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Cura da Homossexualidade, Suposta Simetria e Essência Sexual

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A defesa de uma suposta liberdade individual, atualmente mediada pelo Estado, restringida por um órgão coletivizador, é o tema central de defesa de um projeto de decreto legislativo que pretende retirar alguns entraves à santa liberdade humana, sempre tão respeitada pelo cristianismo protestante, religião do deputado que defende o projeto. Desculpe, mas é óbvio que este decreto não tem objetividade nenhuma – simplesmente por desconsiderar que o sujeito não é livre para fazer suas escolhas de maneira plena.

Quando o projeto tenta anular um entrave à liberdade individual, como a liberdade de se curar da homossexualidade (WTF?!) partindo do pressuposto que essa deve ser uma escolha do paciente e que é ele que deve saber o que fazer de sua vida, ao mesmo tempo esquece que a vida acontece em sociedade e que está joga uma trama complexa em cada sujeito, retirando essa liberdade pura supostamente defendida, entretanto, há um outro ponto que eu creio ser mais agudo: as justificações do decreto também culminam numa consideração de que as reações do restante das pessoas à homossexualidade e à heterossexualidade são simétricas. De que não há um pressão ao sujeito em considerar a homossexualidade uma doença mental ou um possessão demoníaca (sim, isso foi um indireta).

É óbvio que a situação não é simétrica e esse ponto foi muito bem introduzido por Humberto Verona, “[Ninguém diz] ‘cansei de ser hétero, vim aqui me transformar'”, conforme a reportagem. Justamente por outro ponto também colocado pelo presidente do Conselho de Psicologia, também ao afirmar que “estão lá normas éticas para combater “uma intolerância histórica”.” Ou seja, enquanto há uma determinada luta, já histórica, para se retirar todos os fundamentos que fazem da homossexualidade um transtorno, uma doença mental, há também a permanência destes valores cristalizados em toda população. O jeito é fazer de uma maneira de agir, uma lei. Não dá pra confiar em preceitos éticos enquanto não há uma, digamos, ética coletiva que apoie este ponto, que apoie a homossexualidade como uma orientação, assim como é a heterossexualidade.

Partindo de uma perspectiva individualista com base numa simetria entre as orientações sexuais possíveis, o fato de muita gente começar a ser tratada para a cura da homossexualidade seria um prova incontestável de que ela (a homossexualidade) é algo abominado por natureza. Que é simplesmente ruim. Que é contra aquilo que há de mais interior no sujeito – que é uma doença.

O problema, já pontuado acima, é que não se encontra heterossexuais pedindo ajuda para a curarem a heterossexualidade. Mais uma prova incontesta que homos estão necessitando de cura, não? Não sei. Creio que exatamente esse lado da questão que faz a gente pensar, “se é simétrico, então há algo interior que faz o sujeito procurar um psicólogo para a cura da homossexualidade”, claro, ainda sob a perspectiva individualista e subjetivista etc e etc. Existiria, então, uma essência anti-homossexualidade dentro do sujeito, que repele essa aberração da natureza e atrai a heterossexualidade. Mas, então, como há padrões éticos compartilhados por inúmeras pessoas sobre este assunto? Seria essa, somente um reflexo da natureza da heterossexualidade?

Não dá pra levar muito longe, por que seria necessário demonstrar essa essência, essa coisa “natural”, mostrar as causas e como acontece essa dinâmica do natural com o social. O problema é que a homossexualidade ser ruim ou boa, necessita de um estabelecimento do conceito de algo que e bom ou ruim, natural ou não-natural, necessita da linguagem, necessita que ela signifique tais coisas em tais épocas. E não é uma questão semântica, não é uma questão de designação racionalista da coisa. Para definir a homossexualidade como intolerável e para isso realmente acontecer no cotidiano, como acontece, é necessário que haja todo um histórico de relações sociais, com consequências políticas e econômicas que a transformem no que são hoje.

Não é só uma questão de querer ou não-querer.

Me leva longe pensar em como determinadas características da vida são levadas por grupos antiquados. Eu não creio que seja pura manipulação para a tentativa de arrebatar mais gente e reproduzir a ideologia religiosa, não. Creio que isso é um produto da própria junção da religião e do mundo democrático-liberal, que luta pela liberdade de expressão, pela liberdade de consumo e etc. Sendo que essas expressões são todas fundadas numa linguagem formada na própria democracia-liberal. Não acho que o deputado religioso está sendo uma canastrão.

Mas isso deve dar um nó na cuca de liberais.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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