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Certas Formas Legítimas Do Saber Cotidiano

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Existe uma oposição muito fácil de se perceber na música e na criação musical: a técnica/conhecimento teórico X Feeling/Liberdade de Criação.

Como se a técnica e o conhecimento teórico fosse “travador” da criatividade, que, por sua vez, só seria livre para se expressar sem as regras da teoria musical e o feeling só seria realmente mostrado sem o uso da técnica, facilitadora de demonstrações inúteis. Isso parece ser verdade num primeiro momento, afinal, a regra é aquilo que delimita uma lógica e, portanto, é aquilo que delimita caminhos corretos e caminhos errados, caminhos possíveis e caminhos impossíveis.

Mas Caudwell já examinava que a liberdade só existe como controle das determinações da natureza, como conhecimento da lógica do sistema e, portanto, não há como definir liberdade em uma jarra vazia de conteúdo – não há como exercer a liberdade quando não se tem o saber dos símbolos socialmente construídos, não se exerce a liberdade sem se ter aquilo que se exercer. Não dá pra se alimentar de um prato sem comida.

Em suma só se pode dizer que há liberdade de criação quando há conhecimento daquilo que se cria, já que a liberdade só consegue ser exercida dentro da esfera de possibilidades de se exercê-la e essa esfera de possibilidades só cresce com a acumulação de conhecimento acerca daquilo que se pretende dominar. Logo, não ter conhecimento sobre música não dá mais liberdade, mas, pelo contrário, limita ao básico já aprendido, ao básico já incorporado.

Se não se estuda sobre um assunto, aquilo que dá base para articular algo a respeito do assunto é um arcabouço geral de conhecimento: o senso comum. Todos sabem que o senso comum não é um baú muito confiável de conhecimento e muito menos completo. Logo, as categorias de percepção que são pautadas no senso comum, são as categorias que são pautadas em um conhecimento e em uma forma de classificação já dada (ideológica por excelência, já que aquilo que é “dado” – evidente por si – é produto óbvio de uma relação de dominação de um grupo dominante sobre grupos dominados).

A faculdade da vida não passa de senso comum.

Talvez o mesmo possa ser aplicado à oposição Leigo X Intelectual, que é estruturado em oposição associadas, como Humilde X Arrogante e Vida Interessada X Vida Desinteressada. O leigo, associado ao sujeito que tem como conhecimento aquilo que a vida prática lhe deu, que “se vira” dessa forma e que é, por conta disso, humilde em relação à vida – ao contrário do intelectual que tem a pretensão de explicar o mundo, assumindo uma posição de arrogância, onde deslegitima a visão do leigo.

Isso me parece uma dupla dominação.

Primeiramente ela justifica e pedestaliza a posição de leigo – a ignorância é legitimada, o senso comum é legitimado. Segunda que, a maioria dos intelectuais que têm esse injusto papel de, de alguma forma, quebrar o senso comum, são também àqueles que querem quebrar a ordem vigente, logo, classificá-los como arrogantes e distanciá-los de qualquer validação popular é uma ótima maneira de anular seus discursos.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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