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Expulsão no BBB, Liquefação dos Problemas e Democracia Brotheriana

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O membro estuprador do BBB foi expulso do programa. Ponto final? Agora acabou? Fiquemos felizes e que o programa continue? Eu acho que seria de uma idiotice imensa se eu começasse a tecer críticas sobre a população brasileira que não age contra esse tipo de programas, etc e etc, ou que já se esqueceram do ocorrido, que o brasileiro se esquece dos fatos importantes etc e etc. Eu queria abordar, meio que superficialmente, a maneira como a expulsão aconteceu.

O sujeito foi expulso e o problema foi dado como resolvido. Simplesmente. Ou seja, foi uma expressão individual, idiossincrática, nada condizente com o cotidiano. Eu não acredito nisso. Creio que a questão precisa ser levada muito mais a sério. Como eu já deixei escrito no post passado, essa maneira de levar o problema é caótica. Ela coloca, por sua vez, a culpa nos participantes, individualmente, retirando qualquer tipo de responsabilidade do programa. É óbvio que o programa não incentiva o estupro, isso é claro e seria de tamanha demência, mas o programa é o fruto do entretenimento, da diversão como um fim em si – é massificação da individualidade por excelência, quando mostra os detalhes da idiossincrasia do outro.

O programa merece ser culpado somente pela existência, depois, por escancarar o que aconteceu e depois execrar o ato. Tudo isso, somente para ganhar alguns pontos no ibope. O interessante é que, primeiro o ato imoral é exibido, depois, quando o resultado objetivo é positivo, quando a audiência aumenta, quando o programa passa a ser assunto nas conversas alheias, é necessário deixar claro a posição moral da emissora e do programa em relação ao ato. A emissora não aponta o dedo para o sujeito, mas o expulsa do programa – ela absorve a crítica da massa, a reprovação do povo em relação ao estupro e, mesmo sendo, supostamente, contra sua verdadeira opinião, democraticamente (já que, quem manda no BBB é o público) expulsa o participante.

Expulsar o participante e declarar uma neutralidade venenosa sobre o caso é afirmar publicamente que os pressupostos democráticos do programa, como o respeito à decisão autoritária feita público, não foram corrompidos. O programa se passa como um bom representante da modernidade democrático-liberal, mas tenta esconder os podres que carrega em seu núcleo. Por que ele foi retirado do reality show? A nota publicada diz que ele infringiu uma regra do programa – não uma regra moral, social, uma lei formalizada e etc. Ainda não há declaração de um órgão formal sobre o caso, classificando ou não como estupro.

Também nós reparamos na posição da vítima, a moça que sofreu o abuso, sem se lembrar do que ocorreu, talvez pelo horror da situação, continua a negar o que (lhe parece que) houve. A negação dela dá o aval para a não-conclusão dos acontecimentos, entretanto, mesmo se ela não negasse e assumisse uma postura sincera, admitindo que não se lembra e, por conta disso, não pode declarar nada com objetividade, está tudo gravado, toda a situação, desde o início.

Quando a subjetividade, mesmo cínica, ganha mais espaço que a objetividade crua, creio ser necessário perguntar: até que ponto vale a opinião dos participantes? Ou melhor, até que ponto a subjetividade da vítima é verdadeira? Pois é de se pensar que a negativa da vítima aconteceu pelo próprio significado simbólico do estupro. Quem gostaria de ser estuprado e não se lembrar… Pior! Levar a culpa por isso, afinal, quem mandou beber?!

Por que há mulheres que sofrem violência doméstica e negam o fato? Não creio que a resposta “por que ama o marido” ou “por medo” seja suficiente, acho que elas precisam de um reforço: não é só por medo ou só por amor, é pelo próprio significado da violência doméstica e a desestruturação que ela representa, assim como a desigualdade, dentro do relacionamento/família patriarcal. Quando há a denuncia, tudo isso é superado, e, por isso que cada denuncia é um ato de extrema força e extremo desespero (infelizmente).

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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