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Crackolândia, Internação Compulsória, Livre-Arbítrio e Demagogia

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As ruas da região do centro de São Paulo, no Bom Retiro, onde é chamado de crackolândia (pelo movimento alto de viciados em crack) foram tomadas. Ao passar pela Rua Helvetéia, já é possível ver acampamentos de usuários de crack, com fogões de duas bocas e, quando está frio, alguma fogueirinha. Já é um território separado da cidade, a própria PM reconhece sua existência como sistêmica e mantém o território dentro de um limite de proteção.

No entanto, assim como já é feito no Rio de Janeiro, a Comissão Especial de Políticas Públicas de Combate às Drogas aprovou uma medida, no mínimo, fascista. Aprovou a internação compulsória dos viciados. Ao invés de um acampamento de viciados, veremos um exército de protetores da ordem, todo o aparelho estatal, pronto pra violar cada indivíduo e seus direitos mínimos de existência.

Digo, existe o argumento de que o viciado perde totalmente a noção da realidade, mas creio que este artigo possa modificar um pouco do que se pensa. A maioria dos usuários de crack não são os viciados da crackolândia, mas são pessoas que fazer uso recreativo, são trabalhadores comuns, que ainda fazem distinções de certo e errado, que ainda vivem, que são produtivas (esse termo é pra convencer até conservador) e etc. Sem contar com a opinião pública, de que os direitos individuais dos usuários não podem ser levado em consideração por serem uma ameaça à sociedade.

Ou então, e esse eu acho mais interessante, a falsa visão de que os usuários entraram lá “por que queriam”. Pra sair, basta querer.  Argumento este, carregado de ideologia liberal, colocando como base de todo o julgamento e análise, o suposto livre-arbítrio de cada usuário, logo, ele só é viciado por quis entrar nas drogas. Uma simples questão de escolha e responsabilidade – como nos livros de autoajuda.

Esta é a expressão básica do individualismo liberal, onde a sociedade é uma soma de indivíduos, onde cada ato é um ato individual, onde tudo é uma questão de escolha e assim vai. Partindo dessa falsa premissa (do livre-arbítrio), o livre-comércio e todo aparato para sua perpetuação (como propagandas televisivas). Schopenhauer discute os três tipos de liberdade: moral, intelectual e física. Enquanto a liberdade moral é amplamente propagandeada, ela também cobre a liberdade intelectual e física sob véu. Ou seja, se não tenho uma fazenda, não significa que não tenho liberdade, significa que não estou usando minha liberdade da maneira correta. Se não tenho dinheiro para comprar um carro, não há impedimento físico, o que há é não-aproveitamento da sua liberdade para aperfeiçoamento e recolocação no mercado de trabalho.

Dentro ainda da internação compulsória, é bem preciso o higienismo da ação. Isso é puro fascismo, porém, um fascismo aprovado socialmente. O grupo diferente não será ajudado, só será retirado e, se a crackolândia é um problema estrutural, então retirar os viciados do local não muda nada. A causa da crackolândia ainda vai existir e novos viciados aparecerão em novos lugares.

Tudo isso nos leva a crer que a ação é só uma maneira de cativar a massa votante, por meios demagógicos (como esse higienismo coberto por uma pseudopreocupação social), sem tratar o caso com a profundidade que ele merece e precisa ter, para ser julgado de maneira consciente. Desta forma, partindo do conceito de Abrahan Moles da doutrina dogmática nos mass media, dados de fácil apreensão, informações de fácil assimilação, são todos absorvidos sem muita crítica e, nestas informações, já há embutido, a forma de julgamento da ideologia hegemônica, com todos os pressupostos incluídos, já que a doutrina dogmática tem como objetivo “dar ao público o que o público quer”.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. A mãe de um grande amigo meu trabalha fazem mais de vinte e cinco anos um projeto social próximo à praça Princesa Isabel, numa daquelas ruas que dão acesso à Cracolândia, estou inclusive devendo uma visita a este projeto para ajudar na festa de final de ano.

    Ela conta a história direitinho a história do crescimento do “movimento” de drogas da região e a transição dos “territórios”. Tenho uma tendência a confiar nas palavras dela por toda a integridade que esta senhora tem e existe uma coisa que ela acredita como essencial para a recuperação de viciados em drogas: a disposição do mesmo em SAIR da situação em que está, SEM isso não há recuperação verdadeira. E acredite essa senhora já ajudou na recuperação de muitos viciados desde o final da década de oitenta, vários jornalistas já a procuraram para tentar trnasformá-la numa mártire da Cracolândia e até agora ela tem recusado qualquer exposição dela ou de seu projeto social, estão então começando a levar outras ongs que sirvam aos interesses da mídia.

    Ela conta que durante MUITOS ANOS, o Estado simplesmente ignorou a situação na região e que “recentemente” devido à exposição na mídia o Estado resolveu intervir devido à visão esteriotipada que a mídia divulga, Cracolância se tornou plataforma eleitoreira, vi isso nas propagandas políticas das últimas eleições.

    Recentemente, devido à pressão da midia, a prefeitura de São Paulo recolheu vários usuários levando-os de ônibus até um galpão muito distante do centro e lá os deixando. Não sei se isso saiu na mídia, soube apenas por que conheço essa senhora que atua na região, inclusive foram feitas denúncias a respeito dessa violação e veremos no que vai dar.

    Olha Vinicius penso que é mais do fascismo (se isso for possível).O Estado assim agir para fazer com que estes que antes eram invisíveis sociais sejam internados à força por que representam “risco à sociedade” é fazê-los novamente sumir para mostrar que “algo foi feito”, eles não estaram lá fisicamente então o “problema” foi resolvido. O que mais vêm na minha cabeça neste caso é o clássico “Vigiar e Punir” de Foucault, a sociedade de controle não quer ver seus problemas estruturais então envia o problema para um prédio cercado de muros, coloca pessoas para vigiar e pronto, tá tudo resolvido.

    Quem não trabalha com usuário de drogas tem uma visão absurdamente esteriotipada dos mesmos, é muito fácil julgar e chamá-lo de “problema social”, porém SÓ usuário de droga POBRE é o problema, a Cracolândia é o exemplo perfeito da falha de TODAS as instituições clássicas e por isso precisa ser escondida por tais medidas. O usuário de DROGAS rico e classe média não é considerado um problema, suas famílias se encarregam de escondê-los em clínicas de reabilitação realmente boas.

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    • Sobre a internação compulsória, há um video do Vladimir Safatle no Jornal da Cultura, onde ele tenta debater que é necessário um engajamento pessoal para a recuperação. O interessante é que, enquanto ele perde o pouco de cabelo que resta tentando manter uma posição, a âncora e a professora de Direito internacional convidada defendendo de todas as maneiras a “ordem social” e a integridade da maioria da população e etc

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  2. Esse esquema das cidades de jogarem o usuario de um lado para o outro é bem comun aqui pelo litoral aonde moro, em especial na temporada. por que será?

    Vinicios gostaria de saber se o outro cara que postava nesse blog começou outro blog, se ele fez isso vc pode me passar o endereço por favor?
    abraço

    Resposta
  3. Pingback: Censura, Liberdade de Expressão e Momento Histórico « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althusser, Al

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