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Meia Noite em Paris, Na Natureza Selvagem e Sociedade do Espetáculo

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Meia Noite em Paris é o mais novo filme de Woody Allen, nele, é retratada a historia de um roteirista Hollywoodiano (Gil) em uma viagem à França com sua noiva (Inez) e os sogros. Gil tem pretensão de lançar um romance, mas não confia cem porcento em sua obra e tem como desejo viver em Paris e inspirar a arte cristalizada na cidade em toda sua história. O filme se chama Meia Noite Em Paris por que, todos os dias à meia noite, Gil entra em um universo paralelo, onde volta para a década de 20, na mesma época dos Fritzgerald, Picasso e Hemingway.

Gil sabe que seu trabalho é medíocre, é a comercialização em larga escala daquilo que alguns ainda chamam de arte. Porém, no fundo, sabemos que é só espetáculo, sendo mediador das relações sociais, expressando valores das classes dominantes e perpetuando a ideologia hegemônica.

O interessante foi ver o personagem Gil fugindo da sociedade do espetáculo (de uma noiva fútil, que preza pela estabilidade financeira de seu noivo, de sogros desconfiados e venenosos), se aventurando na França da década de 20 e, finalmente, conseguindo realizar sua fantasia de estar junto à prestigiados artistas. Essa fuga da realidade concreta me lembrou de Into The Wild, onde Christopher foge também se sua fútil existência acadêmica para viver integralmente com a natureza e ter sua experiência livre de todas as algemas sociais. No fim, ele se fode.

Mas, e aqui eu retorno ao post sobre Rafinha Bastos, o que realmente incomoda é a fuga em si. É sair da sociedade que te oprime e buscar por outra, ao invés de modificar a atual. É como ceder ao argumento infantil de “Se não gostou, troca de canal”, isto é, seja um eterno espectador, não ouse modificar nada.

Allen faz seu protagonista descobrir essa artimanha quando, um dia, ao voltar à década de 20 e encontrar com Adriana, Art-Groupie que odeia seu tempo e desejaria voltar alguns anos, ir para a Belle Époque. Chegando lá, vê os artistas frequentadores de Cafés e Galerias teimarem em afirmar a superioridade cultural da Renascença. Finalmente lhe vem o insight, não há época tão boa quanto a anterior, as pessoas estão sempre insatisfeitas com a realidade que vivem, e ele percebe que o que resta é viver a sua própria, sem ilusões.

Por conta dessa separação de nós e eles, onde nós vivemos em uma sociedade que nós achamos boa e eles vivem em uma sociedade onde eles acham boa (assim como aquela prática Hippie de comunidades alternativas, evitando, assim, um conflito violento contra os aparelhos repressivos do Estado), uma suposta liberdade de escolha que, na verdade, é o maior exemplo de totalitarismo e de alienação ao espetáculo, que eu endosso a forma do Rafinha Bastos de agir, embora repudie totalmente o conteúdo de sua ação.

O filme é ótimo exatamente pela descoberta final. Mesmo sabendo da traição de sua noiva com um professor sabe-tudo, claramente espectador de cultura, Gil pouco se fode pra isso e simplesmente termina o noivado, ficando definitivamente na França. Porém, ele não termina pela traição, ela já não faz diferença, chegou a um ponto onde a traição é só um detalhe mais ou menos negativo na vida do casal. O relacionamento está fadado ao fracasso.

Ele termina, vive sua realidade, nega o destino espetacular Hollywoodiano e se encontra como artista, conseguindo viver plenamente em um lugar desejado. A ida para Paris não é uma fuga, pelo contrário, Paris também é uma sociedade tão espetacular quanto EUA, a verdadeira fuga era a ilusão com os anos 20, sua permanência na realidade concreta, nos época atual, não é só a representação de sua sanidade mental, mas sim o símbolo de sua vitória perante o desejo ideológico de se afastar do mal ao invés de combatê-lo.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

»

  1. Perfeito!
    E a comparação com a situação do Rafinha foi bem pertinente.
    De forma bem similar eu vejo outro filme de Woody Allen: “A Rosa Púrpura do Cairo”;
    Que, embora em sonho eu adoraria fugir da realidade grosseira, não há como deixar de enfrentar mal por uma ilusão!

    Maravilha de post!

    ;D

    Responder
  2. Pingback: Misto Quente, Boicote, Sociedades Alternativas e Oposição « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althuss

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