Assinatura RSS

As Notícias Que Importam

Meu ensaio publicado no Nego Dito.

As Notícias Que Importam

A Notícia Humanizadora e a Notícia Estatística

Com as últimas manchetes e coberturas dos jornais, como no caso do acidente de Pedro, filho do cantor Leonardo, e a morte de Marcos Kitano Matsunaga, diretor da Yoki, abre-se uma questão: por que acidentes de filhos de famosos ganham destaque, enquanto outras notícias tão traumáticas, ou mais, continuam sendo só estatística? O acidente de Pedro e a morte de Marcos Matsunaga não foram especiais, na verdade, acidentes traumáticos e inúmeros casos de violência em geral, acontecem a todo instante: em março aconteceram 1088 estupros no estado de São Paulo, uma média de 36 estupros por dia[1], em 2011, para o ano todo em SP, foram contabilizados 7631 acidentes de carro, uma média de 21 acidentes por dia[2], além da média de 18 mortes por dia no mês de fevereiro de 2012, também no estado de São Paulo[3].

Sem contar os atos da polícia em Pinheirinho, no centro de São Paulo e tantas outras violências cotidianas. Elas não são mostradas de forma isolada, com total atenção, como nas reportagens sobre Pedro. São mostradas como estatística, com um certo afastamento do núcleo do problema, para evitar que o problema, aquilo que as estatísticas mostram, seja humanizado.

Apesar da reportagem sobre Pedro e Marcos Matsunaga serem emblemáticas, não pretendo isolá-las, mas tentarei generalizar as conclusões parciais de cada tópico do ensaio para todo o aparelho midiático e seu funcionamento junto às massas expectadoras com notícias irrelevantes sobre assuntos fora de órbita.

Censura Passiva

Temos outras notícias que os meios de comunicação com mais holofotes poderiam colocar em pauta, como as greves nas universidade federais que já alcançou o número de 80% das instituições[4]. Entretanto, creio que isso não é considerado importante. Se considerarmos a censura como um veto de um conteúdo que afeta o mais íntimo dos princípios morais e políticos de uma classe dominante, detentora dos maiores recursos e de todo aparelho estatal, então, a não-seleção de notícias também pode ser, de forma limpa, classificado como censura. A técnica de inspeção, seleção, corte de conteúdo ou veto total ainda acontece, mas num passo anterior. Vou explicar adiante.

Como o monopólio das notícias já é de um elemento que visa a permanência da ordem vigente (grandes emissoras de TV, Rádio, grandes jornais e etc), a seleção acontece internamente. Vejam, o pressuposto de um jornal num país liberal democrático é sua imparcialidade, uma verificação prévia da notícia e uma inspeção sobre os fatos. O que está no jornal, está imerso num arcabouço de pressupostos que garantem (novamente, num país liberal democrático) sua autonomia como verdade perante às doutrinas políticas que lutam entre si. A notícia do jornal deveria levar o indivíduo a escolha de uma doutrina ou da recusa de todas, mas sempre baseado em argumentos verificáveis na realidade pura, não-ideologizada.

Porém, os pressupostos já podem ser questionáveis: ao partir do pressuposto que a mídia é imparcial e verdadeira (sua verdade se situa no campo neutro, ou seja, no campo da verdade pura, sem qualquer infecção de política), também se parte do pressuposto que o indivíduo (com sua inviolável e absoluta liberdade) escolhe sua posição política pautado nos argumentos supostamente neutros da grande mídia. Desta forma, o papel da mídia seria mostrar a realidade neutra do mundo para os espectadores que, por sua vez, racionalmente concluiriam qual caminho ideológico seguir. Porém, a noção do sujeito racional, consciente de todos os seus atos, reflexivo e ontologicamente livre para fazer o que realmente quiser, dono de todas as suas decisões e responsável por todos os seus atos – noção essa que embasa uma mídia dita neutra e a dá conteúdo significativo – está sendo descascada desde o fim do século XIX com Marx e o foco na Infra-estrutura e Superestrutura, com Durkheim e o foco no Fato Social e Freud, com o foco no Inconsciente.

Desta forma, o sujeito foi perdendo espaço nas análises sociais. Em Marx, sabemos que a classe dominante precisa legitimar a relação de produção vigente, que a privilegia, a afirmando como natural ou como absolutamente válida, perante às classes dominadas. A ideologia é a forma teórica da dominação, é o que legitima as relações de produção. Partindo das análises de Althusser, a vantagem de ser uma classe dominante dentro de um Estado é ser detentor do poder estatal, ou seja, a capacidade de utilizar da maneira que bem entender os aparelhos estatais (como a polícia, a escola, a igreja e etc), estes, por sua vez, podem estar na categoria de aparelhos estatais ideológicos, como a igreja e a escola, que atuam predominantemente na socialização do indivíduo, introduzindo a ordem vigente como conteúdo nuclear do pensamento e da vida material; ou também na categoria de aparelhos estatais repressivos, como a polícia, que age como o braço forte da classe dominante. Os aparelhos repressivos retiram à força tudo aquilo que desestabiliza a ordem.

Nesta concepção, a mídia – de poder majoritariamente privado, num país liberal – poderia ser traduzida como um dos aparelhos ideológicos. É por ela que também internalizamos as estruturas vigentes da política, da economia e etc. Desta forma, a posição de neutralidade está fadada ao eterno fracasso.

Cada indivíduo já nasce em um lugar onde a cultura, as regras sociais, as maneiras de fazer, de sentir e de pensar coletivas já existem e para se relacionar com esta sociedade (ou seja, com os outros indivíduo em geral) é necessário aprender as regras expostas. Não é uma questão de opção, pois a socialização acontece desde o nascimento até a morte, é uma questão de coerção. O foco, aqui já em Durkheim, também não está no indivíduo, mas em suas relações. Como combinar esta noção de consciência coletiva clássica de Durkheim com a teoria marxista? Creio que devemos olhar mais de perto para a ideologia.

Ela também está em sua vigência antes do nascimento da cada indivíduo em particular, assim como também determina as representações sociais. Posso dar um passo à frente, considerando o conceito de consciência coletiva combinada com a dialética materialista, como uma descrição perfeita da ideologia. Todos nascemos embebedados na ideologia. Ela nos pressiona a tomarmos certos hábitos como naturais ou certas representações como verdades inquestionáveis. A mídia é um aparelho de Estado, é composta por um grupo que detém seu controle e que, por sua vez, também está no mesmo grupo que detém o controle estatal. Não é qualquer um que tem poder sobre uma emissora ou uma editora de grande porte, com veiculação extraordinária, como algumas de nossas mais famosas revistas semanais. Existe uma sincronia ideológica entre as relações de produção vigentes e a expressão da mídia sobre os acontecimentos do cotidiano.

O que a mídia transmite só é transmitido por ser passivo em relação aos interesses da classe dominante. É por isso que “a revolução não vai ser televisionada”. A televisão vai mostrar a casa milionária de algum artista famoso nos momentos tensos de inversão de relações sociais e suspensão moral na revolução. Ou então acusará as massas revolucionárias de diversos crimes, como o desrespeito à propriedade privada, previsto em lei – lei essa, que pretende ser destruída pela revolução. Percebe-se, então, que a arma ideológica não é uma arma neutra, mas sim, uma arma de legitimação. A mídia legitima o sistema social e econômico vigente.

Uma das formas de legitimação está na censura passiva: o ato de censurar previamente uma notícia já conhecida, deixando de transmiti-la e colocando qualquer outra notícia ou reportagem inofensiva em seu lugar. Numa sociedade democrática, as formas de censura das grandes ditaduras são inaceitáveis, portanto, para conseguir aplicar uma censura utilizando as técnicas aprovadas socialmente, o grupo dominante se aproveita de seu monopólio em relação ao aparelho ideológico para inspecionar todas as notícias e selecionar aquelas que convém, da mesma forma não-selecionar aquelas que não convém. Uma censura prevista em lei e, como dito, em um passo anterior, afinal, não há obrigação para uma emissora privada informar todas as notícias que passam pelo conhecimento de seus diretores. Livre-escolha, dizem.

A censura está no ato de não-selecionar as notícias para informação pública, o que deveria ser um dever destes meios de comunicação. Um exemplo é o livro A Privataria Tucana de Amaury Ribeiro Jr, que, apesar de ter número alto de vendagens e estardalhaço na esfera política brasileira desde seu lançamento, demorou para ser noticiados nos centros de notícia de grande porte. Quando foi noticiado, outro mecanismo de defesa (e ataque) foi acionado: quando noticiado, imensos ataques foram feitos contra a veracidade de seu conteúdo, além dos ataques contra a permissão de circular no mercado nacional.

Ligação Do Indivíduo E Da Notícia

Mesmo assim, Pedro e seu acidente ainda são o foco, juntamente com o assassinato de Marcos Matsunaga, e mais do que isso, esse foco é correspondido. Oras, não há nenhuma insatisfação de massa em relação a essas estratégias de seleção de notícias que merecem destaques e notícias que merecem ser ocultadas. Não dá pra negar que a mídia mainstream é manipulada, mas como que as pessoas ainda se comportam como se nada estivesse faltando?… De repente me deparo com o comentário seguinte, na página da Folha sobre o acidente de Pedro:

gracas a deus que esta melhorando,e com fe em deus vc vai ficar bom, apesar de nao saber quem e vc e nem conhecer tuas musicas, e tb nunca ter visto na Tv ,espero que se recupere logo para ir cuidar de teus filhos, pq eles prescisam de vc.abracao dede Miami” [sic]

Este comentário me pareceu revelar algumas atitudes já descritas por Slavoj Zizek, em relação ao alarmismo ecológico atual, e já argumentadas por Joel Birman, em relação ao lugar do sujeito nas categorias de dentro-de-si e fora-de-si.

Zizek argumenta que a ecologia é o novo ópio do povo, pois ela assume a figura de um poder autoritário que delimita toda ação humana. O papel anterior da religião, mas que, em uma mundo secular, não funciona da mesma maneira. Desta forma, a ação cotidiana de “salvar o mundo”, como com a utilização de ecobag’s, reciclagem, não jogar bituca de cigarro no chão e etc, são ações ética individuais que atuam como superstição: ligam o indivíduo a uma ordem moral superior que pretende alcançar um objetivo maior, a salvação do planeta, por fim, retira toda a culpa imputada sobre o indivíduo enquanto ser humano pelas desgraças praticadas sobre a natureza e o faz sentir bem, parte dessa ordem superior e colaborador deste objetivo maior.

Birman, por sua vez, nos argumenta que, durante a formação da noção de loucura e do desenvolvimento de teorias sobre a perda da razão, uma classificação básica foi firmada: a de que o louco é alguém fora-de-si e o são é alguém dentro-de-si. O louco não consegue se conter, não se inibi, não raciocina introspectivamente, não administra seus temores nem avalia suas representações comparando-as com a realidade, já o são é o indivíduo racional, introspectivo, contido, educado e que se utiliza de referência a realidade para a formação de suas representações. A nomenclatura não é arbitrária: o sujeito fora-de-si não teria a capacidade de controle e assimilação da ordem que o sujeito dentro-de-si tem, desta forma, seria um sujeito sempre descontrolado, ao contrário do são, sempre controlado e dentro-de-si, sempre contido.

A nossa sociedade do espetáculo valorizaria a imagem tanto, ao ponto do sujeito externo, aberto, fora-de-si (sob certo ângulo), ser considerado o normal, enquanto o dentro-de-si ser caracterizado pela patologia (como a depressão e a síndrome do pânico). Aquilo que mantém o indivíduo introspectivo não é mais uma caracterização de adequação à norma, mas, pelo contrário, é necessário medicação para o indivíduo se localizar no fora-de-si e continuar “funcionando” socialmente.

Voltando ao comentário acima, o comentarista não faz ideia de quem seja Pedro, nunca o escutou, nunca o viu, nem sabia de sua existência antes do acidente, entretanto deseja o melhor para ele, pois quer que ele volte à saúde para cuidar dos filhos, que tanto precisam do pai. Ah, este comentarista é de Miami, ele quis que isso ficasse claro.

Me parece que, ao participar deste tipo de notícia, o leitor/espectador, ao invés de realmente ser o indivíduo de distinta moral que exprime pelo comentário altruísta, na verdade, faz este comentários para si. O comentário é uma maneira de se inscrever no campo do Fora-de-si, de Birman, de estar à mostra na sociedade do espetáculo, afinal, este comentário será visto por todos aqueles que passem por esta página da web – dificilmente por Pedro -, ao mesmo tempo que esta exposição é ética, é moral, é valorizadora dos bons costumes da época do Dentro-de-si, da época em que a introspecção e racionalidade fria eram sinais de adequação social. A época atual ainda guarda os valores de ordem antigos, entretanto, como que seguindo um caminho oposto, é necessário expor este valores. O dentro-de-si fica subordinado ao fora-de-si. Ou melhor, este último garante a afirmação do primeiro.

Me parece também que a ligação que o expectador firma com a notícia, a ligação de estar participando de algo maior, da torcida pela melhora de Pedro, de poder expressar por este algo maior uma ética justa e pura, mas que precisa ser demonstrada pelo indivíduo que dela participa, nem que seja por um comentário na caixa de mensagens, desta forma, combinando a pseudo-participação ética no mundo (estar fazendo algo por um mundo melhor) mais a inscrição no Fora-de-si, acaba representando toda uma lógica de sobrevivência social peculiar.

Os Dois Lados

Não necessariamente o comentário na página da notícia significa que o indivíduo está realmente preocupado com o que acontece com o sujeito, só tenta livrar uma culpa pressuposta, uma sensação de culpa, realizando um ato ético individual, ao mesmo tempo que consegue exteriorizar este ato, se inscrevendo no campo simbólico do fora-de-si, com as características dentro-se-si já vigentes.

Isto é uma ação ideológica, uma ação que mantém a ordem vigente, pois não há nada realmente prático que saia dela. É uma ação que se fecha politicamente no indivíduo e se abre da maneira mais fetichista ao social. Causa satisfação por ser uma ação, mas é uma ação sem validade, individual, ao mesmo tempo que garante uma auto-estima maior para o ator social, que se torna personagem principal na sociedade do espetáculo, que consegue se colocar no espaço fora-de-si, porém, ainda se resguardando das características inaceitáveis do louco clássico.

Por sua vez, os grandes centros de distribuição de notícias, fornecem a oportunidade desta ligação ocorrer, pois veiculam com atenção maior as notícias relacionadas com os supostos maiores problemas do mundo ou da região. Não se fala sobre lutas sociais, se fala sobre vandalismo de alunos das universidades públicas. Toda notícia já vai encharcada de ideologia, assumindo o papel de um ponto reativo de uma substância em polimerização e o público, que está em alarmismo generalizado e que precisa fazer algo, assume o outro ponto reativo: assim como na química, quando os dois pontos reativos se encontram, conseguem formar um todo maior. O público e a notícia se sincronizam e se mantém unidos no estado atual.

Referências aos dados estatísticos reproduzidos:

[1]http://colunas.revistamarieclaire.globo.com/mulheresdomundo/2012/05/09/aumenta-o-numero-de-estupro-no-rio-e-em-sao-paulo/

[2]http://colunas.revistamarieclaire.globo.com/mulheresdomundo/2012/05/09/aumenta-o-numero-de-estupro-no-rio-e-em-sao-paulo/

[3]http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,numero-de-homicidios-em-sp-cai-em-relacao-ao-ano-passado,853523,0.htm

[4]http://g1.globo.com/vestibular-e-educacao/noticia/2012/06/veja-situacao-das-universidades-federais-com-professores-em-greve.html

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: