Assinatura RSS

Arquivo da categoria: Capitalismo

Demissão Em Massa Na Caros Amigos

Publicado em

A direção da Caros Amigos anunciou ontem a demissão em massa dos funcionários em greve, tendo como motivo a “quebra de confiança”. A greve foi utilizada como última resistência à precarização do trabalho dentro da redação da revista, que contava com 11 trabalhadores.

A Greve

A greve começou como resposta e resistência às medidas da diretoria da revista para solucionar seus problemas financeiros e fiscais, medidas essas que programavam uma redução de 50% na folha de pagamento da revista e a demissão de metade dos funcionários, tudo “devido ao pagamento de dívidas fiscais acumuladas desde o ano 2000 e ao déficit operacional entre receitas da editora e custos fixos, incluindo os nossos (baixos) salários”.

O trabalho que era feito por 11 funcionários seria feito por 5 ou 6, sem redução do trabalho total da revista, ou seja, com aumento de trabalho para cada colaborador e sem aumento de salário. O Diretor-Geral da revista também afirmou que começaria a utilizar serviços free-lancers para complementar o que faltaria pelo défict de funcionários.

A contração de Freela’s seria uma maneira de continuar com a estratégia de “ausência de registro na carteira profissional, o não recolhimento das contribuições do FGTS e do INSS “, como relata a própria equipe da redação.

Toda a equipe da redação mantinha relações com a administração da revista, “Desde 2009, que foi quando essa equipe que há na redação hoje começou a ser montada, a gente tem se organizado para conversar com o diretor-geral da revista para ir gradativamente melhorando as nossas condições de trabalho” – mas este contato constante não adiantou de nada, foi necessário algo mais drástico.

Contradição da revista

Agora, o que mais me surpreende é que a revista respeitada pela esquerda, com ótimos artigos críticos e que não se pautava no mercado para escrever, para traçar sua linha editorial, de repente, mesmo em situação de crise, utilize uma arma do patronato. A demissão em massa feita pela direção prova que patrão é patrão, não importa onde.

Há diversas maneiras de reerguer uma revista, “como a publicização da crise financeira e a criação de uma campanha para ajudar a revista poderiam ser tomadas para que não fossem necessárias as demissões dos profissionais”. Entretanto, demissão em massa só adianta a falência da revista.

Oposição Comunista x Capitalista

Publicado em

Em conversas cotidianas, conversas com populares, estudantes, trabalhadores especializados ou não, é comum notar, quando se toca no assunto, é claro, que a oposição comunista x capitalista norteia o significado destes dois termos, de maneira que um é aquilo que o diferencia do outro. Como se fossem análogos, mas com sentido inverso. Isso se reflete em comentários como “Se é comunista, por que trabalha?”, “Por que tem casa própria?” e etc. Mas o que eu queria argumentar é justamente que esta oposição não existe.

O Típico Garoto Pera-Com-Leite Que Manda As Gafes Do Primeiro Parágrafo

Categorias De Análise

Se pararmos para pensar, perceberemos que a oposição em que uma sociedade de classes se constrói, pautada no sistema econômico, é entre proletário x capitalista. Sendo este o detentor dos meios de produção e aquele o possuidor somente de sua força de trabalho que, portanto, precisa vender para conseguir sobreviver numa sociedade capitalista. Proletário e capitalista são duas posições possíveis na estrutura econômica capitalista atual – Mas comunista não é; comunista é uma posição possível em uma estrutura política, quero dizer, ser comunista é relacionado à ação política, à ações que manifestamente corroboram com um ideal de sociedade comunista.

Dentro da estrutura política é mais razoável colocar a oposição entre direita x esquerda, estando na esquerda o comunista, anarquismo e etc, e na direita o liberalismo, conservadorismo, social-democracia e etc.

Desta forma, se tentarmos junta tudo em uma análise político-econômica, chegaríamos num sistema de posições possíveis onde Engels seria classificado como capitalista (já que era detentor dos meios de produção) e comunista (por sua vida política). Não é gafe definir Engels como comunista, assim como, se obedecermos o rigor da classificação, também não será gafe coloca-lo na trupe dos capitalistas.

As Possibilidades Da Estrutura

Ao dizer que Engels foi uma capitalista comunista, eu também posso dizer que não é possível ser uma proletário capitalista, por que estas duas posições dependem uma da outra para existir – formam um sistema onde se definem exteriormente, pela diferença com os demais. Dentro do sistema econômico, as classificações lá contidas são excludentes, não se confundem, mas podem mesclar-se com as classificações de outros sistemas, como do político.

O Comunista Capitalista

O que restringe, na verdade, diminui a probabilidade de se encontrar mais capitalistas comunistas é a complexidade da vida social – ela não é fria e racionalizada, não é um grande cálculo – há outras coisas em jogo, há todo um capital simbólico que flui e se acumula em torno de ações de cunho moral, por exemplo. A honra, a hipocrisia, a dignidade, o trabalho (enquanto valor) são forma de acumular ou denegrir capital simbólico. O que não leva um comunista a ter planos futuros de ser o diretor de uma indústria de carvão é a contradição que isso expressa simbolicamente – é o fato de que a responsabilidade do diretor de empresa é reproduzir e segurar um sistema de desigualdade. Ele (o diretor) é uma das autoridade neste aspecto.

Entretanto, não se deve ficar iludido, pois se se está dentro de uma sociedade capitalista, não há como fugir da sua lógica auto-reprodutora. Por isso que somente uma revolução poderosa pode inverter as relações sociais, por que, no cotidiano, elas se reafirmam continuamente.

Morre Hugo Chávez – Que Será Da Venezuela?

Publicado em

Uma Perda De Referencial

Morre hoje o então presidente da Venezuela Hugo Chávez – uma morte surpresa, afinal, após o tratamento de seu câncer no pélvis, tudo parecia resolvido, inclusive com declaração do próprio Chávez após a quimioterapia.

Com 58 anos de idade, ele foi, conforme fala de Zizek: “Todos amam as favelas e os marginalizados, mas poucos querem vê-los mobilizados politicamente. Hugo Chávez entendia isso, agiu nesse sentido desde o começo e, por este motivo, deve ser lembrado”. Isso significa que Chávez viu nos marginalizados o novo “proletariado”, ou seja, a nova classe revolucionária, o novo sujeito histórico, os novos despossuídos não são mais os operários da indústria, mas sim os favelados e marginalizados.

Comentários Gerais

Conforme não era novidade, afinal de contas, isso nunca é novidade, o Jornal Nacional chamou um de seus intelectuais de plantão para comentar a morte de Chávez e o futuro da Venezuela. Demétrio Magnoli foi bem direto e claro ao dizer que “A Venezuela não chega a ser uma ditadura, mas não é uma democracia”.

Eu estava sendo irônico, é claro. Bom, uma ditadura não tem eleições diretas, certo? Então não é uma ditadura. Eu creio que é difícil falar em democracia, pois a democracia é algo intrincado com preceitos do liberalismo. Dizer que a Venezuela não é uma democracia é dizer que ela não é uma democracia nos moldes liberais. Isso, realmente ela não é.

Lobão foi um arauto da felicidade anarco-capitalista adolescente: “Chávez está morto.” Provavelmente seguido de um pulo de felicidade e gritos de satisfação. Suas rezas estão começando a funcionar.

O Destino Escapa

Ele foi eleito e re-eleito por 4 vezes, conseguiu mudar a constituição com apoio popular e se safou de um golpe de Estado, em 2002 – Não dá pra saber se lá havia a figura do líder de massas ou o representante de um grupo cônscio de seu papel político e com apoio manifesto a um projeto socialista. O futuro da Venezuela é imprevisível.

A única coisa que podemos esperar, por enquanto, é que seus eleitores tenham sido agentes políticos, com motivações claras e projetos claros e que, por isso, sejam reais apoiadores e sonhadores de uma sociedade que supere o capitalismo.

Yoani Sánchez e sua função social

Publicado em

Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

Eleições Democráticas?

Publicado em

As eleições deveriam ser a demonstração máxima da democracia, da virtual possibilidade de expressão livre e popular. Ou seja, ela deveria ser a representação de que vive-se num mundo livre, sem opressão ideológica e onde é possível que haja mudanças drásticas na forma de governar somente com o voto popular. A maioria de votos, desta forma, seria a forma perfeita e neutra de se chegar a um resultado bom em termos gerais. Não se pode esperar um consenso, como Rousseau esperaria de sua sociedade perfeita, mas, como Locke já havia aceitado anteriormente, a maioria deve ser respeitada em sua vontade.

Inevitavelmente haverá um grupo que não concordará com os resultados obtidos, o grupo que votou naquilo que traria outros resultados. Isso já seria uma forma de caracterizar uma ditadura da maioria, entretanto, creio que o ponto interessante é a forma como a democracia se faz neutra, sem ideologia, para depois legitimar os resultados como sendo resultados realmente populares. O voto só é um instrumento democrático no instante em que se admite que é a escolha livre dos indivíduos que decide o futuro de um país, cidade, estado e etc. Mas já sabemos que não há como trabalhar com o pressuposto iluminista de que a sociedade se trata de indivíduos livres, racionais e conscientes de seus atos que pretendem obter o máximo de vantagem com sua racionalidade em cada decisão. Não dá mais pra admitir que os indivíduos simplesmente constroem as suas vidas individualmente, mas se deve perceber que isso ocorre em sociedade, imerso em um sistema cultural, em uma estrutura social, etc e etc.

Isso nos leva a uma conclusão: não há democracia realmente livre e realmente neutra em nenhuma canto do universo. Se todas as sociedade tem sua própria estrutura, seu sistema simbólico, suas regras vigentes, sua moral e, se pensarmos que todas essas estruturas, todo esse sistema social, econômico e político, atuam de forma coercitiva, então a democracia é só a ilusão da decisão. O povo pode até decidir sobre quem ficará no poder, mas não decide se o poder deve se manter da mesma forma que está. Como Marx já denunciava na Ideologia Alemã, a classe dominante detém o domínio de toda a produção intelectual e isso não é difícil de se ver, afinal, se há uma classe com o domínio material em uma sociedade, se a sociedade depende dela para se manter ou, na verdade, se ela faz parte estrutural da sociedade e detém um domínio dos meios de produção, então, haver um domínio intelectual, uma legitimação teórica de seu domínio material é um caminho natural de legitimação de classe.

Não é uma surpresa ver que toda a ciência de uma determinada época em um determinado lugar é apropriada pela classe dominante para sua auto-legitimação. Por que a democracia estaria fora disso? Os pressupostos ontológicos individualistas não se confirmam com a realidade, mas, mesmo assim, ainda se tem uma sociedade pautada neste pressupostos que, desta forma, ainda confia no voto uma real decisão sobre a vida social e política. Isso não é verdade. A própria maneira como as eleições são estruturadas nos leva à observações interessante sobre seu poder de manutenção da ordem, afinal, ela regula um ciclo que se perfaz como um presente eterno. Os ciclos de votação são como as renovações que ocorrem em uma mesma sociedade: a renovação da escolha de nosso futuro, a suposta decisão sobre nossa vida (imutável em seu núcleo, mas mutável em sua superfície), mas que não passa de uma celebração à ordem. É um movimento pseudocíclico espetacular, que se sincroniza com a vida alienada, com o trabalho alienado, já que é um ciclo não-verdadeiro e que tenta suprimir os conflitos constitutivos do sistema em que opera.

Este espetáculo da vida política ainda lança forma de supostamente garantir uma igualdade de visibilidade à todos que participam do processo de votação e eleição. Ou seja, num país neoliberal, um comunista pode tentar ser eleito e tem direto aos comerciais na TV. Mas, vejamos, se toda a sociedade, a educação, as instituições e a própria norma social são estruturados de maneira onde certas forma de viver se reproduzem automaticamente, além de serem reconhecidas e reconhecíveis, por meio da linguagem, sem nem precisar de um esforço de raciocínio muito maior, então, de que vale abrir lugares para os opostos da ordem vigente? Por que dar lugar para comunistas se elegerem? Exatamente por que comunistas nunca vão se eleger e realizar um governo comunista.

Essa porta aberta tem uma função específica, que é demonstrar a justiça dentro de um sistema de eleição democrática – uma justiça não existente, uma justiça que não é possível, mas que é ilusória, que se demonstra no discurso, na aparência, no espetáculo. Exatamente esse tipo de ilusão que aproxima o indivíduo e a população da política, ao mesmo tempo que os afasta, já que a política fica cada vez mais (aparentemente) possível de ser modificada e possível de participação e mudança, ao mesmo tempo em que, exatamente por ser superficialmente de fácil participação, causa a apatia social de não participação em movimentos sociais de mudanças drásticas e não-democráticas, pois, supostamente, não seria necessário nada “violento”, por que a democracia já oferece o lugar para a expressão de todo e qualquer grupo social e político.

Exatamente essa face da democracia que envenena toda forma de agitação social, afinal, não é necessário agitar coisa alguma, agitação é para selvagens do terceiro mundo, coisa que nós estamos deixando de ser – ou pior, agitação é para favelados que botam fogo no ônibus. Democracias civilizadas não precisam disso. Já se nota a aversão pela agitação como uma representação do afastamento da realização das pulsões, sendo bem freudiano, não agitar é manter-se sob as regras sociais, que são, sem sombra de dúvida, inibidoras de comportamentos e pensamentos, logo, o outro que se satisfaz, que parece não ter regras a obedecer, é um objeto de mal-dizer perfeito, ele deve ser regrado instantaneamente, ele deve perder sua selvageria não civilizatória. A democracia é a sociedade dos limpos. A revolução é a atitude dos porcos.

Dentro desta lógica onde, da mesma forma que Freud já havia percebido no Mal-Estar da Civilização, a higiene é um valor social, ela também é utilizada para manter sistematicamente a noção de ordem e livre-escolha civilizada, culta e racional. O voto racional, higiênico, limpo é um discurso muito bem estruturado por trás de toda a apatia extremamente funcional que a própria sociedade democrática trás em seu bojo e que precisa de uma quebra drástica e suja para não se reproduzir ciclicamente ad infinitum.

Qual é o resultado disso? Como Zizek já analisou na Europa, aqueles que conseguem firmar uma posição clara em relação às questões básicas e fundamentais, como em relação ao aborto, direito das mulheres e negros, se mostram como mais aptos a representar a população, que já não acredita nos candidatos “administrativos”. PT Vs PSDB seria um exemplo disto, nas municipais de SP. Russomano é o sujeito que se posiciona – o conservador nato que tem as respostas para os anseios mais básicos das pessoas.

Quando não se responde nada, por pura vontade de não perder votos, ou seja, por pura administração – disputa administrativa, não política – nada pode ser afirmado ou identificado. Já quando um sujeito assim o faz, ele se torna um ponto de cor diferente na massa pontilhada.

Tentativa de Refundar o ARENA – Não é Trollagem

Publicado em

A tentativa de refundar o ARENA tem como pilar argumentativo que não há direita no país e que aquilo que foi feito na ditadura militar não era atividade do partido, mas das pessoas que foram eleitas e estavam no poder. Em outras palavras, não foi o partido que torturou, foram pessoas físicas.

Todo o restante do discurso conservador-nacionalista de atividade moderada, de virtude da via-média, também está incrusto nas entrevistas da líder dessa tentativa torta de recriar uma direita de verdade – assim como a maioria das ações da direita, esquecendo do anacronismo conservador em relação aos problemas sociais atuais.

Não haver direita no Brasil é quase como cuspir pro céu e ficar esperando a meleca voltar para a testa. Os centristas e liberais que a nova iniciativa recusa não são considerados de direita: a direita de verdade “honra pai e mãe”, estupra o trabalhador brasileiro, mesmo, não aguenta a intromissão de outros estupradores nascidos em diversos países já bem desenvolvidos. Valorizar o que é nosso, valorizar o conservadorismo feito em casa.

Mas eu considero como mais engraçada a tentativa de livrar a ARENA de qualquer responsabilidade por ações da ditadura, por ser somente um partido, não o executor – “partido faz política”. Se no bipartidarismo a ARENA era a representante da ditadura, como se faz para desvencilhar as ações da própria ditadura com sua representante na pseudo-democracia bipartidária? Este argumento é espetáculo, pois afasta a relação direta e prática existente em o partido e os indivíduos que são autorizados para executar o que quiserem sob seu manto.

É uma tentativa de fazer da política uma abstração, onde o político só é responsável por si e o partido só pelo seu nome. Desta forma, o partido não existe, o que existe são pessoas. Nada mais idealista, pois o partido é um centro de poder e organização que coage e organiza seus membros para determinados fins. Para atender seus interesses. O partido não existe como forma física, mas existe como organização, existe como centro de coação e união, existe como fortalecedor de ideais e como fonte de propaganda. O partido ainda é colado em seus membros.

Os membros do partido só o são por serem “uno” em suas ações sob o nome do partido – o partido se expressa através de seus membros e exatamente por isso pode expulsá-los caso não ajam de acordo com seus pressupostos. A tentativa de criar um afastamento entre o partido e os membros é a mesma tentativa de desligar a teoria com a prática, é noção de que o mundo muda se as pessoas pensarem de forma diferente, é a separação da matéria e da consciência tanto criticada por Marx na Ideologia Alemã.

Este afastamento ainda é uma forma de ligar os acontecimento da ditadura não como uma ação social, mas como uma ação promovida por um poder pessoal pseudo-neutro (no sentido de não pertencer à nenhuma sigla). A relação se fixa na personalidade autoritária que, supostamente, promoveu por si todos os ocorridos na ditadura – deixando de lado toda a estrutura política e toda a coerção social exercida pelos aparelhos repressivos além de toda a propaganda reproduzida pelos aparelhos ideológicos estatais. Se um líder morre, há outro, pois está tudo ligado estruturalmente (estava, né).

Desta forma, a separação Partido Vs Executores não é válida, não possível de argumentação legítima, é pura ideologia, tentativa de retirar do partido a sua responsabilidade no controle de figuras para eleição, propaganda eleitoral e representação formal da própria ditadura.

O Uso do Tempo-Livre

Publicado em

A mais supérflua banalidade reiterada pelos sociólogos de esquerda recentemente é que o lazer se tornou um dos pontos principais de avanço na sociedade capitalista. Esta banalidade é a base de incontáveis debates a favor ou contra a importância de uma reforma nos padrões de vivência, ou sobre a participação dos trabalhadores nos valores de vida que prevalecem em nossa sociedade e que eles, os trabalhadores, estão se tornando cada vez mais integrados. O que é contra-revolucionário em toda essa verborragia é que ela equaciona tempo-livre com passividade de consumo, como se o tempo livre fosse usado exclusivamente para se tornar cada vez mais um espectador em tempo integral dos absurdos vigentes. As ilusões manifestadas em um ponderado simpósio em particular, deste sociólogos, foram sonoramente refutadas em dois artigos na Socialisme ou Barbarie #27. No primeiro, Pierre Canjuers escreveu que: “Enquanto o moderno capitalismo constantemente cria novas necessidades justamente para aumentar o consumo, a insatisfação das pessoas continua a mesma de sempre. As suas vidas já não têm mais nenhum significado além de uma corrida ao consumo e esse consumo é utilizado como legitimação do aumento da frustração de qualquer atividade criativa de genuína iniciativa humana – ao ponto das pessoas não conseguirem enxergar essa ausência de significado como um ponto importante.” No segundo artigo, Jean Delvaux percebeu que o problema do consumo não substituiu a distinção qualitativa entre o pobre e o rico (a cada cinco trabalhadores, quatro ainda precisam se esforçar para conseguir pagar suas despesas). De modo mais significativo, ele também apontou que não há razão para se preocupar se o proletariado participa ou não dos bens de valores cultural e social vigentes, pois “nenhum deste valores existem.” e ele adicionou o ponto essencial que a cultura presente, “cada vez mais separada da sociedade e da vida das pessoas (artistas pintando para outros artistas, romancistas escrevendo romances que serão lidas por outros romancistas sobre a impossibilidade de se escrever um romance) – esta cultura, na medida em que tem alguma originalidade, ela não é nada mais que uma auto-denúncia: a denúncia desta sociedade e um ódio contra a cultura em si.”

O vazio do lazer, deriva do vazio da vida na sociedade atual, e não pode ser preenchido pelo escopo desta sociedade. O vazio é simultaneamente expresso e ocultado pelo espetáculo cultural como um todo em três formas básicas.

A “clássica” forma de cultura continua a existir, seja produzida em sua forma pura ou como em imitações recentes (Teatro Trágico, por exemplo, ou a polidez burguesa). Em segundo lugar, há as inúmeras representações espetaculares degradadas em que, através delas, a sociedade vigente se apresenta ao explorado de forma em que consegue se mistificar (esportes televiosionados, virtualmente todos os filmes e romances, publicidade, o status simbólico social do automóvel). Por fim, há uma negação de vanguarda do espetáculo, uma negação que é frequentemente incosnciente de suas bases, mas que é o único aspecto “original” da atual cultura. O “ódio contra a cultura” expresso por suas formas últimas como a mesma indiferença que os proletários como classe têm para qualquer forma da cultura espetacular. Até o espetáculo ser negado, qualquer audiência que assista esta negação não poderá ser distinguida de toda a audiência suspeita e infeliz que consiste em artistas e intelectuais isolados. Quando o proletariado revolucionário se manifestar, não será como uma nova audiência para um novo espetáculo, mas como pessoas participando ativamente de todos os aspectos de suas vidas.

Não há nenhum problema revolucionário em relação ao lazer – de um vazio a ser preenchido – mas sim um problema de tempo-livre, como tempo que pode ser livremente utilizado pelo indivíduo e pela sociedade como um todo. Como já dissemos: “Não é possível haver nenhum uso do tempo-livre, ou uso livre do tempo, até que possuamos as modernas ferramentas para a construção do cotidiano. O uso destas ferramentas marcaria um salto da arte revolucionário utópica para a arte revolucionário experimental” (Debord, “Theses on Cultural Revolution,” Internationale Situationniste #1 ). A superação do lazer pelo desenvolvimento de uma atividade de livre-criação e consumo só pode ser relacionado com a dissolução das artes tradicionais – em sua transformação à modos superiores de ação que não recuse a arte ou tente aboli-la, mas sim que tente preenchê-la completamente. Por este caminho, a arte seria substituída, conservada e superada com uma atividade mais complexa. Seus elementos tradicionais poderiam continuar parcialmente presentes, mas transformados, integrados e modificados pela totalidade.

Movimentos anteriores de vanguarda se apresentavam declarando a excelência de seus métodos e princípios, que seriam imediatamente tidos como a base de seus trabalhos. A IS [Internacional Situacionista] é a primeira organização artística a se basear na completa e radical inadequação à todas as formas permissíveis de trabalho artístico; e que sua significância, sucesso ou falha, só serão possíveis de verificar com a práxis revolucionária de seu tempo.

IS – 1960

—————

Traduzido do texto em inglês, aqui.

%d blogueiros gostam disto: