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A Mediocridade em Reine Sobre Mim

 Meu ensaio que saiu no Du Anémic

A Mediocridade em Reine Sobre Mim

Apesar de todas as maneiras como a palavra é tratada, neste ensaio tentarei abordar um pouco do tema da mediocridade tomando como obra de ponta-pé inicial “O Homem Medíocre”, de José Ingenieros.

Para iniciar o ensaio, vou tomar como ponto de partida o filme Reine Sobre Mim, com Adam Sandler fazendo um papel sério. Neste longa, percebe-se que o tratamento conferido à Charlie Fineman é o mesmo relativo à pessoas fora-de-si, pessoas consideradas fora da órbita normal do cotidiano. Ele sofre de estresse pós-traumático, entretanto, sua doença é expressada pelo filme como uma frescura, um fingimento de esquecimento, como se fosse algo previamente escolhido e praticado com o senso de razão em perfeito estado “normal”. A negação de Charlie pela morte de sua esposa e filhas é o assunto tratado como tabu, e é exatamente neste assunto que Charlie cava sua cova. É por conta deste episódio que ele é taxado como incômodo, sua não adequação ao esperado para um adulto, formado em odontologia, não é o comportamento de uma criança, conforme ele faz por todo o filme. Levando em consideração tudo aquilo que o filme trata, a maior parte da causa daquele tratamento dispensado à Charlie por Alan e pelos outros antigos amigos se deve à sua infantilização.

Mesmo assim, seu caráter de louco foi dispensado por todos os personagens, ele, até mesmo confirma a tese de que estresse pós-traumático é uma grande frescura, proferida pelo filme. No fim, ele revela que ainda não superou a morte da mulher e dos filhos, de repente, “recordando o fato”. Entretanto, houve uma linha de padrões que eu achei interessante.

A Mediocridade Individual

Apesar do filme tratar sobre os problemas de um viúvo de 11 de setembro, foi olhando os outros personagens que me veio logo um tema à cabeça. Todos os personagens realizam ações parecidas e tratamentos parecidos em relação à Charlie Fineman… Ações normativas e já aceitas. Perguntas que podem ser feitas e conclusões que podem ser tomadas. Segundo José Ingenieros o medíocre é um grande imitador, ele absorve tudo do meio, é o produto social por excelência – sua obra não é vista, é só mais um que dá base material praquilo que podemos chamar de ideologia. O medíocre tem aquilo que Ingenieros chama de “alma da sociedade”, absorveu seus traços sem qualquer variação. Podemos, ao invés de exaltar a capacidade imitativa, admitir, conforme Durkheim nos ensina, que essa reprodução de determinadas maneiras de agir, sentir e pensar é uma ação sob coercitividade, então, que o termo imitação durante este ensaio tenha, embutido, este significado. Não é pura imitação, é a opção certa. Ou é isso, ou não é nada.

Os medíocres não têm aquilo que Ingenieros considera como essencial à vida social. Para Ingenieros, a vida humana realmente vale à pena ser vivida com a intenção de se atingir um ideal. Uma vida verdadeira vivida é uma vida com a referência de um verdadeiro objetivo global ideal, entretanto, medíocres não conseguem fazê-lo. A mediocridade envolve o estupor sentido pela noção de que o mundo é o mundo, mas que não poderia ser outra coisa, é pura contemplação. Em outras palavras, os medíocres não imaginam a possibilidade de uma mudança e nem reconhecem as mudanças durante toda a história. O ideal é um objetivo que é modificado conforme as demonstrações da realidade, entretanto, é à frente, é produto da imaginação e da razão, da tentativa de imagina um futuro a ser alcançado melhor que a realidade atual. Todo ideal é aberto à críticas, nunca se satisfaz com sua situação atual, entretanto, aquilo que dá referência à vida do medíocre se encaixa na categoria imutável dos dogmas, da superstição. É aquilo que é, por que é, e nada faz ser diferente.

O medíocre é conservador, é realmente a parte da massa sem características distintivas. É melhor que o imbecil e pior que o gênio, e esse ponto é essencial: o medíocre não suporta mudanças, é defensor da ordem vigente, do estado atual das coisas, pois, para ele, não há outro estado possível. Charlie é o que Ingenieros chama de “homem inferior” – não se adéqua às normas sociais e não consegue ser socivável, só adquiriu a “alma da espécie” (no caso de Charlie, regrediu à essa alma), com pouca sociabilidade e instintos mais poderosos que sua inibição. Já Alan, os sogros de Charlie, a psiquiatra e todos os outros personagens, são grandes medíocres. Eles são a manutenção conservadora de uma ordem moral.

O medíocre é um indivíduo que não mostra individualidade – é através dele que a sociedade se vê totalmente expressa. Por isso mesmo, o medíocre depende de sua sociedade, só se faz esta classificação ao se perceber qual é a situação da própria sociedade. Em Os Sonhadores, os medíocres são os irmãos supostamente revolucionários. São eles que agem pelo dogma, que não vivem, se iludem e acompanham a massa. Imitam aquilo que é mais cool de sua época, são revolucionários de boutique. Matthew, por sua vez, segue este caminho por razão, por vontade, que é demonstrado no fim do filme, quando tenta parar Isabelle e Theo e expressa seu ideal pacifista. A questão aqui não é “qual” ideal, mas sim, como esse ideal se relaciona com o restante do filme. Matthew não participa politicamente por opção. Ele tomou um posto sem a necessidade de um tutor que expresse as superstições a serem acreditadas.

A mediocridade de Theo e Isabelle fazem do filme um recorte interessante da classe-média revolucionária. Ela é revolucionária, mas desde que a revolução seja romântica e emblemática. Revolução suja é perigosa, óbvio, sendo assim, que seja evitada por um grupo que mais quer o status de revolucionário do que realmente deseja a revolução.

Ingenieros diz que o indivíduo é formado pelo fator hereditário, que são seus instintos e tudo aquilo que pode se considerar genético, e pelo fator cultural, que é a educação, são as regras da sociedade, introjetadas no indivíduo em todas as esferas da socialização. Desta forma, mesmo a mediocridade tem um papel a ser desempenhado.

O papel do medíocre

O medíocre, por sua vez, assume um papel de manutenção da ordem, seja ela qual for. Ele é a sobrevivência da sociedade, entretanto, percebe-se que com ele é possível ver os pontos fracos da sociedade a qual ele faz parte. Aquilo que o medíocre rejeita é aquilo que não se adéqua ao normativo. O rejeitado é o difícil de digerir. Charlie Fineman é a representação do adulto que não consegue realizar as funções básicas de um adulto: trabalho e reprodução moral/política. Ele quebra a moral por se comportar como criança, quebra a política por ser inapto à sua participação e quebra o econômico por não conseguir mais ser dentista. Charlie é tudo que deve ser isolado da comunidade normal. Ele não é equilibrado.

Diz-se que o equilibrado é aquele que atende às convenções sociais, entretanto, na adequação passiva, na imitação formal, não se percebe equilíbrio, não há contraposição de forças, está vazio. O homem medíocre não é equilibrado, é oco, é domesticado. Charlie é selvagem, indomesticável até retornar à sua normalidade no fim do filme, junto à seus sogros. Talvez é por isso que a mensagem foco está na escolha dos sogros sobre a sua internação em um hospital psiquiátrico. O filme não vai até a cena dessa decisão, entretanto, a última cena, que eu creio ser capital para entender o filme, já demonstra que a futura resposta será “não”. Fineman volta ao estado normal de mentalidade adulta. Ele “recobre” sua consciência e é, novamente, considerado um homem social digno de respeito e compaixão.

Em Os Sonhadores, os medíocres o são pela superficialidade de seus atos, pela função apolítica, supostamente política, que desempenham; se afirmam políticos, são protestantes, não gostam do reformismo da figura paterna, entretanto, não conseguem levar à sério aquilo que dizem seguir. Não há nada além de tentativas de fuga da realidade, tentativa de formar um mundo para três pessoas, sendo que uma delas, a que entrou por último neste mundo, está lá por privilégio, não por direito. Em Reine Sobre Mim a mediocridade embasa teoricamente o filme. De um lado há uma demonstração da superficialidade do medíocre, do outro, a demonstração da falta de conteúdo nas formas medíocres.

Neste ponto, creio ser importante deixar claro que o medíocre não é um manipulado, ele é o resultado de qualquer sociedade. É o meio-termo entre o gênio e o dito imbecil. É o substrato social. Em Os Sonhadores há a relação de afeto e irritação de Matthew com os irmãos Theo e Isabelle, em Reine Sobre Mim há a mesma relação entre Charlie e Alan; esta relação é a ajuda, a inclusão e a intolerância no mesmo horizonte. São relações marcadas pelo desequilíbrio, enquanto as relações entre a os dois irmãos e entre a família de Alan são relações marcadas pelo bom atendimento às convenções; De um lado há a morte de um pai, do outro, os medíocres são atingidos pela interdição de um local simbólico, o cinema em que se reuniam.

Parece que os medíocres precisam de um luto para focarem em seus objetivos sem conteúdo. Eles (os personagens principais de cada filme) não se comportam de maneira cordial, o lado medíocre realiza ações que contradizem a esfera simbólica do outro. A briga é certa. Os irmãos vivem isolados da sociedade, durante o filme, Alan está preso à sua esposa, Matthew escolhe morar com os gêmeos, Charlie convida Alan para seu mundo. São relações de obrigatoriedade (o isolamento não é racionalizado, é fruto das suas próprias relações), já as ações de Charlie e Matthew são de iniciativa. O que demonstra mais uma característica destacada por Ingenieros: ele (o medíocre) não fala, repete sempre.

Vejamos a interpretação desta frase: o medíocre não fala por não ser sujeito ativo nunca, ele só repete, só absorve e reproduz, a sociedade se expressa através dele. Por não ser sujeito ativo, se entende que não realiza ações com potência em transformação. Sua ação é parada, é imóvel, paralisada – dura o momento por ser o caminho do senso comum através do tempo, é necessário que haja várias destas ações para o senso comum se perpetuar.

Charlie e Matthew

A clara diferença entre ambos é a posição em relação aos medíocres que eles ocupam e o desfecho que ambos são inseridos. Matthew rejeita os medíocre e sai de cena como um grande sábio ponderado, já Charlie é um louco, precisa de ajuda. Um está acima da mediocridade, o outro está abaixo. Matthew deu um salto qualitativo no fim d’Os Sonhadores, ficou em posição superior àquela em que estava, assim como Charlie, porém, a posição superior de Charlie envolve sua introdução na faixa medíocre. Fica necessário esclarecer duas características básicas: para um sujeito ser mais que medíocre, para alcançar a “alma individual”, ele precisa dominar os aspectos de socialização de sua sociedade e conseguir ir além disso. Ser uma variação adaptada, ter os fundamentos da própria sociedade para se fazer como uma variação dela.

Matthew assim o fez, ele é o homem superior, ele tem a alma individual, enquanto Charlie, por sua vez, só se adequou às convenções e maneiras de sentir, agir e pensar vigentes. Ele deu um salto à mediocridade, saindo da vida de puros delírios, sem a introjeção das regras fundamentais da cultura hegemônica onde vive. É por isso que eu defendo Os Sonhadores como um filme extremamento político e crítico. Uma crítica marxista ao marxismo de status – à tentativa de subir escalas sociais dentro de um sistema simbólico onde deveria haver uma luta contra a totalidade do próprio sistema simbólio e como funciona. Em outras palavras, é a absorção do marxismo pela ideologia.

Enquanto Os Sonhadores é uma dissecação da ideologia (no sentido marxista), um aviso dos perigos da transformação do marxismo em objeto de adorno, em cultura pop, ao mesmo tempo, é a classificação perfeita de uma doutrina revolucionária travestida de função social (mas na sociedade vigente)… É a colocação desta nova categoria de marxismo em sua posição de status. Só status.

Já Reine Sobre Mim é a vitória da mediocridade, pois em nenhum momento há alguma luta em relação à própria classificação de Charlie em um louco frescurento. Charlie nunca é tratado com alguém que sofreu sérios danos psíquicos, intensa emoções impossível de se lidar em estado normal. Sua trajetória é em direção da normalidade, em direção da mediocridade. O filme exalta o conservadorismo do cotidiano, exalta as relações familiares em detrimento das relações de direito. Uma das barreiras à se saltar é aquela que se refere à vida de adulto: o trabalho. Charlie terá que se afastar de seu video-game, de sua televisão e de seu quarto de música para desempenhar um papel de adulto. Seu desabafo com os sogros no fim do filme é uma cena capital por representar esse corte.

A cena final é o recolhimento de tudo que é excesso em prol da vida dentro do padrão normativo. Reine Sobre Mim é indignamente um filme representativo de uma vontade pública, a reeducação dos desviados, dos indesejáveis. Reine Sobre Mim é a aplicação da disciplina de Foucault, é a reintegração por meio da incorporação das regras sociais e por meio do aperfeiçoamento da função econômica. Charlie, agora, será um bom odontologista, pois sabe que há sempre alguém percebendo seus atos, pronto para classificá-lo como louco novamente. Sua individualização como objeto de vigilância por um poder extremamente ramificado o torna um sujeito sem poder político, sem a possibilidade de formar um corpo político, uma massa, uma coletividade, ao mesmo tempo que o coloca sob a constante pressão pela entrada à normalidade, uma constante pressão em estar de acordo e, desta forma, em produzir perfeitamente, em demonstrar que se está de acordo.

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Uma resposta »

  1. Muito legal seu comentário, mas não concordo com as considerações finais. Ok, elas fazem sentido, mas acho que no final o filme tenta mostrar exatamente o contrário. Embora haja uma tentativa social de enquadrá-lo à normalidade, o final do filme mostra que vence a opção para que Charlie encontre seu caminho por si só, a seu tempo e do seu jeito. Entendo quando você defende que tal “caminho” já seria o enquadramento, mas discordo, pois fica claro que este caminho nunca será um modo de vida sequer semelhante ao dosar “normais”. Este caminho é uma “escolha” individual de Charlie, ou seja, a maneira como ele consegue lidar com os fatos, e não a maneira desejada pela sociedade. Entendo que houve uma vitória (ouu pelo menos uma tentativa) do individual sobre o coletivo neste caso, principalmente quando o juiz humaniza a análise do caso, criticando veementemente o advogado e convidando as pessoas a pensarem um pouco mais fora da caixa, ou seja, um pouco mais na vontade e possibilidades de Charlie, e menos no desejado, no “normal”. A cena final do amigo no patinete também é bem simbólica no sentido de convidar essa tal sociedade a lidar melhor com seus desvios e aceitar outras formas de encarar a realidade. Talvez não seja correto falarmos que o autor pensou em vitórias, mas que opiniões opostas que podem conviver melhor em vez de prevalecer umas sobre as outras.

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