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O Anticristo, Prazeres no Mundo Democrático-Liberal e Culpa

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O Anticristo é aquele filme polêmico (ou seja, que nenhum conservador gostou de ver e nenhum pudico ficou até o fim) do Lars Von Trier, onde o filho bebê de um casal morre e o marido, psicólogo, tenta curar a esposa de seu intenso luto.

No início do filme a queda do bebê é mostrada enquanto os pais transam sob uma música delicada e aconchegante. No momento do gozo há o momento da queda, todo o ato sexual é traçado paralelo à saída do bebê de seu berço e até sua ida à janela.

Depois da queda a mãe sente muito o luto pelo filho, se torna uma pessoa muito ansiosa e etc, o pai (psicólogo) resolve tratá-la em um lugar distante, uma casa no campo chamada Éden. Lá, ela se lembra da cena do bebê caindo. Ela viu, porém não avisou e não perdeu o gozo. Ou seja, mesmo sabendo que o filho iria cair pela janela, não houve intenção de evitar sua queda, mas sim, de gozar.

Aqui eu penso, não seria essa primeira cena a representante máxima do “hedonismo limitado” que vivemos atualmente? Nós temos liberdade em nosso mundo democrático-liberal, porém, precisamos evitar os excessos para, assim, conseguirmos aproveitar de todas as formas possíveis (e em maior prazo), logo, passamos a viver em um mundo completamente regrado. A morte do bebê não seria o resultado de um excesso não evitado? A morte simboliza os resultados supostamente drásticos desses excessos.

Já o momento em que nós ficamos sabendo da própria ciência da mãe sobre o filho, somos obrigados a admitir que a necessidade do gozo foi maior que a necessidade da própria guarda física. Foi como aguentar até as últimas consequências. Não seria a demonstração maior de paixão pelo ato, sem importar com o depois?

Porém, na mesma linha, o corte do clítoris não seria a maior repressão que ela poderia fornecer a si mesma, como uma maneira eterna de evitar seus excessos? O Superego forçando algum ato de redenção, sob a culpa posta logo após o enterro do bebê, causadora do luto e etc?

Creio que a personificação desta interpretação do filme (excesso e castração) seja, em conjunto, os artistas que abusavam de alguma forma alguma coisa, mas hoje são evangélicos. Hoje pregam a palavra do deus mais rígido e possessivo. É quase como se estivessem pagando pelo excesso cometido, por ter sido dominado pelo Id por alguns momentos cruciais.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Assista ao filme “Irreversivel” de Gaspar Noé, muito mais polemico que este anticristo.

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  2. Achei “Irreversível” um tanto quanto superficial. Acho o do Lars von Trier muito mais significativo. Penso que chocar seja interessante quando se pretende algo. O Irreversível não pretende uma discussão, mostra um estupro extremamente violento e a vingança, igualmente violenta, do namorado que se culpabiliza profundamente.
    Gostei da sua análise do filme e concordo com isso que vc coloca. E a culpa está totalmente baseada na maldita moral cristã, não há dúvidas. A referência não podia ser mais claraa casa de campo de nome Éden. Odeio que essa seja nossa referência, mas acredito que a desconstrução dela é possível.

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  3. (SPOILER – achei válido colocar o aviso)

    Além do Éden, outra referência são as figuras das “bruxas” no livro e a cena final das mulheres caminhando pelo campo – todas as outras mulheres que também sofreram com a culpa.

    Mesmo a raposa – “O caos reina” – talvez busque sinalizar que alguma coisa está sendo subvertida, e que pode ter consequências duras, além do previsto
    (Aliás, a cena é bastante incômoda, me causou um estranhamento inexplicável, uma sensação de que algo estava muito errado e que dali em diante o desfecho seria ainda mais imprevisivel)

    Tomando como base a discussão, também acho o “Anticristo” mais válido, nesse sentido.
    Anticristo é um filme forte e repulsivo, mas porque ele precisa ser para passar a mensagem.

    O “Irreversível” também tem seus méritos e não seria o que é sem a polêmica cena do estupro (embora eu ache a do extintor bem pior), mas acho que não chega a tocar questões tão profundas.

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    • Eu realmente não conseguia relacionar as várias mulheres em volta do psicólogo, no fim do filme… Eu pensava ser a culpa do próprio psicólogo, digo, num dado momento a própria mãe diz que a essência da mulher é traiçoeira. Eu acreditava que esse momento era como a expressão da culpa tentando ser aliviada, já que “todas são traiçoeiras”, entretanto, erroneamente, já que o próprio psicólogo se mostra bem racional em relação à isso, ao longo do filme, acreditando não haver uma essência malvada feminina e etc.

      Sobre a raposa, concordo totalmente, aquela maneira mórbida de expressar que os excessos não foram de graça, agora terão que pagar por isso.

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