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Kassab, Centernorte, Pedreiros e Camisetas da Tent Beach

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Em uma declaração nesta manhã, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, disse que fecharia o Centernorte (ou Centermorte), Shopping com risco de explosão, com dor no coração, pois, vejam só, ele gera muitos empregos! Eu fico imaginando, será que o Kassab é daqueles que jogam lixo na rua pra gerar emprego pra gari? Ou daqueles que não dá descarga em banheiro público pra gerar emprego pra faxineiro?

Pior, estava também eu pensando com meus botões, como os empregados devem se sentir em constante perigo de explosão em seus locais de trabalho?

Essa declaração mostra, de maneira crua, como algumas ações dos partidos governantes é um tanto quanto hipócrita, e nisso, eu incluo todos os grandes projetos de geração de emprego dos grandes partidos. Todos eles se baseiam na construção civil, em gerar um emprego temporário para o pedreiro, todos eles já tomam como pressuposto a ignorância e a subserviência do povo.

Ou seja, não precisamos gerar empregos em escolas ou qualquer outra coisa, precisamos de pedreiros e marceneiros, precisamos de empregadas domésticas. É aí onde reside a artimanha: se essas pessoas estão em maior parte em nossa sociedade e tem alto número de desempregados neste grupo, são eles os mais aptos a sentirem objetivamente a necessidade de uma ação, seja lá como for (violenta ou não), é esse tipo de pessoa que acaba se virando de modo alternativo (que rouba, que trafica, que vende produtos piratas, isto é, tudo que o Estado não gosta) e por isso as propagandas acabam sendo aparelhos ideológicos estatais. Eles também aquela função da novela de passar a felicidade do pobre comendo pastel no bar da dona Jura, porém, na propaganda dos partidos, o pobre fica feliz com emprego temporário de pedreiro.

A propaganda ideológica não acaba por aí, ainda sobre as novelas, enquanto a classe altas é abatida por crises existenciais e dramas profundos, as camadas mais baixas vivem em eterna festa, no carnaval, no bar da dona Jura, no churrasco da laje… Todos os dramas nas camadas baixas são secundários ou submissos aos dramas existenciais das classes altas, sem contar no personagem clássico da mulher pobre que tenta engravidar de um rico.

As novelas são as armas mais potentes, pois são nelas onde uma suposta vida real é retratada. Quem não lembra dos depoimentos de pessoas aleatórias no fim das últimas novelas (atualmente você pode ver em Amor e Revolução, a tentativa de fazer uma novela sobre a ditadura militar)?

Amor e Revolução é a maior panaquisse dos últimos tempos, simplesmente por se apropriar de um período histórico onde a intenção final daqueles que são retratados era a de não haver novelas como Amor e Revolução. Era a de não haver espetacularização e comercialização da história. O fato de haver uma novela com esta é a prova clara, junto com as esfirras comunistas do Habib’s e com as camisetas comunistas da Tent Beach, que o capitalismo absorver tudo, inclusive aquilo que o combate, para sobreviver.

Se bem que, no fundo, a própria oposição é um desejo da democracia parlamentar/presidencialista liberal. É somente com a existência da oposição que a ideologia dominante pode se mostrar democrática, tolerante, pois deixa que tenham livre-expressão, deixam que vivam como oposição o, ao mesmo tempo, é só com a oposição que ela (a ideologia) consegue afirmar-se como hegemônica. Talvez somente a superidentifcação seja a solução para esse caso (ou uma revolução violenta e rápida, porém, superautoritária).

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Seu texto é bom. Principalmente aquele parágrafo: “A propaganda ideológica não acaba por aí,(…)” A novela é um modo perfeito de reprodução da ideologia oficial, principalmente no seu aspecto de vitimização. A idéia é a de que todos nós sofremos igualmente, tanto faz se ricos ou pobres; o pobre até sofre com sua condição, mas ele “se diverte” e “é feliz” no churrasco do fim de semana, na partida de futebol, etc… Já o rico, que vive muito bem por sua condição, vive repleto de crises existências e de consciência, como se só eles existissem de fato e só eles tivessem consciência. Dando a impressão assim de que todos são vítimas de alguma forma. No fim dessa história toda, o caractere mais determinante da relação entre pobres e ricos que é a exploração, fica esquecido.
    Vinicius, se é que eu estou em posição de lhe indicar uma leitura, e se é que vc já não leu, procure os livros do filosofo esloveno Slavoj Zizek, particularmente o “Em Defesa das Causas Perdidas”, acredito que vc vá gostar e com certeza deve te ajudar!
    Um abraço!!!

    Responder
    • Gosto muito de Zizek, estou tentando ler Mapping Ideology, por ser em inglês acaba dando aquela coisa de “Eu sei o que eu estou lendo, mas, depois de três parágrafos, esqueço tudo”, ainda estou pegando intimidade com a leitura do Zizek em inglês e etc…

      Obrigado pelo comentário!

      Responder

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