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Ciclista Atropelada na Paulista, Poder Masculino e Tomás de Aquino

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Essa notícia da ciclista atropelada na Av. Paulista me lembra do sujeito que fez dos ciclistas, pinos de boliche, arremessando todos que estavam em sua frente para o lado. Há sempre um contraponto nessas situações, nessa briga de espaço de carros e ciclistas/motoqueiros/skatistas/qualquercoisa. Eu creio que o carro, sendo a expressão do individualismo atual, sendo a concha protetora de eu para/com os outros, sendo a não alienação do eu na sociedade (mas que já é alienada, um individualismo ilusório), é a contraposição da bicicleta, por exemplo, que, por sua vez, é a total imersão na sociedade, é a possibilidade de ser visto, de ter um contato maior com o outro.

Oras, não se coloca insulfilm no para-brisas da bicicleta, ela nunca foi o objeto de consumo do sujeito moderno e individual. Na verdade, esse sempre foi o papel do carro – essa sempre a função social do carro e de seus precedentes, demonstrar algum tipo de diferença entre aqueles que usavam, mas não somente uma diferença estética, a diferença é econômica e política. O carro distingue aquele que pode e aquele que não pode.

Vejamos, qual é o sonho do pós-adolescente? Ter um carro. Pra quê? “Pegar a mulherada”. Isso não é uma clara distinção de poder em um mundo onde a mulher ainda é um objeto de conquista? A própria noção de uma justificativa como essa para a compra de um carro já não traça, também, um pouco das características da sociedade em que vivemos? A própria justificativa já demonstra uma relação muito maior do que a compra de um carro, ela revela uma relação de poder entre homens e entre os sexos.

Não seria essa uma justificativa para a classificação da bicicleta como meio de transporte de fracassado? Primeiramente a noção de que o poder é coisa de homem, o poder é sempre poder masculino, comprovado pela própria masculinização da mulher para ser respeitada no trânsito, caso contrário e até mesmo de antemão, já uma intrusa no trânsito, depois a noção de que o sujeito com poder é o sujeito livre, entretanto, o sujeito livre é aquele livre para consumir, onde utiliza seu suposto livre-arbítrio puro para suas escolhas individuais, que podem ou não trazer felicidade, entretanto, a felicidade é sempre sua responsabilidade individual e seu objetivo de vida, ai de quem o interromper.

Para isso vale tudo, desde a interiorização de todo o eu, até o desprezo pela vida social não burocrática. O desprezo à vida não regrada formalmente por normas sociais individualistas e, supostamente, conscientes, é uma singular expressão da perplexidade com o outro.

Tomas de Aquino, no artigo 5 da 84ª questão, na primeira parte da Suma de Teologia, onde trata da possibilidade ou não do conhecimento humano intelectual conseguir perceber, conhecer, às razões eternas, as substâncias das coisas, coloca que, através de Deus, sendo a mente divina, aquilo onde as coisas eternas estão conectadas à nós, isso se torna possível. Portanto, uma fé verdadeira e sincera em Deus dá a possibilidade de perceber, conhecer, as razões eternas. Como ateu, o que eu entendo disso? A possibilidade de ver aquilo que regra o mundo de maneira substancial é seguir o método verdadeiro de maneira plena. Somente através do método correto que é possível ver aquilo que há de eterno, as relações/regras/leis eternas.

Quando um motorista assiste um ciclista na rua, na avenida, sua percepção do ciclista é de um ignorante que não entende o verdadeiro método, que não consegue ser consciente daquilo que é de mais substancial e não consegue se relacionar com isso de maneira plena – ou seja, alguém que não vive a vida de acordo com a realidade. Não obstante, os princípios tolerantes do liberal pós-moderno imputam uma censura em qualquer ato de ataque formal à outra percepção da realidade. Todos devem ser respeitados, até mesmo os idiotas, ignorantes e infantis que não enxergam a realidade como ela realmente é. O outro é respeitado? O outro é aguentado.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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