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Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal, Conservadorismo e Branquização Negra

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Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal é um filme de 97 dirigido por Clint Eastwood, onde um jornalista vai até à Savannah, uma região aristocrata do sul dos Estados Unidos, cobrir a festa de Jim William, novo-rico culto da região. O centro da história é o julgamento de Jim por um suposto assassinato. Ele teria matado seu empregado, um rapaz nervosinho, drogado, malvadão, e destrutivo. Cena vai, cena vem, descobrimos que o empregado também era parceiro sexual de Jim.

Bom, o filme, no fim das contas, não é interessante pela história em si, o que ele tenta nos fixar. Não é nem um pouco interessante saber se Jim é ou não inocente, se a água do potinho do louco é ou não veneno. Creio que, no fim, intencionalmente ou não, esse filme é um expressão conservadora de primeira.

Durante o filme, o jornalista vai a um baile da sociedade negra, onde, em todos os detalhes, há a tentativa de parecer um grupo de brancos da alta sociedade, isto está até mesmo nos próprios comentários dos personagens, na maneira de falar e nas referências que utilizam como padrão, nos levando a uma conclusão óbvia: se trata, então, de uma crítica (do diretor em relação ao racismo), o modo como as falas são colocadas com uma suposta naturalidade e dentro de um contexto tão obviamente racista e etc. No entanto, a tentativa de crítica foi falha. A sociedade inteira de Savannah é aristocrata, sulista e racista. Dá pra perceber isso nos empregados da cidade e na personagem marginal, um travesti que, a todo momento, se introduz como uma dama da alta sociedade – como uma alta dama tipicamente branca. Não há crítica exposta, o filme não abrange a crítica, ele a suprime.

Onde eu quero chegar? Para haver uma crítica ou somente uma exposição de uma situação, é necessário que haja uma relação do exposto/criticado com todos os elementos do filme, assim, a crítica/exposição tomará seu curso e será, naturalmente, absorvida ou repudiada (dentro de determinados valores já cristalizados do expectador). Agora, qual a relação do baile da sociedade negra-ingênua-proto-branca, da sociedade aristocrata branca, com o resto do filme? Não é possível apontar algum caráter de crítica nessas situações por elas mesmas, a crítica não é a interpretação pessoal em relação ao filme, mas a manifestação do filme. Não há maneiras de supor haver uma crítica ou só uma exposição, é necessário que haja algum personagem, algum evento chave que defina a posição dos eventos dependentes.

Neste momento eu gostaria de lembrar de uma cena genial, onde a mestra do voodoo acaba brigando com o espírito do assassinado, e, a única parte da briga que ouvimos (pois ela própria retruca o espírito), é aquela onde o espírito explica ter tido uma vida difícil, e, em resposta, a mística responde com algo do tipo “Você não teve que criar filho nem lavar a louça, você não teve a vida difícil, eu tive! Você teve uma vida fácil” – lembremos que ele era prostituto.

Pra mim, este é o ponto chave. É aqui onde a personagem negra, a personagem-agente negra, participativa em boa parte do filme, se demonstra altamente BRANCA. Sua negação da vida difícil do assassinado e a definição da própria vida como difícil, pois teve que cuidar de filhos, ser dona de casa e etc, e após isto, imputando o rótulo de vida fácil para o rapaz, é o manifesto conservador cristão da vida justa, dura, suada e difícil (consequentemente, uma ode à vida doméstica – uma expressão da alienação em relação à divisão social do trabalho, reconhecida exterior ao sujeito e, desta forma legitimada, além da união com o conceito do trabalho que dignifica), em contraposição da vida fácil (da vida do meretrício, da prostituição).

Ela assume uma discurso moralista numa roupagem transgressora! Ela é branca disfarçada de negra! É como um índio brasileiro defendo o progressismo malufista em prol do ensino moderno às crianças indígenas.

A segunda forma de julgar a maneira como o filme se faz racista, é na própria resolução do caso. Jim não é inocentado, ele morre. A justiça acontece e, quando menos esperávamos, surge a mística do voodoo, reiterando sua participação e sabedoria da verdadeira justiça – a justiça cristã. O conceito de justiça divina, absoluta, os valores cristãos impregnados (e expressados na briga da mestra voodoo), juntamente com a forma subjetiva de ironizar a dúvida do jornalista – “Vai me contar o que realmente aconteceu?” – “Aconteceu o que você acha que aconteceu e o que eu sei que aconteceu” – sendo destruída pela justiça concreta e objetiva. A verdade impera acima de qualquer cabeça humana, entretanto, ela é acompanhada por uma figura supostamente dissociada desta noção de verdade absoluta, exterior e inevitável.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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