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O Boicote à Coca-Cola

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Sempre ouvi piadas liberais sobre comunistas de boutique que só sabem fazer boicote à Coca-Cola, ao McDonalds, mas que fazem isso vestindo uma calça Lee (sei lá se essa marca ainda existe, mas vocês sabem que era famosa pra caralho), um celular LG com acesso 3G à internet da Tim.

Ou seja, pseudo-comunistas. Uns hipócritas.

Durante um tempo da minha vida eu segui a risca essa cartilha do “boicote à [coloquei o nome de uma empresa/ramo empresarial]”. Aqui eu sou obrigado a concordar com Olavo de Carvalho, quando ele aborda o marxismo como uma cultural que luta pela sobrevivência a qualquer custo. Este é, então, uma aspecto cultural da doutrina marxista. Ninguém sabe por que é assim, só sabem que é assim e fazem questão de passar pras próximas gerações. Não é questionado, é aceito de cara, como se fosse, por si só, um questionamento por excelência. Isso é extremamente ideológico!

Vocês ainda veem as camisetas da Tent Beach com a cara do Che Guevara, não? Coloco no mesmo posto. Quando o marxismo é visto como salvação, solidariedade, caridade e outros adjetivos santos, a sua forma começa a ser passiva e tende a se resumir em micropolíticas, que já foram absorvidas pela dinâmica capitalista há tempos.

Quero dizer, ao invés de enfrentarmos a realidade atual e, a partir de sua destruição, formarmos uma nova, tentamos conscientizar as pessoas com uma realidade alternativa, que vive dentro do espírito capitalista, como as comunidades autossuficientes da América latina, em que voltaram 200 anos na história pra conseguir uma falsa independência.

Em suma, os liberais estão certos. Tentar demonstrar uma atitude legitimamente marxista com boicote à Coca-Cola é, no mínimo, irracional. Há duas opções pro sujeito tentar se justificar, ele pode ser, simplesmente, ignorante e não entender que há um sistema econômico-político-social chamado capitalismo que já englobou todas as esferas da vida em todos os países e que os mesmo vivem para/contra o capitalismo (no fim das contas, em sua função), ou pode usar a velha desculpa cristã do “estou fazendo a minha parte”….

“Se todos boicotassem, a Coca-Cola iria falir!” – Sério mesmo, malandrão?! Tá de sacanagem?!

Porém, “se” não existe e esse “se” é a coisa mais improvável de acontecer.

Não se deve esperar um boicote a uma marca consumista de uma sociedade que serve de molde à essa marca. A Coca-Cola, o Mc Donalds e toda a vida em torno dessas marcas são as expressões mais legítimas da sociedade. É o mundo como ele está. Uma merda? SIM! Mas é uma merda e não adianta sonhar com outra coisa.

“Como mudar isso?” – Sinceramente? Só tenho as ideias mais gerais que poderiam ter, mas não ter a solução não significa que a crítica está errada. Ledo engano de quem ainda vive a partir do “Se não faz melhor, não reclame!”.

A primeira coisa pra não cair na armadilha do “boicote à Coca-Cola” é saber que o lema “cada fazendo a sua parte” é uma mentira! Não há “partes” a se fazer. Ou faz, como totalidade, ou não faz. Cada faz sua parte é o lema cristão para ir ao paraíso impregnado nas atividades cotidianas. “Eu faço a minha parte, serei julgado por Deus por meus atos, o resto que faça sua parte”.

Isso é natural, é um modo de agir totalmente ligado ao cristianismo, ao mesmo tempo em que é totalmente fora da conversa religiosa. Está já impregnado em nosso modus operandi. Quebrar essas regras pseudoverdadeiras, pseudolegítimas, é a primeira parte do filme.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. O que seria fazer como totalidade ?

    Resposta
    • O Boicote?

      É necessário fazer o boicote? Digo, representa algo para, por exemplo, a Coca-Cola? Faz diferença?

      O boicote se torna só um massageador de ego.

      Resposta
  2. Pelo que entendi vc não acredita em “fazer sua parte” de maneira geral (não apenas na questão da coca) e diz que devemos fazer “em totalidade”. Como seria isso ? Para se chegar a uma maioria não é necessário começar por uma parte ?

    Não sou comunista nem nada disso. Apenas tentando entender…

    Resposta
    • É fazer coletivamente. Várias unidades juntas não fazem um coletivo, assim como várias pessoas fazendo sua parte, não fazem um coletivo.

      E o ‘fazer a sua parte’ tem uma carga histórica/social. Eu cheguei a dar o exemplo católico. Nunca é só a interpretação ao pé da letra.

      Resposta
  3. Pingback: Misto Quente, Boicote, Sociedades Alternativas e Oposição « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althuss

  4. Já fazem mais de 10 anos que comecei a boicotar, hoje nem tomo mais refrigerantes. Mas, de fato, me pergunto qual é a força disso, quando vejo que nem mesmo dentro do espaço onde vivo consigo influenciar nessa questão. É como você diz, a sociedade é o molde perfeito para a Coca-Cola. O problema é: teremos que admitir nossa derrota? dizer que os marketeiros da marca são melhores que qualquer texto que façamos?

    Obrigado pelo comentário lá, Vinicius.
    Estou adicionando aqui aos meus links e depois dou uma fuçada melhor no espaço de vocês! abraços

    Resposta
    • Qual derrota? Derrota à Coca-cola?

      É uma luta que já começa perdida, parece mais que o que move os boicotes deste naipe é um superego, forçando a ficar culpado por não fazer algo, por não agir rapidamente, por não “acabar com o capitalismo” de seu jeito micropolítico e etc.

      Não adianta boicotar só pela satisfação ética do boicote. É por isso que eu escrevi, vira um massageador de ego.

      Vou ver melhor o seu site tb, abraço!

      Resposta
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