pode salvar o mundo” no sentido de tornarmos mais humanos como Platão, Kant, Schiller colocam… Quando vejo esse seu post mostrando um ato de barbárie basicamente olho pro mundo e penso que meu trabalho em humanizar pessoas é tão pequeno que… Dói pelas vítimas e pela sociedade que naturaliza preconceitos.
Dói mais ainda por que eu já estive em Campina Grande e Queimadas trabalhando como voluntária para melhoria da condição de vida de pessoas excluídas da sociedade e esse trabalho foi um norte na minha opção pelo trabalho com educação.
Assim… Dói. Dói socialmente.
Eu, sinceramente, nem imaginava que em um país “normal”, tipo o Brasil, algo assim pudesse acontecer.