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Botinha de Natal, Tradição, Vingança e Atentados de 11/09

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Esses dias o pessoal do lugar onde eu trabalho colocou uma botinha de natal na porta do escritório, como o escritório fica num prédio, a porta está no corredor em que o povo passa pra ir pros seus devidos empregos. Essa botinha é daquelas toda enfeitada e etc, dentro, eles colocaram um monte de balas, pra representar fartura e talz, mas penduraram um papelzinho de anotações, na borda da bota, escrito “Por favor, não peguem as balas”. Vale dizer que a botinha não é transparente.

Isso me deixou por um momento perplexo: se a bota é de pano, não é transparente, nem aparente ter algo dentro, por que escrever um bilhete para não pegarem as balas? Por que não, simplesmente, deixar as balas quietas na bota? Pelo mesmo motivo que as pessoas fazem doações, não falam que doam, mas deixam explícito o ato. Algo do tipo, “Eu faço doações para o orfanato, mas não quero fama, não conto pra ninguém”, porém, neste exato momento o indivíduo já está contando para um número seleto de pessoas que fez as doações e, ainda por cima, recebendo os parabéns pelo gesto de não espalhar o ato generoso, afinal, ele não contou pra ninguém, foi tudo anônimo! Ou, então, ele vai até o lugar, faz a doação e pede sigilo! É só o prazer de alguém saber que ele é um bom-homem.

Ou seja, ele colocou no próprio pescoço uma plaquinha escrita “sou um filantropo anônimo”.

O verdadeiro objetivo de pedir para respeitarem a “tradição” das balas dentro da botinha é demonstrar aos outros que essa tradição é seguida. O próprio desrespeito à tradição é desejado, para monstrar como em um mundo sem moralidade existem pessoas com valores tradicionais. No fundo, o objetivo de haver uma botinha com balas dentro e o recado para não pegarem as balas é, primeiramente, a interpelação do sujeito para a bala ser pega e o desejo do dono da botinha para a bala ser roubada.

Quero dizer, É para a bala ser roubada e É para saberem que existe alguém respeitador das tradições e etc. O fato de roubarem as balas e, por consequência, desrespeitarem uma tradição reconhecida, dá aval para a reclamação, para a exigência de mais respeito “em nossa sociedade sem valores e blá blá blá”. Pra terminar: isso tudo reforça a posição de pessoa moral. É a reafirmação do status social (ou a obtenção).

É como a posição dos EUA após o 11 de setembro. Aquilo não foi um desastre, ideologicamente falando, muito pelo contrário, foi um ótimo motivo para acontecer a guerra antiterrorismo sem represarias contra os EUA. Afinal, a vítima não tem culpa de revidar e toda agressão causado é justificada pelo primeiro ato de agressão.

A vingança é bruta por se uma ato de agressão justificado, sendo justificado, não há limites claros… Diria mais, há sim UM limite claro, que é o do revide igualitário, digo, se os EUA sequestrassem um avião afegão e atira em algum prédio seria uma vingança completa, porém, fora dessa lógica óbvia, as outras ações são difíceis de medir com precisão seu “grau de agressão”.

Durkheim diria que a tentativa de restituir o dano seria a reação de uma sociedade com alta divisão do trabalho à maioria das agressões à consciência coletiva (ou à sua cristalização, as leis). Porém, em uma sociedade onde há baixa divisão do trabalho e consciência comum forte, a punição agressiva, como expiação, surge dominante.  Eu diria que a reação dos EUA (claramente agressiva) e o respaldo primário se dão, não por serem uma nação com baixa divisão do trabalho (nunca isso), mas por tocar um ponto ainda forte na consciência coletiva.

Apesar da sociedade americana ter todo um sistema penal e alta divisão do trabalho, prevalecendo (por consequência) as consciências individuais naquela sociedade, o pedaço ainda restante e forte da consciência comum foi afetado: o patriotismo, o american way of life e etc. Toda a base da sociedade americana.

Por isso vemos que as reações do Estado americano foram catastróficas. Não houve restituição, só repressão e expiação, dentro de uma desculpa ideológica e interesses econômicos claros.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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