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Yoani Sánchez e sua função social

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Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

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Sobre Vinicius

Fascista desde criancinha.

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  1. Vinícius, li a entrevista de Yoani Sánchez para Salim Lamrani. Parecem inegáveis as conquistas cubanas nas áreas de educação e saúde, bem como os malefícios causados pelo absurdo bloqueio norte-americano.

    A história do sequestro e agressões realmente transitou entre o surrealismo e o insólito. Por outro lado, Yoani comentou no seu blog que esta entrevista foi “adulterada”…

    É inegável, Cuba gera reações extremadas pró e contra o regime que governa o país desde 1961, mas isto não justifica o que aconteceu em Feira de Santana. Preferia que o documentário fosse apresentado, o debate seguisse mostrando os dois lados da moeda. Se a crítica de Yoani não tivesse consistência, ficaria claro no final do evento. Por princípio defendo a genuína liberdade de expressão e foi o que Eduardo Suplicy tentou sem sucesso convencer as pessoas que foram apenas para protestar, sem ao menos tentar ouvir uma opinião antagônica.

    Responder
    • De acordo com ela qualquer entrevista que não seja gravada e que não seja em espanhol tem alto risco de ser adulterada. Eu não duvido, mas o geral da entrevista mostra as contradições o tempo todo.

      E eu ainda não sei o que acho da recepção. Gosto por um lado, claro, gosto pelo meu lado marxista, mas não estou todo a par.

      Responder
  2. Pingback: Yoani no Roda Viva | Cabana de Inverno - Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althusser, Alienação, Ateísmo, Religião, Fotos Do Justin

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