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Pedro Come Frango

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Pedro finalmente conseguiu comer o frango e eu fiquei pensando por que há essa dramatização toda em cima da vida de um filho de um famoso e seu acidente, sendo que acidentes acontecem em batelada por todo o canto do Brasil. Na verdade, traumas em geral, acontecem a todo instante: em março aconteceram 1088 estupros no estado de São Paulo, uma média de 36 estupros por dia, em 2011, para o ano todo em SP, foram contabilizados 7631 acidentes de carro, uma média de 21 acidentes por dia, além da média de 18 mortes por dia no mês de fevereiro de 2012, também no estado de São Paulo. Isso sem contar os traumas relativos às intermináveis violências de todo o aparelho policial em relação à sua típica violência ilegítima ao destruir Pinheirinho ou nas ações cotidianas na região central da cidade de SP.

Ainda temos outras notícias que os meios de comunicação poderiam colocar em pauta, como as greves nas universidade federais que já alcançou o número de 80% das instituições, no Brasil.

Mesmo assim, Pedro e seu frango ainda são o foco e, mais do que isso, esse foco é correspondido. Oras, não há nenhuma insatisfação de massa em relação a essas estratégias de seleção de notícias que merecem destaques e notícias que merecem ser ocultadas. Não dá pra negar que a mídia é manipulada, mas como que as pessoas ainda se comportam como se nada estivesse faltando?… De repente me deparo com o comentário seguinte, na página da Folha.

“gracas a deus que esta melhorando,e com fe em deus vc vai ficar bom, apesar de nao saber quem e vc e nem conhecer tuas musicas, e tb nunca ter visto na Tv ,espero que se recupere logo para ir cuidar de teus filhos, pq eles prescisam de vc.abracao dede Miami”

O sujeito não faz ideia de quem seja Pedro, nunca o escutou, nunca o viu, nem sabia de sua existência antes do acidente, entretanto deseja o melhor para ele, pois quer que ele volte à saúde para cuidar dos filhos, que tanto precisam do pai. Ah, este comentarista é de Miami, ele quis que isso ficasse claro. Eu creio que com este comentário é possível traçar uma relação para definir essa hipnose em relação ao Pedro e ao frango.

Me parece que, ao participar deste tipo de notícia, o leitor/espectador, ao invés de realmente ser o indivíduo de distinta moral que exprime pelo comentário altruísta, na verdade, faz este comentários para si. O comentário é uma maneira de se inscrever no campo do Fora-de-si, de Birman¹, de estar à mostra na sociedade do espetáculo, ao mesmo tempo que esta exposição é ética, é moral, é valorizadora dos bons costumes da época do Dentro-de-si, da época em que a introspecção e racionalidade fria eram sinais de adequação social.

Me parece que essa ligação que o expectador firma com a notícia, a ligação de estar participando de algo maior, de poder expressar por este algo maior uma ética justa e pura, mas que precisa ser demonstrada pelo indivíduo que dela participa, nem que seja por um comentário na caixa de mensagens, desta forma, combinando a pseudo-participação ética no mundo (estar fazendo algo por um mundo melhor) mais a inscrição no Fora-de-si, acaba representando toda uma lógica de sobrevivência social peculiar.

 ——

¹ BIRMAN, Joel. “O sujeito do colarinho branco. O dentro-de-si e o fora-de-si nas figurações atuais da subjetividade”.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

»

  1. Vinícius,
    Outro dia revi o bom filme “Boa Noite e Boa Sorte”. O discurso de Edward Morrow sobre o papel da mídia e seu conteúdo alienador na sociedade pode ser mais uma vez comprovado por esta notícia.

    Quantas notícias são mais importantes do que o frango do Pedro ou o esquartejamento do executivo da Yoki? Por que discutir a greve nas universidades ou a remuneração dos professores do ensino fundamental em vários estados? O que realmente traz audiência? Parece que voltamos sempre para a velha questão, o que veio antes o ovo ou a galinha? A mídia gera a alienação ou a alienação das pessoas guia a mídia?

    Resposta
  2. Jogando mais lenha nessa fogueira, há um outro aspecto medonho, que é a incorporação do entretenimento por todos os campos da mídia. Já não se faz mais jornalismo. O jornal também se tornou uma plataforma do espetáculo. E está aí o fantástico, pioneiro e sobrevivendo há uns 40 anos, que não me deixa mentir.
    E assim primeiros jornais do dia vêm com gosto de café da manhã, enquanto os do meio dia vêm com gosto de almoço. Qualquer notícia realmente séria, quando é veiculada, precisa ser seguida de uma cachorrinha que foi salva de dentro de um poço, para as pessoas ficarem com seus corações preenchidos da emoção que deveria estar restrita às novelas.
    Alguns ainda tem a “pachorrinha” de se intitularem novelas da vida real.
    Até mesmo os jornais da madrugada, que têm uma carinha mais responsável, por saberem estarem atingindo um público “mais crítico” estão adotando cargas pesadas de opinião, julgamentos severos que geralmente partem do próprio jornalista, pois assim no dia seguinte o indivíduo “mais crítico” já tem a opinião pronta pra dar pra seus coleguinhas “mais críticos”.
    E como esse jeito de fazer notícia dá muito mais dinheiro, é improvável que a coisa mude, ao menos enquanto esse lucro justificar que não se invista em educação.

    Resposta

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