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Morte de Kim Jong-Il, Personificação do Estado e Brecha na Liderança

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Com a morte de Kim Jong-Il, estabelece-se uma tensão na Coreia do Sul, uma preocupação com possíveis ataques, já que o peso que equilibrava a situação delicada entre as duas Coreias era a “estabilidade” levada pelo então líder do país. Essa “estabilidade” temporária faz parte da imagem de ditador sanguinário aloprado que os meios de comunicação distribuíam aos espectadores. Kim Jong-Il era um Calígula moderno, pelo menos é assim que sua imagem é transmitida. Sem contar com o suposto drama nuclear e a ajuda nobre americana à Coreia do Sul.

Não há dúvida de que a Coreia do Norte era uma ditadura totalitária dinástica, era um stalinismo de olhos puxados, e é exatamente por isso que a morte do líder foi ocultada durante dois dias, até ser anunciada pela tv estatal. Se um ditador totalitário é a encarnação de seu regime, a morte do líder é a desestruturação do mesmo. O culto a personalidade, toda propaganda de endeusamento do ditador, fez de sua morte a morte de algo maior que um líder de um país, a morte de um líder de vida, destinado ao que fez.

Dentro desta perspectiva, aliando também o significado simbólico do próprio líder autoritário, é notável que somente com a morte dele que pode haver alguma mudança real, significativa, e seja ela qual for, no regime autoritário. Melhor, é necessário haver a morte simbólica do líder (para haver a morte simbólica do sistema por ele representado). Percebam em Cuba, onde a força simbólica do Fidel tem diminuído, porém, mesmo assim, nenhuma reviravolta -esperada- aconteceu. É a espera pelo momento messiânico, pela morte de Fidel e o fim do sistema comunista cubano.

A morte de Jong-Il  não foi declarada no mesmo instante que aconteceu pelos mesmo motivos que a morte de Stálin também não foi, ou que a morte de Fidel não será. É necessário preparar um novo substituto simbólico para assumir a representação do sistema. Desta forma, não há a brecha exposta da falta de poder ou de administração no sistema. Não é demonstrado o caráter não-popular e não-democrático do Estado em forma crua.

Se a morte é divulgada e não há um sucessor definido, a representação simbólica do Estado fica a vagar, já essa falta de lugar fixo para representatividade do sistema, depois de sanada em público, ou seja, com a “coroação” do novo líder sendo feito tudo em esfera pública (desde a preocupação com a liderança, até a própria declaração de “secretário-geral”), remete automaticamente ao caráter totalitário do sistema – oras, o novo líder foi nomeado por qualquer um e, de repente, tomou o poder do Estado. Isso revela mais um caráter pessoal de política do que realmente um caráter político ideológico.

Logo, a própria nomeação em meio à turbulências leva à conclusão de determinado regime ser, na verdade, um regime pessoal. A nomeação acontece anteriormente, já planejado, remetendo a representatividade do Estado como sendo algo maior e em uma realidade diferente do próprio líder. Como um ser ontológico.

Para nós, a crítica é sempre óbvia e reta, mas, para eles, com todo o culto à personalidade, com a falta de informação nos veículos de comunicação de massa, qualquer brecha pode desencadear aquilo que a própria situação material pulsa – uma revolta violenta.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Excelente post. Descreve bem a estrutura de controle de realidade dos Estados Totalitários, de como transformam seus líderes em deuses e criam religiões políticas que instituem um controle social que seria inimaginável até para os reis absolutistas da Europa.

    A manutenção destes sistemas não se faz senão pelo controle da mente e do corpo dos súditos, seja através da mídia, seja através da educação estatal, da “história oficial” e dos aparelhos de repressão e censura.

    Resposta
    • A supressão de informação e a forma de expressar a informação são interessantíssimas “coisas” para análise. O culto à personalidade acaba levando ao choro do coreanos, juntamente com a naturalidade da nomeação do “novo imperador”, feita antes da informação da morte chegar à esfera pública.

      Resposta

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