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Morte de Khadafi, Revolução Francesa e Fome na África

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Esta semana Khadafi foi encontrado e morto pelo rebeldes na Líbia. As fotos e vídeos com a violência sobre Khadafi foram mostradas exaustivamente na televisão, em sites de notícias e pelas redes sociais. Isso me lembrou de duas situações: a Revolução Francesa e os documentários sobre a fome na África.

Basicamente, após ver exaustivamente a cara depredada do ditador Líbio, as pessoas arrancando seus cabelos, socando, depois de ver seu corpo morto, ensaguentado sendo exposto em um frigorífico, nós nos perguntamos (ou não): por que mostrar tais cenas? Não são pesadas demais? O que me leva instintivamente aos documentários sobre fome na África e guerra no Oriente Médio. Se os mortos dos conflitos no oriente médio são mostrados, por que não se mostra o corpo ensanguentado, morto, desfigurado, do ladrão do centro de SP?

Basicamente, esta é uma característica da nossa era atual. Enquanto, no século XIX os ideais utópicos travavam lutas com o sistema hegemônico, onde existiam planos para o futuro, no século XX e agora XXI, na era pós-moderna e pós-ideológica, o sujeito quer saber como é a coisa em si, sem interferência da ideologia. O sujeito quer alcançar de maneira direta a Nova Ordem que não conseguiu em todo séc XIX.

É isto que chamamos de Paixão pelo Real, e o preço a se pagar é a extrema violência no interior de sua veracidade. Logo, o desejo quase sexual pelo objeto se transforma em aversão devido a repugnância do Real.

Não seria esse o caso das reportagens sobre os famintos ao redor do mundo, mostrando seus corpos mazelados, mas nunca reportagens com os corpos dos mortos no centro da cidade? Quando mostram, há aquele truque de edição, onde não dá pra realmente ver o corpo, somente a cor vermelha do sangue, sem nitidez alguma. Ou seja, mostrar Africanos (que não estão no mesmo mundo que nós)

Essa aversão às reportagens contínuas sobre a morte de Khadafi e seu corpo exposto é o retrato perfeito da Paixão pelo Real. Entretanto, sua morte foi como a morte do Rei XXX na revolução Francesa: foi aclamada, foi esperada e exigida. Somente com a morte do rei haveria a morte do sistema que ele representava. Khadafi era a personificação do sistema ditatorial autoritário que ele comandava. Khadafi não era só um ditador, ele era o sistema.

Ele precisava ser morto, não adiantaria mantê-lo sob prisão. Sua morte era necessária para o fim simbólico do sistema ditatorial repressivo que ele comandava. Sua morte foi o suspiro da Líbia. É importante dizer: não existe garantia de que o poder estatal será controlado por paladinos democráticos, a morte simbólica daquilo que era a Líbia não dá garantias de que não haverá um outro ditador. Assim como foi dito por Zizek em seu discurso em Wall Street, é importante prestarmos atenção no dia seguinte.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. diante das atrocidades cometidas pelo ditador na Líbia, acredito que mais do que um símbolo da morte do sistema, trata-se da devolução por suas atitudes. Roubar, matar e torturar, e principalmente ir à mídia convocar seus fiéis para resistirem trouxe uma “sede de vingança” aos rebeldes.
    creio que, além do fator cultural, houve uma necessidade de registro dos fatos por quem desejaria muito ver o ditador humilhado. talvez um registro histórico, talvez apenas a necessidade por dinheiro daquele povo, que já enfrentava miséria (haja vista o estilo de vida luxuoso, em contraste com a situaçào da população), uma forma compensatória pela violência moral desde muito sofrida.

    Responder
    • A revolução nunca é revolução sem seus excessos. A violência da própria situação, assim como a decapitação da nobreza francesa, pode ser descrito como o excesso inevitável.

      Obrigado pelo comentário!

      Responder
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