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Arquivo da categoria: comunismo

Algumas Fotos e Imagens Marcantes de Lênin e da Revolução Russa

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Você pode estar pouco se fodendo para a Revolução Russa, mas deve admitir que essas fotos e imagens marcam uma época muito importante da história humana. Veja cada detalhe, cada coisinha retratada. Nada estava lá em vão. Esta é a revolução!

Lênin em Discurso

Civis em Posição

Mais uma de Lênin

O Domingo Sangrento

Aqui um típico cartaz da revolução

Isso seria Lênin varrendo a burguesia e a monarquia da Rússia

Após a Vitória

Em Discurso Público

Uma De Suas Imagens Mais Conhecidas

 

 

 

 

 

 

 

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Comprar Livros – Sim ou Não?

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Hoje eu fui comprar livros. Comprei 4 livros. Essa semana eu baixei uma porrada de livros – na minha vida, com certeza eu baixei mais livros e filmes do que comprei.

Esta matéria do Opera Mundi, que é bem curtinha, fala sobre uma editora francesa que publica poucos livros por ano e se mantém viva com seus próprios recursos. Não pede empréstimos bancários, não se endivida, mas não passa de doze publicações anuais – entre elas Alain Badiou e Slavoj Zizek – que cobrem temas subversivos.

Eric Hazan, fundador da La Fabrique

De acordo com Eric Hazan, o fundador da La Fabrique, seus livros “publicam a ordem existente”. São livros que não são publicados com uma estratégia de marketing para atrair um “público-alvo”. Digamos que não há um “público-alvo” no sentido mercadológico da coisa para livros subversivos, afinal, gente subversiva não costuma nascer igual chuchu na cerca, tê-los como um público fiel seria o mesmo que não ter um público. Exatamente por isso as publicações são escassas.

Preço Dos Livros

Eu ganhei alguns vale-presentes de uma livraria, fui até lá e gastei cada tostão deste vales e o que percebi é que cada livro custa em média 40 reais ~ 50 reais. Não é pouca coisa… Na verdade, é muita coisa, entretanto, é o preço médio dos livros, sejam quais forem. A pergunta que ecoa é: como financiar uma editora que tenha um tema bacana se seus livros são caríssimos? Claro que a culpa não é da editora, há custos para produção de cada livro e há custos administrativos, como aluguel do escritório e salário de funcionários não-produtivos. No fim, o preço é realmente nesta faixa.

A opção menos elegante é baixar os livros. As editoras não ganham nada e podem, sem dúvida, falir. Isso significa que aquela editora que publica os livros que gostamos poderá falir por que nós não compramos os livros que gostamos diretamente das livrarias que compram diretamente dela ou por que nós não compramos diretamente da editora.

Não compre! – Manda o Mercado

No fim, o que se percebe é que há um custo fixo que, a priori, torna a compra dos livros inviável e que tem como desdobramento a falência dessas editoras e, por consequência, o fim de editoras que publiquem livros subversivos. A cultura impressa se revela como apossada pelo mercado – o mercado editorial. Qual é a finalidade do mercado: o intercâmbio com base na demanda construída socialmente. O que vender mais será mais produzido e aquilo que não vende não tem chance de reprodução.

Numa sociedade consumista e individualista, pautada numa naturalidade do sistema capitalista, qual será a demanda do mercado? Livros de Bakunin? Creio que não.

Oposição Comunista x Capitalista

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Em conversas cotidianas, conversas com populares, estudantes, trabalhadores especializados ou não, é comum notar, quando se toca no assunto, é claro, que a oposição comunista x capitalista norteia o significado destes dois termos, de maneira que um é aquilo que o diferencia do outro. Como se fossem análogos, mas com sentido inverso. Isso se reflete em comentários como “Se é comunista, por que trabalha?”, “Por que tem casa própria?” e etc. Mas o que eu queria argumentar é justamente que esta oposição não existe.

O Típico Garoto Pera-Com-Leite Que Manda As Gafes Do Primeiro Parágrafo

Categorias De Análise

Se pararmos para pensar, perceberemos que a oposição em que uma sociedade de classes se constrói, pautada no sistema econômico, é entre proletário x capitalista. Sendo este o detentor dos meios de produção e aquele o possuidor somente de sua força de trabalho que, portanto, precisa vender para conseguir sobreviver numa sociedade capitalista. Proletário e capitalista são duas posições possíveis na estrutura econômica capitalista atual – Mas comunista não é; comunista é uma posição possível em uma estrutura política, quero dizer, ser comunista é relacionado à ação política, à ações que manifestamente corroboram com um ideal de sociedade comunista.

Dentro da estrutura política é mais razoável colocar a oposição entre direita x esquerda, estando na esquerda o comunista, anarquismo e etc, e na direita o liberalismo, conservadorismo, social-democracia e etc.

Desta forma, se tentarmos junta tudo em uma análise político-econômica, chegaríamos num sistema de posições possíveis onde Engels seria classificado como capitalista (já que era detentor dos meios de produção) e comunista (por sua vida política). Não é gafe definir Engels como comunista, assim como, se obedecermos o rigor da classificação, também não será gafe coloca-lo na trupe dos capitalistas.

As Possibilidades Da Estrutura

Ao dizer que Engels foi uma capitalista comunista, eu também posso dizer que não é possível ser uma proletário capitalista, por que estas duas posições dependem uma da outra para existir – formam um sistema onde se definem exteriormente, pela diferença com os demais. Dentro do sistema econômico, as classificações lá contidas são excludentes, não se confundem, mas podem mesclar-se com as classificações de outros sistemas, como do político.

O Comunista Capitalista

O que restringe, na verdade, diminui a probabilidade de se encontrar mais capitalistas comunistas é a complexidade da vida social – ela não é fria e racionalizada, não é um grande cálculo – há outras coisas em jogo, há todo um capital simbólico que flui e se acumula em torno de ações de cunho moral, por exemplo. A honra, a hipocrisia, a dignidade, o trabalho (enquanto valor) são forma de acumular ou denegrir capital simbólico. O que não leva um comunista a ter planos futuros de ser o diretor de uma indústria de carvão é a contradição que isso expressa simbolicamente – é o fato de que a responsabilidade do diretor de empresa é reproduzir e segurar um sistema de desigualdade. Ele (o diretor) é uma das autoridade neste aspecto.

Entretanto, não se deve ficar iludido, pois se se está dentro de uma sociedade capitalista, não há como fugir da sua lógica auto-reprodutora. Por isso que somente uma revolução poderosa pode inverter as relações sociais, por que, no cotidiano, elas se reafirmam continuamente.

Bento XVI Vai Embora

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Depois de 7 anos no comando do Vaticano e sendo o líder da religião hegemônica no mundo, Bento XVI decidiu se retirar do trono por debilitação física. Isso não acontecia a quase 600 anos, com Gregório XII sendo o último a tomar esta atitude. A respeito deste Papa, não há muito a ser dito, afinal, ele é o Papa – não é um sujeito, é, antes de tudo, uma posição com atribuições e obrigações. Ele precisa respeitar esta posição para continuar sendo “digno” dela – imaginem um presidente eleito numa democracia iniciar uma sucessão de atitudes despóticas? Pois é, a possibilidade de ser retirado da posição mais alta do executivo é eminente.

Bento VS João Paulo

Dizem que Bento XVI não foi tão bom quanto João Paulo II, mas, vejamos, se “Papa” é uma posição, então, no fim, o sujeito só precisa executar as atribuições desta posição – se for assim, então os dois são a mesma coisa: um em forma de líder carismático o outro em forma de líder mão-de-ferro.

João Paulo II

Ambos foram satanizadores do comunismo – apesar do Vaticano ter os pés no Fascismo, talvez por estratégias de guerra -, ambos demonizaram a homossexualidade e ambos eram extremamente moralistas, mas creio que não se deva imputar a características a eles, como indivíduos. Conforme já disse, isso tudo é um pressuposto para a realização da conduta de Papa. Um Papa é aquele que, mesmo sem a roupa de Papa, ainda tem o “espírito de Papa”.

O Perfil do Profissional

Até mesmo na votação é necessário ter em mente que os candidatos são aqueles que previamente se encaixam no “perfil” do Papa. Perfil é uma palavra curiosa e utilizada para segregar aqueles que não se encaixam em uma estrutura de sujeito socialmente aceita para um determinado emprego: perfil de administrador, perfil de contador, perfil de vendedor, perfil de jornalista e etc e etc.

Mas o “perfil” é uma maneira utilizada para se propagar diversos preconceitos e normatividades inúteis. O perfil envolve muito mais que uma estrutura de ação. É ligado à roupas, ao vocabulário, à cultura, à personalidade e etc e etc. Pensemos, se o perfil de um trabalhador de uma empresa multinacional de contabilidade envolve as características do Belo, Culto e Pragmático, então, sem frescura, fica óbvio que um trabalhador comum da periferia da cidade dificilmente conseguiria o posto de trabalho.

Belo e Culto se relacionam com o Homem Europeu (Homem, não mulher) – o branco bem-educado de roupa social. Não ir à entrevista de roupa social já é um ponto negativo, já é um corte certo na seleção. O pragmatismo é um eufemismo para racionalismo: o que importa é o mercado, ele se justifica.

O Homem Formal

Auto-Justificação

O mercado se auto-justifica no sentido de que categorias de música, programas de televisão, filmes, livros, utensílios do lar e etc não precisam de uma justificativa para existir – eles existe para suprir uma necessidade de uma fatia do mercado (e esta é a justificativa!). Nada mais vazio.

A saída de Bento XVI é a saída de um executor de uma posição fixa. Outro irá substituí-lo. A Justificativa para haver um Papa tão coberto pela mídia e uma mídia tão atenta ao Papa está na importância do Papa para o povo – o Papa é líder da religião hegemônica, oras. Mas esta justificativa é a mesma justificativa do mercado: O Papa tem visibilidade midiática por que há uma fatia do mercado da mídia que quer ver o Papa e irá comprar jornais, revistas, acessará sites e ligará a televisão para ver notícias sobre isto.

Entretanto, novamente, isso não é uma justificação, é um vazio. É estabelecer o mercado como possuidor do que deve e do que não deve ser veiculado, é colocar o mercado na posição de dispositivo de seleção e censura de notícias, de cultura, de política e de moral. A técnica do mercado tem como objetivo o consumo do maior número de pessoas, só isso – não há nada por trás disso e, exatamente por conta disso, ele [o mercado] não deve ser o censor da cultura e da informação em geral.

Yoani Sánchez e sua função social

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Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

Eleições Democráticas?

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As eleições deveriam ser a demonstração máxima da democracia, da virtual possibilidade de expressão livre e popular. Ou seja, ela deveria ser a representação de que vive-se num mundo livre, sem opressão ideológica e onde é possível que haja mudanças drásticas na forma de governar somente com o voto popular. A maioria de votos, desta forma, seria a forma perfeita e neutra de se chegar a um resultado bom em termos gerais. Não se pode esperar um consenso, como Rousseau esperaria de sua sociedade perfeita, mas, como Locke já havia aceitado anteriormente, a maioria deve ser respeitada em sua vontade.

Inevitavelmente haverá um grupo que não concordará com os resultados obtidos, o grupo que votou naquilo que traria outros resultados. Isso já seria uma forma de caracterizar uma ditadura da maioria, entretanto, creio que o ponto interessante é a forma como a democracia se faz neutra, sem ideologia, para depois legitimar os resultados como sendo resultados realmente populares. O voto só é um instrumento democrático no instante em que se admite que é a escolha livre dos indivíduos que decide o futuro de um país, cidade, estado e etc. Mas já sabemos que não há como trabalhar com o pressuposto iluminista de que a sociedade se trata de indivíduos livres, racionais e conscientes de seus atos que pretendem obter o máximo de vantagem com sua racionalidade em cada decisão. Não dá mais pra admitir que os indivíduos simplesmente constroem as suas vidas individualmente, mas se deve perceber que isso ocorre em sociedade, imerso em um sistema cultural, em uma estrutura social, etc e etc.

Isso nos leva a uma conclusão: não há democracia realmente livre e realmente neutra em nenhuma canto do universo. Se todas as sociedade tem sua própria estrutura, seu sistema simbólico, suas regras vigentes, sua moral e, se pensarmos que todas essas estruturas, todo esse sistema social, econômico e político, atuam de forma coercitiva, então a democracia é só a ilusão da decisão. O povo pode até decidir sobre quem ficará no poder, mas não decide se o poder deve se manter da mesma forma que está. Como Marx já denunciava na Ideologia Alemã, a classe dominante detém o domínio de toda a produção intelectual e isso não é difícil de se ver, afinal, se há uma classe com o domínio material em uma sociedade, se a sociedade depende dela para se manter ou, na verdade, se ela faz parte estrutural da sociedade e detém um domínio dos meios de produção, então, haver um domínio intelectual, uma legitimação teórica de seu domínio material é um caminho natural de legitimação de classe.

Não é uma surpresa ver que toda a ciência de uma determinada época em um determinado lugar é apropriada pela classe dominante para sua auto-legitimação. Por que a democracia estaria fora disso? Os pressupostos ontológicos individualistas não se confirmam com a realidade, mas, mesmo assim, ainda se tem uma sociedade pautada neste pressupostos que, desta forma, ainda confia no voto uma real decisão sobre a vida social e política. Isso não é verdade. A própria maneira como as eleições são estruturadas nos leva à observações interessante sobre seu poder de manutenção da ordem, afinal, ela regula um ciclo que se perfaz como um presente eterno. Os ciclos de votação são como as renovações que ocorrem em uma mesma sociedade: a renovação da escolha de nosso futuro, a suposta decisão sobre nossa vida (imutável em seu núcleo, mas mutável em sua superfície), mas que não passa de uma celebração à ordem. É um movimento pseudocíclico espetacular, que se sincroniza com a vida alienada, com o trabalho alienado, já que é um ciclo não-verdadeiro e que tenta suprimir os conflitos constitutivos do sistema em que opera.

Este espetáculo da vida política ainda lança forma de supostamente garantir uma igualdade de visibilidade à todos que participam do processo de votação e eleição. Ou seja, num país neoliberal, um comunista pode tentar ser eleito e tem direto aos comerciais na TV. Mas, vejamos, se toda a sociedade, a educação, as instituições e a própria norma social são estruturados de maneira onde certas forma de viver se reproduzem automaticamente, além de serem reconhecidas e reconhecíveis, por meio da linguagem, sem nem precisar de um esforço de raciocínio muito maior, então, de que vale abrir lugares para os opostos da ordem vigente? Por que dar lugar para comunistas se elegerem? Exatamente por que comunistas nunca vão se eleger e realizar um governo comunista.

Essa porta aberta tem uma função específica, que é demonstrar a justiça dentro de um sistema de eleição democrática – uma justiça não existente, uma justiça que não é possível, mas que é ilusória, que se demonstra no discurso, na aparência, no espetáculo. Exatamente esse tipo de ilusão que aproxima o indivíduo e a população da política, ao mesmo tempo que os afasta, já que a política fica cada vez mais (aparentemente) possível de ser modificada e possível de participação e mudança, ao mesmo tempo em que, exatamente por ser superficialmente de fácil participação, causa a apatia social de não participação em movimentos sociais de mudanças drásticas e não-democráticas, pois, supostamente, não seria necessário nada “violento”, por que a democracia já oferece o lugar para a expressão de todo e qualquer grupo social e político.

Exatamente essa face da democracia que envenena toda forma de agitação social, afinal, não é necessário agitar coisa alguma, agitação é para selvagens do terceiro mundo, coisa que nós estamos deixando de ser – ou pior, agitação é para favelados que botam fogo no ônibus. Democracias civilizadas não precisam disso. Já se nota a aversão pela agitação como uma representação do afastamento da realização das pulsões, sendo bem freudiano, não agitar é manter-se sob as regras sociais, que são, sem sombra de dúvida, inibidoras de comportamentos e pensamentos, logo, o outro que se satisfaz, que parece não ter regras a obedecer, é um objeto de mal-dizer perfeito, ele deve ser regrado instantaneamente, ele deve perder sua selvageria não civilizatória. A democracia é a sociedade dos limpos. A revolução é a atitude dos porcos.

Dentro desta lógica onde, da mesma forma que Freud já havia percebido no Mal-Estar da Civilização, a higiene é um valor social, ela também é utilizada para manter sistematicamente a noção de ordem e livre-escolha civilizada, culta e racional. O voto racional, higiênico, limpo é um discurso muito bem estruturado por trás de toda a apatia extremamente funcional que a própria sociedade democrática trás em seu bojo e que precisa de uma quebra drástica e suja para não se reproduzir ciclicamente ad infinitum.

Qual é o resultado disso? Como Zizek já analisou na Europa, aqueles que conseguem firmar uma posição clara em relação às questões básicas e fundamentais, como em relação ao aborto, direito das mulheres e negros, se mostram como mais aptos a representar a população, que já não acredita nos candidatos “administrativos”. PT Vs PSDB seria um exemplo disto, nas municipais de SP. Russomano é o sujeito que se posiciona – o conservador nato que tem as respostas para os anseios mais básicos das pessoas.

Quando não se responde nada, por pura vontade de não perder votos, ou seja, por pura administração – disputa administrativa, não política – nada pode ser afirmado ou identificado. Já quando um sujeito assim o faz, ele se torna um ponto de cor diferente na massa pontilhada.

Esquadrão Zumbi: A Repressão Extra-Estatal em Stallone Cobra

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Esta é uma seção do ensaio que estou fazendo sobre o filme Stallone Cobra, vejam como está:

O Esquadrão Zumbi

Definir o Esquadrão Zumbi somente como parte da polícia seria um erro. Eles são articulados com a polícia somente por serem a manutenção da ordem vigente, entretanto, eles ultrapassam o próprio aparelho policial. A polícia tem limites, o Esquadrão Zumbi é onipotente. Umas das preocupações do departamento policial em relação à forma de combater ao grupo nazista que aterroriza a cidade de Los Angeles é não ser pego pela corregedoria. Cobretti é sempre evitado por ser violento, por utilizar métodos autoritários para eliminar o inimigo, a recusa por Cobretti é a recusa de uma sanção, é a conformação com os limites impostos pelo aparelho burocrático estatal. Isso nos leva a um ponto: o departamento de polícia, desta forma, não é menos violento, ou menos alucinado que Cobretti, eles só são submissos ao poder coercitivo do Estado. O monopólio da violência é poder do Estado, não do depto de polícia, este, por sua vez, é a ferramenta democraticamente utilizada para exercer a violência.

A chave da submissão dos policiais ao sistema burocrático que autoriza sua ação é o fato do Estado ser democrático e, portanto, nunca agir de maneira arbitrária. O Estado precisa respeitar os direitos individuais que ele mesmo postulou, direitos sagrados numa sociedade moderna liberal.

Desta forma, o Esquadrão Zumbi não está dentro do aparelho estatal, entretanto, sua ação é totalmente voltada para a manutenção da ordem, então não se pode dizer que está fora do Estado. É importe dizer que o Estado, sob a forma de aparelho estatal, é a forma de um determinado grupo, que detém o poder estatal, se utilizar dos aparelhos estatais, como a polícia, a escola e a igreja, para disseminar sua ideologia, a legitimar teoricamente e a garantir pela repressão. Esta perspectiva Althusseriana do Estado nos permite identificar o Esquadrão Zumbi como parte do verdadeiro aparelho repressivo. Enquanto a polícia age sob as normas do Estado, sob a moral liberal e sob os preceitos básicos de respeitos aos direitos humanos, como na cena do roubo ao supermercado, onde a tentativa da negociação é falha, porém, a presença de Cobra, o [chamemos, por enquanto] fora-da-lei, também não é bem-vinda, mesmo sendo a única opção. O Cobra é necessário, mas não apreciado.

Ao ultrapassar os limites do sistema para aplicar a lei ou, até mesmo, para realizar o ato socialmente aprovado, como matar o ladrão, Cobra (e todo o Esquadrão Zumbi) agem como um excesso do sistema. Ele não deixam de ser parte integrante dos aparelhos estatais, porém, sua função é ser o aparelho informal. Ele é a nuvem coercitiva da sociedade, é o que garante a sanção social. Por outro lado, ele não sofre sanções, não liga para nenhuma tipo de corte que possam fazer em relação ao seu poder. O Esquadrão Zumbi é um excesso permitido e, ao mesmo tempo, envergonhador do sistema vigente. Mas não é qualquer um que pode fazer parte deste grupo necessário, é preciso ter certas características básicas.

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