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Carros, Individualismo e Desejo Não Realizado

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As propagandas de carro prometem mais do que um meio de locomoção, mas do que uma máquina que te faz ir do ponto A ao ponto B. Prometem individualidade, exclusividade e etc. Nunca há um ponto sem um contexto ideológico por trás. Esse texto tenta mostrar uma face de um tipo de comercial de automóveis.

Os comerciais do tipo “libertação” são muito comuns, e se traduzem da seguinte forma: o indivíduo vive em sociedade, porém, essa sociedade acaba reprimindo sua individualidade, coisa que ele poderá conquistar com um carro, este que, em contraposição ao ônibus, representa a superação da ditadura da coletividade. Se o sujeito utiliza carro, ele pode exercer sua individualidade da maneira que quer, dentro de sua propriedade, dentro de um espaço social próprio, onde as relações de poder estão determinadas por ele. É lá em que a sensação de Deus pode ser experimentada.

O comercial onde, primeiramente, o motorista deseja que toda cidade esteja vazia, depois, deseja que só existam mulheres, pode ser o exemplo perfeito. A necessidade da libertação é expressa pelo varrimento de todos do espaço geográfico, seus empecilhos, suas barreiras, quando o espaço geográfico está vazio, abre-se a oportunidade de se criar as próprias normas, as próprias leis – não há mais espaço social, ou seja, não há mais localização dos indivíduos, grupos e etc em posições sociais. Só uma pessoa, e essa pessoa é quem determina tudo que pode acontecer. Porém, e agora vem a parte que confirma a posição de Deus, de poder designador e significante: o indivíduo deseja que o mundo só tenha mulheres, então, de repente, guardas, pessoas na rua, todos assumem o corpo de mulher-padrão. É o total controle da própria vida e até mesmo daquilo que foge dos limites físicos. É uma ode à individualidade, mas uma ode retardada.

Simplesmente por que esse desejo da propaganda comercial nunca será realizado.

A vida não é isolada e ter um carro não a modifica. Como bem posto por Eduardo, a própria existência de outras pessoas com carros já atrapalha a realização do desejo fabricado pela indústria cultural, afinal, a aceleração de um é a não-aceleração do outro na mesma via. O outro é oposição à realização do desejo. O congestionamento é a realidade.

Então, esse individualismo ilusório toma proporções enormes quando começamos a ver outros símbolos da individualidade do sujeito, por exemplo, os adesivos com a profissão, onde cada pessoa coloca as figuras das pessoas da família e etc. Já reparam que todo mundo tem um adesivo desses? Esse adesivo é a representação perfeita dos limites do individualismo ilusório vendido pela indústria cultural: aquilo que é exclusivo, é de massa. Perde totalmente a autenticidade exatamente por ser reproduzido em massa, assim como o próprio carro, que, sendo a exposição da individualidade do sujeito, ou a confirmação de seu status (outra função latente da indústria cultural, porém, não vou abordar muito sobre esse aspecto neste texto), ainda é uma expressão de massa, classificada e racionalizada.

Se dentro do carro, o rei impera, fora do carro ele é só um senhor feudal entre vários.

Mas a outra parte interessante vem da própria consideração do individualismo como natural. Óbvio que a indústria cultural é puro aparelho ideológico, porém, sem uma sociedade de consumo ela não existiria da maneira como é hoje. Essa sociedade do consumo é a sociedade livre, democrático-liberal, baseada nos princípios iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. Após a guerra fria, principalmente, a derrota do comunista e das ideologias que pudessem derrotar o capitalismo foi tida como incontestável, a nossa era foi classificada como pós-ideológica, onde somente teríamos a realidade como ela é: a vitória do capitalismo não foi a vitória de uma ideologia, foi a confirmação de que o capitalismo é o sistema ideal pra sociedade, ou melhor, que a democracia liberal é a melhor forma de se administrar um Estado.

Para voltar aos meus cacoetes de citar Todo Mundo Odeia o Chris, lembra do episódio em que ele compra o carro? Neste episódio ele tenta até mesmo estudar no carro, pois, de acordo com ele próprio, “no carro ele tinha sossego, pois era SEU lugar”, porém, vale lembrar da Roxelle atuando sempre como o controle estatal, impedindo o livre exercício do Chris e sua individualidade. No fim, Chris vende o carro, já todo depredado – não seria esse o retrato do atual individualista? Prestes a transferir sua individualidade, já que, isso é claro, a democracia-liberal está a cada dia mais afundada?

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Gustavo Candotta

    Bom texto!! Penso da mesma maneira, tanto que estou com um post engatilhado sobre isso! Vou inclusive colocar um link recomendando seu post. Só adiciono a esse comportamento do motorista-rei-individualista a cultura do “o cliente tem sempre razão”. Parabéns!

    Resposta
  2. Diante de tudo isso, fico pensando que o maior inimigo do individualismo é o próprio individualismo.

    Como para tudo existe um limite, logo os indivíduos “insulares” se veem constituindo, em conjunto, um grande “continente” — já que cada ilha ocupa cada vez mais espaço, com suas necessidades ilimitadas.

    Para além do trânsito, que é o exemplo mais acabado desse limite que cada um vai impondo ao outro, me chama a atenção o próprio mercado imobiliário. Cada vez mais as pessoas que desejam diferenciação procuram se isolar, vivendo em condomínios fechados à beira de rodovias. Ao mesmo tempo, como reflexo do aumento da demanda, cada vez mais surgem novos condomínios e a desejada exclusividade vai por água abaixo.

    O livre mercado se mostra como o mecanismo mais eficiente para gerar frustração.

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