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Esquerda Com Tecnologia, Bom Selvagem e Cientistas-Especialistas

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Dentre todos os preconceitos da direita em relação à esquerda, há um que eu acho muito bom: aquele a respeito das tecnologias. Algo do tipo, se você tem alguma tecnologia, você é capitalista, então, para ser de esquerda, você precisa viver numa aldeia no interior do Mato Grosso onde não há esgoto nem luz elétrica. Neste assunto, o que me deixa intrigado é como o pessoal da esquerda absorve esse preconceito e o reforça negando as tecnologias, reavivando conceitos pobres da vida no campo como libertação do mundo capitalista tecnológico e etc.

Seria o mesmo demonstrando em Avatar, eu digo, pois além de todo o etnocentrismo, há o mito do bom selvagem Rousseauniano. No Discurso Sobre As Ciências e As Artes, ele expressa como o sujeito foi corrompido pelos avanços da ciência e suas descobertas, e como a vida social era mais harmoniosa sem os conflitos que surgem com todo progresso científico.

A tentativa de voltar à tempos mais harmoniosos com a natureza e etc é não enfrentar o problema, é tentar conviver com ele com uma fantasia de liberdade, onde, na verdade, se trata de um limite mais estreito ainda. Se o capitalismo é global, como posso montar uma sociedade alternativa dentro dele sem suas influências? Como ela vai sobreviver? A solução para acabar com o sistema econômico vigente é regredir o modo de produção?

Lembro das sátiras aos protestos da USP, onde diziam que o término havia acontecido por que desligaram o Wi-Fi das dependências. Está aqui um exemplo perfeito da representação do revolucionário: o sujeito que parou no tempo, logo, o progresso (não no sentido conservador do termo) é uma dádiva liberal/conservadora, mas nunca revolucionária. Nossa luta será travada com arcos e flechas.

A sátira é a tentativa de desmoralizar o protesto pela suposta presença de tecnologias com cada participante, ou seja, um celular com Wi-Fi, por exemplo. Mas celulares com Wi-Fi são as coisas mais populares que se possa imaginar (e a China faz a festa no Brasil, quando se trata de venda de celulares com Wi-Fi à preços baixíssimos), inclusive entre as classes baixas. Então, além da representação do revolucionário historicamente atrasado, temos a representação da tecnologia sendo o reflexo da vitória intelectual do modelo capitalista, onde essas tecnologias só nasceram por que havia um incentivo por trás.

Se pensarmos bem, isso até que é verdade, porém, dentro do limite do sistema social atual. É como a frase de Zizek, “nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade”. Transferindo para a situação atual, só achamos que as motivações científicas são incentivos financeiros, na medida em que esse tipo de ciência (aquela que transforma os cientistas em especialistas para resolver problemas das grandes indústrias) é o único concebido.

Porém, o próprio cientista não é aquele que se entrega aos desejos de uma corporação e, sob determinadas bases, faz suas pesquisas. O Cientista é aquele que, acima de tudo, também questiona as bases, propõe novas e refaz a pergunta inicial, dando a ela um nova resposta, mais adequada à realidade, não à ideologia.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Curioso – o seu texto me lembrou de algo que li há uns dias, intitulado “Todo o seu conforto você deve ao capitalismo e aos ricos” (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1139). A identificação imediata do progresso da humanidade com o progresso tecnológico, a justificação positivística do capitalismo como sendo o responsável por esse progresso, o pressuposto implícito de que Volvos, iPhones e jornadas de trabalho de 40 horas são igualmente pertinentes na Áustria ou em Ruanda… quando leio essas coisas, não consigo deixar de me solidarizar com a indignação de Rousseau, apesar das ambiguidades, do pessimismo e de outras complicações de sua obra.

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  2. Acabei de ler o texto, diga-se de passagem, totalmente envolto na ideologia democratico-liberal da supressão da luta de classes e etc.

    Eu sempre gostei de Rousseau, até depois de ver o machismo de seus trabalhos, não deixo de admitir que é um grande filósofo social.

    Obrigado pelo comentário, Daniel!

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  3. O interessante no seu texto é que fica evidente como atualmente se dá a polarização das posições de esquerda e direita em relação à tecnologia: uma tecnofobia e uma tecnofilia, respectivamente. O problema de ambas é não contemplar as duas faces da tecnologia ao mesmo tempo: a tecnologia como força produtiva e como força destrutiva (vide a energia nuclear – produtora de energia e desastres naturais -, a linha de montagem – que torna a produção eficiente e gera alienação no trabalho -, etc.).
    Abraço

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    • Eu acho inútil a maneira de tentar “destruir o capitalismo” negando aquilo que é, pela linguagem, apropriado pela ideologia. Ou seja, eu tento acabar com o capitalismo negando a tecnologia, mas não tentando destruir as estruturas que transformam a tecnologia em um aspecto ideológico favorável ao sistema hegemônico.

      É como voltar no tempo, é dar um de Into The Wild.

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