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Caso do Cachorro Morto Pela Enfermeira, Manifestações na Web e Pastores

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Após o caso da enfermeira que espancou o cachorro, eu vi um monte de desabafos na internet, um levante contra a moça que surrou o cão, mas esse levante, essa expressão de indignação tinha como pano de fundo uma agressiva violência subjetiva – puramente o olho por olho que o avô do seu avô defendia como lei absoluta – cuja tradição não retira de nosso cotidiano o “instinto” da força física.

É óbvio que a probabilidade de, não sei, uns 90% dos manifestantes comam carne no almoço e na janta, mas – e agora vem a minha crítica – isso não invalida a manifestação. Simplesmente, essa não é uma manifestação pró-animais, mas sim, uma manifestação pró-ordem-social. Quando as normas sociais e os valores são cristalizados, qualquer tipo de agressão é contragolpeado de maneira organizada e/ou difusa. As reprovações pela internet assumem o caráter de sanção difusa, que tem força unitária (que é a expressão de cada indivíduo), porém, estando num espaço social sem normas sociais repressivas onipresentes (a internet), também não há o limite da expressão. A internet é um campo livre, onde o sujeito caminha com cautela por temer o aparecimento de um obstáculo, mas este não se encontra lá.

As tentativas dos verdadeiros protetores animais de revelar a falsidade das manifestações pró-animais não leva em consideração que, assim como o cachorro tem um status, digamos, privilegiado em relação aos outros animais, a vaca também tem um status, não tão privilegiado, mas diferente: não exatamente a vaca, o animal, mas a sua carne é, historicamente, representação de poder. Comer carne não é pra qualquer um.

Em um determinado ponto, no documentário da Elza Soares, ela comenta sobre o destino que um “especialista” deu para sua voz, logo no início de sua carreira, “em um mês sua voz já era”, e ela respondeu “porra, mas logo agora que eu tô comendo carne!”. Pra mim, esse exemplo é perfeito.

O consumo da carne sempre deve ser atrelado a seus fatores sócio-econômico-político e, também, culturais. É óbvio que este texto não é uma aprovação ao consumo de carne, mas sim uma crítica à postura auto-pedestalizada da crítica supostamente esperta do grupo revelador da verdade que se esconde por trás do véu da ideologia – porém, sem encontrar o véu para provar a desmistificação.

Então, o ponto é: não é desta forma que a questão do consumo de carne deve ser levada. Não é criticando oportunamente fenômenos sociais que são, em sua superfície, relacionados aos animais. É cair na ideologia, é não analisar a própria pergunta para, depois, responder de maneira cautelosa.

Se a atitude dos ciber-manifestantes é de um alarmismo aterrorizante, a atitude dos críticos é de um alarmismo tão aterrorizante quanto… Tem como base a sociedade hipócrita, mas não entende o que é a expressão simbólica do fenômeno.

Me parece o pastor, identificando as mazelas da moral como consequência do hedonismo do mundo contemporâneo, ou seja, descobrindo que a liberdade alcançada é, na verdade, um aprisionamento espiritual e etc.

O verdadeiro aprisionamento espiritual não seria essa crítica ao hedonismo sem analisa-lo como uma consequência histórico-social? Sem perceber que ele própria alimentar a prisão religiosa dos espíritos supostamente revolucionários?

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Essa discussão toda me faz lembrar do caso dos restaurantes coreanos que foram fechados por servir carne de cachorro. Obviamente que não se tratava de simples medida pró-animais, mas uma punição pela “transgressão simbólica” dos coreanos. “Afinal, onde já se viu alguém comer seu melhor amigo?”, perguntaria indignado o “cidadão de bem”. Os hindus devem olhar para o ocidente com a mesma indignação.

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  2. Bem lembrado!

    Eu creio que todas as medidas precisam ser analisadas por aquilo que ela realmente expressa, não o primeiro discurso (Gota D’água, Comercial do PSC etc e etc).

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  3. A sua critica também vale para a questão da poluição. É bem simples: as pessoas querem exibir o seu premio por aí

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  4. Então Vinicius eu me referia ao outro rapaz que postava texto sobre filosofia.

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  5. Não estamos na Índia, embora todo animal devesse ser igualmente tratado – com respeito.

    Mas, já que estamos aqui, seria muito melhor comemorar que a defesa de um cachorro, além de fazer muita gente se importar, pelo menos, com cachorros, o que já é alguma coisa, pode fazer com que, futuramente, abram os olhos pra outros animais.

    Mas é mais fácil escrever um textinho pra criticar o mundo, né?

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    • Gostei do comentário.

      “Mas, já que estamos aqui, seria muito melhor comemorar que a defesa de um cachorro, além de fazer muita gente se importar, pelo menos, com cachorros, o que já é alguma coisa, pode fazer com que, futuramente, abram os olhos pra outros animais.”

      É exatamente sobre isso que o texto trata. Não foi defesa de um cachorro, não foi defesa animal – fato de um animal ser defendido, foi mero detalhe.

      “Mas é mais fácil escrever um textinho pra criticar o mundo, né?”

      Pronto. Essa frase parte do pressuposto que, por exercer um atividade intelectual (escrever), eu estou “acomodado”. Ela mantém a separação entre teoria e prática e promove um certo “saber intrínseco” de quem FAZ, algo que a própria tentativa e erro pode levar, enquanto, do alto de seus castelos, os intelectuais ficam discutindo metafísica ou tecendo críticas abstratas ao mundo, mas sem mover um dedo.

      O legal também é que você botou um MAS logo no início da frase, insinuando que realmente há algo sendo feito e que eu não entendi a lógica complexa das ações das massas que não precisam exercer atividade intelectual pra saber o que fazem – errado moça, tanto entendi, que fiz uma crítica e que você não entendeu o que leu, a prova é o parágrafo anterior, que condiz com o que eu havia criticado.

      Depois, você coloca um “textinho pra criticar o mundo” – primeiro, insinuando que isso não é uma crítica, embasada e etc, mas só um desabafo de adolescente, ou algo sem muito valor, afinal, se trata SÓ de um blog, não? Pois é, eu creio que o fato do texto estar em um blog e não em um ensaio acadêmico ou em um manifesto distribuído nas ruas pelos anarco-radicais-protetores-dos-animais não o rebaixa a “textinho”. Após isso, vc confirma a hipótese do texto ser só um desabafo de criança, o texto é uma “crítica ao mundo”, é um berro de um ser humano que não pode mudar o mundo, mas fica vomitando suas “verdades”, não? Eu poderia dar uma de filho da puta e dizer que não tentei criticar o mundo, só um fato do cotidiano, mas eu sei que essa expressão não foi utilizada ao pé da letra, e sim, simbolicamente.

      Concluindo, meu texto não tem valor por estar em um blog e por ser um desabafo, além de ser somente uma atividade intelectual.

      Agora eu te pergunto:

      A atividade intelectual não seria a base para uma atividade prática que condiz com a realidade e que não cai em truques ideológicos? Sendo assim, a atividade intelectual tem o mesmo valor que a atividade prática, pois, desta forma, chegamos fácil a conclusão de que a atividade prática, por sí só não é nada sem a atividade teórica, e que ambas precisam ter seu valor teórico e prático. O fato de eu fazer críticas à realidade empírica, aos fatos do cotidiano, àquilo que está ao seu alcance, não torna a própria crítica uma atividade prática. Perceba, eu não estou discutindo sobre a transubstancialidade de Cristo – é sobre uma manifestação supostamente crítica, mas que cai dentro da ideologia e que atrai de maneira traiçoeira.

      Outro, por estar em um blog, o texto se torna um desabafo, ou por estar em um blog e por não ter embasamento, ele se torna um desabafo? Não sei, APONTE os erros no texto. O pressuposto de ser “só” uma atividade intelectual ainda não retira a crítica objetiva do texto, ou seja, não dá pra desqualificar por eu ser uma engravatado da academia que fica atrás da mesa do escritório. Pois é, onde estão as falhas do texto? Onde ele não é embasado? Onde a crítica é falha? Você não apontou nada, só insinuou que o texto não tem valor, pois é um “textinho pra criticar o mundo”.

      Então, eu creio que você só é mais uma na massa que acha não estar na massa. Sabe? Quando o discurso é diferente, mas, no fundo, é a mesma coisa? Quando tudo se torna homogêneo e racionalizado, classificado, e toda a diferença é detalhe não-importante?

      É só o fan de Bjork que gosta de sua “música estranha”, se coloca em uma lugar a parte da massa sem saber que, a própria maneira de gostar da artista, puramente em sua expressão estética, sem profundidade nenhuma, já o transforma em massa.

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  6. Sou um ser humano “carnívoro” com muito orgulho e nem por isso concordo com o fato ocorrido com o cachorro, se fosse uma vaca eu também teria ficado perplexo com o fato, o problema não é a morte, mas com a falta de dignidade que veio sobre o animal, se uma vaca morre imediatamente, sem sofrimento, porque eu deveria sofrer ao me alimentar, mas a maneira que o animal foi tratado, e sem o objetivo de alimentar outro ser vivo, isso acho inadmissível.
    Um homem para sobreviver na selva precisa se alimentar de outros animais e cuidar que outros animais não se alimentem dele, mas a morte deve ser rápida como forma de respeito ao animal que o alimenta e que o ajudará a sobreviver.

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  7. Olha,o que sei ,é oque ví.A vaca.a galinha ,etc.são abatidas,acho muito triste também e pretendo ser vegetariana,mas o que essa praga de mulher fez ,com o cãozinho,não tem desculpa ,não Eu me importo com as crianças órfãs,ajudo entidades,sou pobre,viuva,professora aposentada. Mas essa conversa de que demos muita importância a esse caso do cãozinho,temos que dar mesmo.Eu amo todos os animais,se eu enxergar alguem batendo neles,mutilando,fazendo o pânico eo medo nos frageis animais,crianças,velhos,eu parto para cima.Chamo a polícia e tudo. Pena ,que no Brasil não se faz a devida justiça nesses casos,nem em nenhum,eu acho.Se fosse nos Estados Unidos,ela já estaria pagando a imensa crueldade! Por que essa Coisa não deu o animalzinho? Temos que dar e muita importância a casos assim,que vemos com os próprios olhos! Me fez muito mal,fiquei com raiva,dó imensa do cãozinho com tanto medo,acuado,molhado e devia estar tremendo! Ô Deus,a vontade é de dar uma surra nessa Praga,tranca-la por bom tempo,na prisão e depois ela prestaria serviços nos canis,dos pitbuls,bem grandões.Eu não sou ruím,nem louca,mas com issi,eu fiquei!’ criei com amor tres lindos cães.Dois coockers e um pedurinho lindo! Eles já partiram,mas ficaram conosco 18 anos,14 anos e 13.Tratados iguais filhos.E quando doentes foram cuidados,por veterinários excelentes,por mim,por meus filhos! Ainda choro a falta deles e pago até hoje o tratamento,com muito amor! Essa Coisa Ruím devia saber que os animais tem os mesmos direitos dos humanos.Vida alegre,feliz,passeios e quando doentes,tratamento com muito amor! E devo dizer que defendo também o pobre burrinho,que puxa uma carroça muitopesada e são açoitados! Aliás defendo á todos os fracos que são maltratados e assassinados pelos mais fortes!

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  8. Pingback: Cura da Homossexualidade, Suposta Simetria e Essência Sexual « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althu

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