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Reine Sobre Mim e o Fingimento Deliberado do Ex-Adulto

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Reine Sobre Mim não me parece um filme cheio de mistérios e ambiguidades, com alta probabilidade de chocar aquele que o assiste e etc. Na verdade, me parece ser bem simples. Embora eu tenha ficado extremamente incomodado pela atuação a-lá “bobão” do Adam Sandler, que, ao invés de expressar alguém que sofreu de estresse pós-traumático, se afirma como um comediante dramático que ainda não encontrou o lado dramático. Ele tende ao drama na comédia e afirma a comédia no drama. Não dá pra levar à sério.

A própria noção do estresse pós-traumático é depredada, na cena onde o contador de Charlie Fineman explica que ele finge não lembrar das pessoas com quem se relacionava na época para evitar perguntas desagradáveis sobre a morte de sua esposa e de suas três filhas, e Alan confirma a história. As ações dos sogros de Charlie também confirmam o diagnóstico pobre. Dentro da cena da conversa do contador com Alan, não há nenhuma noção de ironia, de crítica do filme com a situação, nem nas falas dos sogros, o filme se expressa fiel às falas, não há contradição. O que se vê é a diminuição de um diagnóstico. O Traumatizado é um frescurento que deve ser tratado com cuidado.

Se ele é um frescurento, por que Alan o respeita tanto, mesmo após os dois estouros emocionais de Charlie? Por que Charlie é um frescurento infantil. Ele não é só um cidadão médio, com emprego e carteira assinada que esqueceu determinados acontecimentos por pura vontade. Ele não “só” finge que esqueceu. Ele finge que esqueceu e assume uma posição infantil com seus relacionamentos. É mais chocante a sua infantilização do que seu esquecimento: não por que ser infantil é pior, mas por que ser infantil não é fácil de mentir.

Sua infantilidade dá medo, é oposto àquilo que se espera de um adulto ex-dentista. Isto resulta na suposta falta de capacidade de tomar conta de si. Ele não é autoridade sobre seu próprio eu, pois ele já não corresponde ao eu que deveria corresponder – Ele não é o que se espera que ele seja, logo, deve ser ressocializado. Exatamente desta forma que os seus sogros desejam que ele vá pra um Manicômio. “Ele precisa de ajuda”. Ajuda? Qual ajuda? Ajuda para se recuperar do trauma ou ajuda para se ressocializar? O manicômio é a opção de retirá-lo da sociedade, afinal, ele não serve, não se encaixa nas características básicas do adulto médio, e colocá-lo de volta somente quando já estiver pronto para assumir os fardos normais de um homem na sociedade.

A cena final do longa tenta dar a impressão de que isso não irá acontecer. Charlie não será mandado para o manicômio. Mas por que ele não será mandado? Por que, nesta cena, ele assume o papel do homem branco adulto. Ele “relembra” do passado, relembra da sua esposa e filhas, e desabafa em seus sogros. Essa cena comovente significa que os rumos do conflito entre sogros e genro serão mudados para uma via mais familiar, mais sensível e menos despótica, mas o despotismo só se acabou pela emoção sentida ao ver o homem médio reposto assumir determinadas angústias. Ele não seria mandado ao manicômio por ter sido, novamente, reconhecido como apto a ser o adulto padrão. No fim, o diagnóstico ainda se faz como frescura, como fingimento, que é deixado de lado numa situação de risco.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

Uma resposta »

  1. adorei o filme.

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