Assinatura RSS

Hope, Gisele, Luana e Tas

Publicado em

Gisele Bündchen em cena do comercial da marca de lingerie "Hope"

O comercial da Gisele Bunchen para a Hope deu pano pra manga, tanto que a Secretaria de Políticas para Mulheres pediu que sua exibição fosse vetada.

Eu, obviamente, concordo com o veto. Mas o que me fez escrever este post foi uma discussão entre a Luana Piovani e o Marcelo Tas sobre o referido. A discussão aconteceu via Twitter, e, caso queira ver, é só acessar (não, eu não tenho os links aqui).

Na discussão, Luana demonstra sua insatisfação com o comercial, enquanto Marcelo Tas rebate dizendo que ela também usa seu corpo em seus trabalhos. Se não me engano, o último trabalho de grande visibilidade onde a atriz usava o corpo foi com a personagem Amanda, em A Mulher Invisível. Só há um problema, Amanda não é a tentativa de uma representação da mulher brasileira.

Digo isso, pois, Amanda é o fruto da imaginação de um homem, produto da sociedade machista, onde, entre suas qualidades, a maior é ter disposição para uma trepada a hora que der. Ela é a representação máxima de tudo que um homem tipicamente machista quer: uma máquina de sexo. A personagem não é um insulto às mulheres, mas sim, um aviso ideológico. Entretando, no comercial da Hope, a Gisele é a tentativa da representação da mulher brasileira, submissa, dependente e gostosa. Essa é a intenção clara do comercial.

Neste ponto, eu apoio a Luana Piovani.

E ainda mostro uma declaração muito interessante da Hope:

“Foi exatamente para evitar que fôssemos analisados sob o viés da subserviência ou dependência financeira da mulher que utilizamos a modelo Gisele Bundchen, uma das brasileiras mais bem sucedidas internacionalmente. Gisele está ali para evidenciar que todas as situações apresentadas na campanha são brincadeiras, piadas do dia-a-dia, e em hipótese alguma devem ser tomadas como depreciativas da figura feminina. Seria absurdo se nós, que vivemos da preferência das mulheres, tomássemos qualquer atitude que desvalorizasse nosso público consumidor”

Precisa ser muito idiota…

A Gisele no comercial, a pessoa rica que se submete à ferramentas sexuais, só demonstra que, mesmo “bem sucedida” a mulher ainda é submissa, ainda depende e ainda pede permissão e perdão para o homem. Eu achei legal a mensagem de que as “brincadeiras” não “devem ser tomadas como depreciativas”. Porra, legal. Vou fazer um comercial onde o negro é chamado de picolé de asfalto e depois dizer que isso não deve ser levado como algo depreciativa, afinal, é só uma piada do dia-a-dia.

Ainda no assunto, dentro do comentário sobre Luana utilizar o próprio corpo, assim como Gisele fez, ele emenda um protesto contra censura (WTF?!): “Nada contra o poder do corpão (vc usa isso divinamente, dear) mas contra o poder da censura”. Deixa eu entender, você é contra a censura, e, por conta disso, defende a liberdade do comercial? Que se dane a liberdade de um comercial machista. Existe liberdade de expressão para críticas ao capitalismo global? Ou tudo é reprimido e transformado em problemas culturais (de tolerância), vide racismo e o próprio sexismo?

Liberdade de expressão é uma arma muito bem usada para manipulação de massas, pois, oras, se existe liberdade de expressão e se estamos em um país democrático, o próprio povo que deveria decidir assistir ou não ao comercial, mas nunca tirá-lo do ar, o detalhe suprimido é que o comercial é uma expressão puramente ideológica e que, assim como o comercial, o povo está imerso na ideologia. Ambos se identificam. É aí que reside o sucesso de, por exemplo, um comercial de TV. Sendo assim, o que se econtra por trás do conceito de liberdade de expressão é a opressão direta da ideologia dominante, demonstrando sua face democrática (ou seja, dando liberdade para expresarem o que querem, teoricamente) e com isso utilizando os aparelhos ideológicos estatais sem medo de nenhuma crítica. A liberdade para a oposição é a liberdade para sí, o que legitima o comportamento opressor daqueles que detém o poder. “Se eles podem, por que não eu?”.

A grande chave para essa questão seria a posição assertiva e inflexível daqueles que não são complacentes com o machismo, o racismo, homofobia e etc. Deveria havera intolerância pública e integral disso. Não se precisa mais de argumentos, tudo já foi dito, agora só precisamos de um pouco da boa e velha violência, seja ela como for, ao invés de ficarmos na defensiva.

Anúncios

Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

»

  1. Você esta começando a dar fluidez ao texto, esta menos maçante que os anteriores.

    Responder
  2. Conheço mulheres que são mais machistas do que muitos homens. Intimamente não me sinto incomodada pelo comercial pois vi no mesmo possibilidades infinitas para debate, especialmente sobre os “tipos” de mulheres. O que faz de uma mulher uma mulher?

    Defendo o direito das mulheres de exporem seus corpos como quiserem, inclusive de o usarem para ganhar dinheiro de forma considerada socialmente “honesta” (ou não). Porém questiono sempre as circunstâncias nas quais esse dinheiro é ganho. É de livre vontade? Se sim, ótimo. É por falta de “oportunidade”? Mas por que faltaram oportunidade a ela? E por aí vai.

    Não consigo me lembrar agora o nome de uma atriz pornô americana que é mega intelectual e ativista política, não possui nenhum dos atributos típicos de uma atriz desse gênero de audiovisual. Bem, ela disse numa entrevista que faz filme pornô por que simplesmente gosta do trabalho que faz e que gostaria de convidar . Você tem idéia de como isso dá pane na cabeça de uma mulher? Como assim? Uma mulher “comum” fazendo filme pornô? Sim, dá pane. Nós mulheres rotulamos depreciativamente toda e qualquer mulher que aparece num filme pornô. Rotulamos também a mulher que usa decotão e abusa da maquiagem. Naturalizamos os rótulos.

    A pergunta que sempre faço para minhas alunas nessas horas é: ela faz por que quer fazer ou usa a roupa que usa por que quer usar ou… Ela está reproduzindo um modelo sensual para só se tornar atraente aos homens?

    Bingo! A propaganda brinca com isso. O que a mulher quer e o que a mulher reproduz. A mulher segura e a mulher insegura. O segundo tipo é a mulher machista, aquela que só está realmente preocupada em satisfazer ao homem, usa sua aparência para manipulá-lo, conquistar sua simpatia no momento em que o corpo do homem fala mais alto que seu raciocínio.

    Responder
  3. Droga. Não devo escrever com sono. Me empolguei com o tema. Terminando uma frase incompleta:

    Bem, ela disse numa entrevista que faz filme pornô por que simplesmente gosta do trabalho que faz e que gostaria de convidar outras mulheres a repensarem seus papéis como mulheres.

    Responder
  4. Pingback: USP, Protestos Pró-Polícia, Marcha para Jesus e Reivindicações Pró-Vida « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Ziz

  5. Pingback: Neutralidade na Mídia, USP Maconheira, Humoristas Levados à Sério e Hope Feminista « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, S

  6. Pingback: Zona da Amizade, Troféu e Conquistador « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althusser, Alienação, Ate

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: