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Aborto em Casos de Anencefalia e o Voto Desviado

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A possibilidade do aborto legal de gestantes de fetos anencéfalos foi liberado esta semana, ainda bem.

Entretanto, uma coisa interessante foi verificar que o ministro que votou contra na primeira leva de votos, Ricardo Lewandowski, não votou contra explicitando uma posição política ou religiosa em relação ao caso, mas sim, dizendo que este tipo de decisão só seria cabível ao Congresso Nacional. Em outras palavras, o ministro, católico, não colocou em pauta nenhum assunto religioso, mas votou na mesma direção que seus princípios religiosos ou interesse político ligado ao cristianismo.

Evitar relacionar o assunto da religião não foi uma maneira supostamente correta de agir, mas sim, uma maneira de não se colocar em maus apuros, pois a questão da vida do feto sem cérebro é absurda. Como proceder quando a maioria lhe repreenderia ou nem levaria à sério seu argumento? Desviando a rota, mas partindo para o mesmo objetivo final.

Para as pessoas que consideram a possibilidade do aborto como um passo para a legalização do “assassinato” de bebês (ou seja, do aborto em qualquer caso): primeiramente não são bebês, são fetos; segundo, tomara que seja um passo para a liberação do aborto em qualquer caso, pois a autoridade sobre o corpo da mulher é somente da mulher, seja ela quem for. O fato de haver um feto não altera esta autoridade, considerando que os sentimento que temos pelo próximo só são colocados no feto sob uma áurea de fantasia – o feto ainda não é um sujeito social. Entre a decisão em prol de um sujeito social de fato e um em potencial, é óbvio que devemos dar preferência ao de fato.

Eu entendo que não se trata só de uma questão de decisão individual, pois é relacionada com princípios básicos de toda a cosmovisão – se você é a favor, se defende a liberdade individual da mulher para defender, então você considera que ela pode ser a autoridade máxima de seu próprio corpo e de suas decisões conscientes. Mas em relação ao cristianismo, a relação é outra: só Deus pode tirar vidas ou dar vidas, não é uma questão de cunho individual ou de decisão arbitrária.

Mas o ponto é que essa própria lógica (a última citada) já não tem o mínimo de autoridade com a realidade atual. Ela já não representa muita coisa que se passa atualmente e não consegue explicar nem conviver com a maioria dos progressos científicos ou com as conclusões seculares.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. “O fato de haver um feto não altera esta autoridade, considerando que os sentimento que temos pelo próximo só são colocados no feto sob uma áurea de fantasia – o feto ainda não é um sujeito social.”

    Primeiro, o que é “um sujeito social” e porque esse deveria ser o critério para considerar alguém como “próximo” ?
    Depois: Um recém nascido, por exemplo, é sujeito social ? E um segundo antes de nascer – considerando que possui sentidos plenos tendo um contato direto com a mãe (não muito menos elaborado do que o de um recém nascido) e indireto com o mundo (pode ouvir sons externos, toques, etc) ?

    Resposta
    • obs: Não estou discutindo a questão dos anencéfalos, mas sim o parágrafo citado que fundamentaria abortos até os 9 meses.

      Resposta
    • Primeiro, a unidade biológica que está dentro do ventre materno é tão unidade biológica quanto qualquer unidade biológica, o que faz do ser humano diferente dos outros animais em reconhecimento social é exatamente sua vida (e quando digo vida, não afirmo a vida biológica, mas sim a tudo que esteja na esfera de ação.

      Segundo, exatamente por isso a autoridade do corpo da mulher ainda é dela. A diferença estre a mulher e o feto é clara o bastante pra não retirar dela a autoridade individual de fazer o que quiser com o corpo. Então, a questão não é o feto, como sempre foi, mas sim a mulher.

      Sobre o aborto com 9 meses – primeiro, qual a diferença de um aborto com 9, 8 ou 5 meses? A noção do feto como bebê é fantasia, é conceito, não é uma relação direta com o feto. Então a noção do feto como bebê só aparece quando há algo que ajude a lembrar, como semelhança física e etc. Mas ainda é fantasia. Segundo – Quem aborta com 9 meses? A questão é empiricamente irrelevante.

      Mas o legal é que essa questão só tem sentido quando o feto é considerado como centro do debate, como se, por algum motivo, ele tivesse qualquer autoridade sobre o corpo da mulher.

      Resposta
      • “Sobre o aborto com 9 meses – primeiro, qual a diferença de um aborto com 9, 8 ou 5 meses? ”

        O indisputável desenvolvimento pleno da consciência do feto. Embora 5 meses eu também considere suficiente para argumentar, algumas pessoas preferem se enganar como se o bebê magicamente se transformasse no nono mês, por isso o exemplo extremo.

        “Segundo – Quem aborta com 9 meses? A questão é empiricamente irrelevante.”

        Existem abortos próximos disso sim, e existe inclusive quem defenda que recém-nascidos ainda não são pessoas e podem ser “abortados”.
        De qualquer modo, é uma possibilidade que a sua argumentação abre e você não pode fugir da responsabilidade diante disso. Não apenas é relevante como necessario esclarecer muito bem esse ponto.

        “A noção do feto como bebê é fantasia, é conceito, não é uma relação direta com o feto. ”

        Fantasia é alguém imaginar como vai agir / brincar / com o feto após seu nascimento. Isso ainda não acontece.
        Mas os relacionamentos não se dão apenas na esfera superficial das palavras e contato visual, as emoções e comunicações não verbais são até mais importantes.

        E a mãe tem uma relação direta com o feto – aliás, é plausível de se defender que trata-se da relação mais íntima que um ser humano tem com outro – (e creio que isso permanece como lembrança no cérebro de algum modo, dado que existe uma resposta típica de pessoas diante de stress extremo de se contrair na posição fetal, buscando algum tipo de conforto/segurança. )

        Mas, sinceramente, não enguli até agora essa teoria da “relação social direta(externa) faz alguém uma pessoa”. E você fala como se fosse um fato indisputável e universalmente conhecido.
        Isso me cheira uma engenharia reversa nos argumentos…. se perguntar “Como diabos eu posso diferenciar um ser humano dentro do feto de um de fora ? Ah, as relações externas (que você chama de diretas) !” e usar isso como argumento.

        Pois levando ao extremo as consequências dessa sua teoria… um bebê recém nascido continua não tendo relação com o mundo…. e poderia ser morto caso a mãe achasse feio ou algo do tipo.

        Alguém que cresce ilhado do mundo, pode ter 60 anos e não ser uma “pessoa”.

        Ou por que mesmo não considerar que outra tribo/povo alheio a nós, não são pessoas para o nosso ponto de vista ?

        “o que faz do ser humano diferente dos outros animais em reconhecimento social é exatamente sua vida (e quando digo vida, não afirmo a vida biológica, mas sim a tudo que esteja na esfera de ação.”

        Esse critério é (se é que realmente vc pensa assim) particular seu.
        Muitos dão maior “reconhecimento social” ao ser humano por critérios genéticos / “especistas” (não considero um termo pejorativo, mas é uma longa discussão paralela isso) aliados à atividade cerebral do individuo – independente do mundo com o qual ele interage ser de objetos ou pessoas – e tambem indepententemente de sequer conhecer o indivíduo.

        E por que “a ação” só existe quando em uma interação externa, com contato visual com o outro ?

        Resposta
        • “Mas o legal é que essa questão só tem sentido quando o feto é considerado como centro do debate, como se, por algum motivo, ele tivesse qualquer autoridade sobre o corpo da mulher.”

          Legal mesmo é já partir do pressuposto que o feto é apenas uma coisa e é utilizado por uma conspiração patriarcal para tirar a mulher do foco.
          Agora para os não paranóicos, é uma questão muito razoável: se o feto é uma pessoa, a moral aplicada em relação a homicídios vale para ele, com alguma flexibilidade (em ultimo caso com risco de vida a mãe é razoável dar prioridade a esta), mas vale.
          Logo a questão primeira é em relação ao feto, e só quando esclarecido vem questões da mulher abortar por motivos secundários (não considerando aqui risco de vida para a mãe).

          Resposta
          • Conspiração patriarcal não tem sentido, a não ser que se esteja embasado numa doutrina individualista, o que não é costume daqui e é bem fácil de se ver em escritos liberais ou em análises liberais…

            Você escuta “conspirações” de liberais e liberais-conservadores a respeito do marxismo cultural, foro de sp e etc. É típica interpretação racionalista… Que eu não costumo fazer aqui.

            Resposta
        • “O indisputável desenvolvimento pleno da consciência do feto.”

          Vc entende que a partir daqui dá pra começar uma discussão sobre o que é a consciência? E que cada vez que resposta é biologizada, cada vez que a marca imperante da resposta é uma descrição supostamente científica, há a abertura maior para duvidar das bases de uma ciência que consegue definir a consciência sem pedir o apoio da filosofia? É fora de órbita definir pela “consciência existente ou não” a característica de pessoa, isso por que a noção de pessoa SEMPRE foi uma definição sugerida pela coletividade, até mesmo em sociedades onde a noção de individuo não existia, onde a unidade mínima na sociedade era o clã e etc, a noção desta unidade dependia de uma sentimento social. É por conta disso, por exemplo, que existe uma “questão” no aborto de nove meses. Pq ele é um ponto onde há mescla de um conceito de ‘gente’ com outro. Conceitos de época.

          Por exemplo, por conta disso que é difícil ver abortos aos nove meses.

          “Mas os relacionamentos não se dão apenas na esfera superficial das palavras e contato visual, as emoções e comunicações não verbais são até mais importantes.”

          E o que uma coisa tem a ver com a outra? A relação é fantasiosa simplesmente pelo feto não ser um sujeito de fato, mas sim um vir-a-ser, portanto, não dá pra manejar uma relação com base real, mas sim fantasiar uma, caso isso não acontecesse, a gravidez seria tão importante ou bem representada como é uma sensação corpórea qualquer, mas com um resultado diferente, que seria o nascimento.

          “Mas, sinceramente, não enguli até agora essa teoria da “relação social direta(externa) faz alguém uma pessoa”. E você fala como se fosse um fato indisputável e universalmente conhecido.”

          Isso pq a coisa é simples: ninguém é indivíduo isoladamente, mas só dentro de uma determinada sociedade. É a sociedade que faz do indivíduo um indivíduo.

          “Alguém que cresce ilhado do mundo, pode ter 60 anos e não ser uma “pessoa”.”

          Depende, os chineses não eram pessoas para os japoneses nas guerras dos dois impérios, nem os índios para os colonizadores, mas a representação moderna de ‘pessoa’ iria tentar ser aplicada nesse alguém ilhado – Depende também se haveria um reconhecimento simbólico em cima desse alguém, onde houvesse sincrônica com o sistema simbólico daqueles que supostamente “acharam” o cara olhado… Não é tão simples quanto parece. Se considerar que ele tá lá, tendo uma vida social, então não importa se ele tá ilhado ou não, pois o reconhecimento de uma vida social seria já automático se levar em conta que ele precisou sobreviver pra ser uma pessoa de 60 anos.

          “Ou por que mesmo não considerar que outra tribo/povo alheio a nós, não são pessoas para o nosso ponto de vista ?”

          O fato de se considerar um índio uma pessoa ou não não é só relacionada com o fato dele existir e ter tido uma vida social, já que os colonizadores o consideravam ferramentas de construção, mesmo vendo que havia uma sociedade completa já viva e composta por indígenas… Então, se houvesse a consideração de um índio ser pessoa, por ter vida social, por ter “elação social direta(externa)” o contato não seria como foi com os colonizadores.

          “Esse critério é (se é que realmente vc pensa assim) particular seu.
          Muitos dão maior “reconhecimento social” ao ser humano por critérios genéticos / “especistas” (não considero um termo pejorativo, mas é uma longa discussão paralela isso) aliados à atividade cerebral do individuo – independente do mundo com o qual ele interage ser de objetos ou pessoas – e tambem indepententemente de sequer conhecer o indivíduo.”

          Vish, eu realmente não ligo se é uma visão “minha”, a intenção não é de “dar opinião”, mas tentar colocar algo que consiga ser universal e que tenha lógica,
          então eu realmente não ligo se há pessoas que consideram coisas “diferentes”, é exatamente pra isso que existe a crítica, pois se o proposto é mais do que mera opinião, merece ser criticado e analisado e etc. Eu naõ fiz este texto pra mostrar “opinião”… Nada é só opinião quando está na esfera de uso público da razão.

          Resposta

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