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Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, Vanilla Sky e Livre-Arbítrio

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O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças retrata a vida de Joel, trabalhador comum, que, magoado por saber que sua esposa o apagou de sua mente, por meio de uma intervenção alternativa, faz o mesmo. Entretanto, no meio do procedimento, resolve não mais querer que ele aconteça, no entanto, suas forças são em vão, e ela é apagada de sua memória.

Basicamente, no procedimento para apagar alguém da memória, você escolhe a pessoa, registra todas as suas motivações em uma fita e manda bala.  No outro dia, já nem lembra mais do procedimento, muito menos da pessoa, todas as evidências de que ela estava em sua vida foram retiradas de sua casa e você vive normalmente, só que faltando um pedaço de sua experiência vivida.

A pessoa que passa pelo procedimento não pode saber o que fez, assim como em Vanilla Sky, (onde o David Aames [Tom Cruise] escolhe viver uma vida alternativa da maneira como seu inconsciente deseja – um sonho), já que isso poderia corromper a suposta realidade que ela estaria vivendo. Sendo assim, tanto em Vanilla Sky como em O Brilho Eterno… é possível entender a mensagem primária: você escolhe sua vida, você escolhe o que quer. Este é a premissa básica do liberalismo atual. Temos livre-arbítrio, escolhemos fazer o que fazemos.

Essa redução do mundo à vontade, da maneira como é tratada nos dois filmes, onde a realidade é moldada conforme as opções escolhidas pelos personagens, que controlam quem está ou não em suas vidas, que detém poder total sobre o que querem que o mundo seja, também é um reflexo da ideologia atual, onde o mundo não é uma verdade, mas são várias verdades de povos diferentes. Onde tudo é relativo e dizer “verdade” se tornou uma ação anti-acadêmica. Então, é aqui que me decepciono com ambos os filmes.

Em O Brilho Eterno, apesar de ter a memória apagada, Joel sente-se impulsivamente atraído para lugares que se encontrava com sua esposa, assim como ela também sente o mesmo! Eles acabam se encontrando e começando um relacionamento, ou melhor, recomeçando. Eles acabam juntos. É como a vingança do fatalismo cristão: “Eu deixo você ter livre-arbítrio, mas limitado [?], pois certos acontecimentos já estão escritos em sua vida, caro Joel”. Joel ainda sem a memória, tinha em seu subconsciente, a noção de sua esposa e, impulsivamente, levado por toda carga possível de influências internas, foi ao local onde se encontraram pela primeira vez. É a subversão da ideologia liberal não-fatalista.

Por sua vez, contemplando a noção liberal ideológica, David Aames, em Vanilla Sky, novamente, toma controle do que quer para sua vida e sai do sonho já previamente escolhido para uma vida supostamente real, que é, novamente, escolhida por ele (de modo ético, ele resolve encarar a realidade de um mundo novo – nada mais previsível). Liberdade de escolher o produto que quiser desde que faça a escolha correta.

Porém, devo perguntar, a se o mundo é exterior a nós, qualquer a veracidade em viver uma realidade que você escolheu rejeitar e depois aceitar? Em outras palavras, qual o sentido em viver uma vida que você escolhe, pormenores, como vai ser? Não se trata de vida, se trata de fantasia. A fantasia do livre-arbítrio é recorrente por não termos linguagem para demonstrar e justificar nossa vida sem o livre-arbítrio.

É comum se referirem ao livre-arbítrio como sendo a solução para a justiça, pois é somente com ele que podemos culpar um assassino e não o meio, por exemplo. Ou seja, o livre-arbítrio existe em comparação a uma situação que nossa moral considera errada.

Não há a justificação do mesmo a partir de conceitos demonstrativos e não há linguagem para a sua falsidade exatamente por sermos limitados aos nossos preceitos morais.

***Atualizei a postagem, creio que havia errado na primeira análise sobre Bilho Eterno, relacionando com o materialismo histórico, não com o fatalismo cristão (que fiz agora). É isso.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

»

  1. Fala ae Vinicius, boa noite. Tu fez minha cabeça dar uma parada pra pensar. Na verdade eu estou pensando até agora e ainda não sei bem o que pensar hehe. Mas sabe aquela história da contradição? Que o mundo é uma contradição infinita e que sem uma coisa não existe a outra e vice versa? Então, eu acho que talvez esse esquema de livre arbitrio e destino pré existente talvez possam estar relacionados com isso, mas obviamente é uma opinião sem fundamento nenhum!

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  2. Não nego que eu mataria por um aparelhinho que me apagasse certas coisas da memória, viu, hehe.

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