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A Cura dos Transtornos, A Auto-Ajuda Barata e O Sujeito Sem Interior

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Ultimamente eu tenho escutado uma versão muito boa dessa auto-ajuda barata, muito comum em empresas como motivacional e em novelas com famílias de classe-média com sua crises existenciais pós-modernas. Basicamente, o que tenho escutado uma dezena de vezes se resume em, “Cure-se enfrentando o seu medo”. Parece ser algo sério, bom, racional e etc, entretanto, nisto se esconde uma tremenda falta de sensibilidade com os “medos”. Digo isso, pois os medos não são somente medos, os medos tratados por esse tipo de argumento atingem os problemas psicológicos.

Nesta lógica, quem é tímido, deve enfrentar sua timidez para ser “curado”, por exemplo, falando em público; quem é esquizofrênico deve “enfrentar” sua alucinações, deve ficar ciente de que são alucinações; quem sofre de mania de perseguição deve enfrentar o medo e ir a uma balada, por exemplo; quem sofre de síndrome de pânico deve, sei lá, todos os dias de manhã correr para um lugar super-movimentado no centro da cidade.

O problema é que não há somente “medo”. Chega a ser um reducionismo barato e fajuto. São problemas complexos que merecem a visão adequada, não o tratamento fajuto de uma palestra motivacional ou um audiobook gratuito da internet.

Eu não sou analista, não tenho propriedade para dizer como um problema psicológico pode ser resolvido, mas posso, com extrema propriedade, dizer que os cidadãos-de-bom-coração que tentam ajudar com ideias estapafúrdias não fazem ideia do que estão falando.

Aqui, não assumo uma posição subjetivista, onde só os judeus sabem dos problemas dos judeus, ou só os negros sabem dos problemas dos negros, ou só as mulheres sabem dos problemas das mulheres. Creio que os problemas são objetivos, entretanto, para dizer que uma síndrome psicótica (por exemplo) será curada “enfrentando o medo”, o sujeito já afirma no exato momento que NUNCA sentiu o “medo” de que está falando. É mais fácil agravar a situação do que curá-la.

Porém, aqui pego um ponto muito interessante (na verdade, não é tão interessante, mas é importante no saber prático): sempre há um idiota para referir à sua própria cura autônoma por meios simples de enfrentamento. “Eu curei minha timidez/esquizofrenia/bipolaridade enfrentando o medo, viu?”. Repetindo, eu não sou analista, mas o ponto é: essas pessoas, por favor, quando isso acontecer, reparem com cuidado, NÃO sofrem/sofreram de merda nenhuma. Acordam felizes e vão dormir tristes, pronto, são (pessoas) bipolares. Sentem vergoinha de apresentar trabalho, pronto, são tímidas, estão tristes-num-dia-chuvoso-assistindo-filmes-europeus, pronto, são depressivas. Transtornos psicológicos foram banalizados! Perderam seu real significado. Estes transtornos são horríveis, não são um choro no meio da madrugada ou tristeza ao ver a Amelié Poulain fazendo o macarrão sozinha.

Eu não entendo como isso aconteceu, entretanto, ter algum mal psicológico é status, dá significado ao sujeito, molda sua personalidade, molda seu eu. Mas, novamente citando Adorno (puta merda, que medo de falar besteira com o nome dele), isso é racionalização da palavra. É simplesmente relacionar depressão e tristeza, retirando todo o complexo de relações que existem além da simples tristeza; o mesmo vale para o transtorno bipolar e o exemplo irônico descrito acima.

Ponho minha reputação (???) sob julgamento arriscando dizer que essa tentativa de “cura” por enfrentamento do medo é produto da noção de que não há discurso errado, cada um tem sua verdade e etc, portanto, cada um consegue se resolver e se entender melhor que qualquer teoria psicológica (que massifica a individualidade e blá blá). E que a banalização dos males psicológicos são reflexo da real falta de significado que viver uma vida com relações de curto prazo, pós-ideológica e destruidora das utopias pode levar.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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