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Meio Ambiente, Problema Global e Ideologia

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Nas últimas décadas o meio ambiente tem se tornado um ponto considerado de suma importância nas discussões sobre os temas de interesse global. Afinal, numa sociedade de capitalismo altamente industrial e sem perspectiva de gastos com qualquer outro aspecto da produção que não seja visando ela própria e seu desenvolvimento (pois gasto desnecessário é custo, palavra abominada por qualquer industrial) é inconcebível. Juntamente com este fato, também se populariza a noção onde o meio ambiente este, num determinado momento histórico, em seu perfeito equilibrio, porém, afetado pelo ser humano e suas ações, esse desequilibrio foi desfeito, já todas as catástrofes atuais seriam a consequência disto.

A noção de que o meio ambiente já este em um equilibrio e que a mão (externa) do humano o prejudicou implica em admitir um erro imputado sobre o sujeito desde seu nascimento, unicamente por existir e consumir de produtos e serviços baseados na exploração do meio ambiente. O objetivo do ser humano seria consertar este erro ou, numa visão liberal, fazer sua parte em relação ao problema. O problema é disseminado de forma alarmista e a ação por parte das sociedades e seus participantes vem a ser algo de agora, algo que precisa ser feito imediatamente, caso contrário, o meio ambiente poderá definhar, tudo culpa das mãos humanas.

Em resposta à essa demanda ética nas indústrias, produtos éticos são feitos, elas (as indústrias) se preocupam mais com o fomento de projetos e estudos que envolvam a comunidade e o meio ambiente local, etc e etc. Entretanto, eu creio que aí reside o problema.

Primeiramente, a consequência de ter uma responsabilidade do peso de um meio ambiente degradado, numa sociedade líquida, consumista e nada disposta a firmar relações, é a satisfação ética de consumir conforme o método sustentável. Os produtos feitos com material reciclado, que utilizam fontes renováveis ou que exigem de toda a cadeia produtiva a responsabilidade de não utilizar de trabalho escravo, por exemplo, são, para o indivíduo consumidor, a prova de sua relação com o objetivo maior que é a salvação do mundo – o indivíduo está ligado à sociedade por meio do consumo e é desta forma que ele consegue desenvolver seu senso coletivo, no fim, cada produto ético resolve um problema não por realmente modificar as estruturas objetivas da sociedade e do consumo, mas por causar uma sensação de participação ética em algo maior, em uma espécie de grande movimento pró-planeta terra.

Segundo, a própria noção de natureza/meio-ambiente é desconsiderada historicamente. A noção de natureza também é produto histórico. Ela já apareceu como Deus, como um ser de vida própria (A Natureza), como um recurso divino, como auto-consciência alienada e etc. Afinal, citando Zizek, não seria a natureza uma relação de catástrofes sobre catástrofes, em que toda a forma de existência era modificada após cada uma dessas imensas destruições?

Terceiro, a própria ação contra essa catástrofe é, em poucas palavras, muito idiota. A resolução de um suposto problema global não ocorre por vias individuais, assim como a solução de um problema causando pelo modo de consumo atual e por toda sua base material e modo de produção, não se dá sem considerar a revolução nas próprias estruturas materiais e simbólicas da sociedade. Ou seja, resolver o problema causando pelo consumo e pela exploração com consumo consciente e exploração sustentável é esquecer que a exploração em si e o consumo em si ainda estão lá, e que não há ética neste mundo que transforme cada dono de indústria em discípulo de Kant.

Uma das formas de evitar um caos ambiental (ou seja lá qual expressão se utilizem) foi o protocolo de Kyoto, entretanto, não demasiado ingênuo firmar uma responsabilidade ética sobre uma prática econômica? Eu digo, não seria a forma ética vigente e justifica, aquela que se relaciona com as condições materiais do período histórico-social? Se os indivíduos são determinados pelo momento histórico-social que vive, assim como pelas maneiras como manifesta sua vida, pelo modo produção e divisão do trabalho, a ética (em seu sentido e prática popular) se torna uma maneira de justificar uma prática já existente que necessita de afirmação teórica. Ética é apropriada pela ideologia.

Por que estou dizendo isso? A afirmação de que os problemas podem ser resolvidos por uma ética interna que deve emanar de cada indivíduo é, em última instância, frear qualquer movimento de modificação ao sistema vigente ao mesmo tempo que é a confirmação de sua hegemonia. Se o sistema não fosse hegemônico, haveria a dúvida em relação à sua base, entretanto, nem isso é imaginável na sociedade atual. Inconscientemente admitimos a objetividade, a impessoalidade do capitalismo ao pensar em meio de “salvar o planeta” onde não se analisa as bases do sistema, somente seus efeitos e em como atenuá-los.

É óbvio que não estou dizendo que não existe um problema ambiental, mas estou afirmando (na verdade, Zizek está, eu só concordo) que a ecologia, natureza e meio ambiente, são conceitos utilizados por uma linguagem liberal e, desta forma, não expressam outra perspectiva que não a liberal. Ecologia é ideologia.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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