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Arquivo da categoria: Ideologia

Ideologia Mediando A Hierarquia

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Um plano linear de carreira que nos faz esquecer que cada legenda representa uma posição na estrutura de trabalho e não você, indivíduo trabalhador. Portanto, a posição fica, mesmo após você deixá-la.

Há uma coisa que eu via muito com meus antigos companheiros da faculdade – eu fazia um curso voltado totalmente para a indústria e a indústria é, obviamente, marcada por hierarquias muito bem formalizadas e claras – eles sempre reclamavam da posição que ocupavam na hierarquia (todos eramos trabalhadores das primeiras linhas da hierarquia, assistentes administrativos, trabalhadores de linha de produção, manutenção, assistentes de laboratório e etc).

Reclamar da posição que se ocupa é um direito muito legítimo. Realmente, não há nada pior do que realizar trabalho robotizado ou burocrático incessantemente e, ainda por cima, ser subjugado e dominado por um chefe que, no fim das contas, não tem esse direito por natureza, como parece ser. Mas o que me deixava receoso era o final da reclamação: no fim, sempre havia a esperança, a utopia, o plano futuro da situação ideal de trabalho; este plano era tornar-se um chefe.

Manutenção da Hierarquia

Uma das funções da ideologia é inculcar estruturas hierárquicas de forma que pareçam naturais, imutáveis. Essas estruturas retiram o conteúdo humano da relação de trabalho e faz se tornar uma relação de trabalho mediada por uma coisa, por uma imagem, ou seja, por uma estrutura opressora imutável.

É tudo questão de escolha?

Desta forma, o antagonismo é disfarçado, fantasiado, e as relações de dominação e exploração são substituídas por relações morais – são substituídas pelos deveres do empregado e do empregador, e são mediadas por uma estrutura de dominação naturalizada, conforme o parágrafo anterior. A ética no trabalho é, muitas vezes, uma tentativa de docilizar o trabalhador, colocando contra ele uma série de armas que ele próprio poderia utilizar, sejam elas consideradas leais ou não, como as informações industriais secretas de uma empresa, além de homogeneizar o corpo de trabalhadores, impondo maneiras de se vestir, de se portar e de se apresentar.

São essas estruturas inconscientes (para usar um termo da sociologia pós-estruturalista) que mediam as relações entre os indivíduos (como a hierarquia do trabalho), que não são pensadas nem discutidas, mas, em última instância, são formadoras da realidade, que Guy Debord chamaria de espetáculo. Esta ideologia que está na espreita de qualquer relação e que não consegue ser conceituada, só designada, que só suscita imagem, mas nunca significado, é esta terrível dominação que não dá chance de defesa que podemos chamar de espetáculo.

Espetáculo É Cotidiano

Guy Debord

Eu creio que isso não precisa ser aplicado só ao trabalho, mas a qualquer grupo. Em um grupo social qualquer, por exemplo, vemos que há regras implícitas no seu funcionamento. Essas regras delineiam um possível líder (declarado ou não). Quando um indivíduo do grupo não consegue incorporar as regras e recebe inúmeras sanções (como abuso moral feito pelo líder), ele passa a racionalizar essas regras, a reproduzi-las conscientemente, mas sem consciência de que se trata de uma reprodução. O que isso significa? Que o indivíduo vê as regras, como num livro, mas elas não foram inculcadas.

Este mesmo indivíduo acaba, por sua vez, reproduzindo as regras que o oprimem e, portanto, oprimindo, também, os outros indivíduos. É óbvio que não se deve colocar toda a carga de culpa naqueles que reproduzem as regras do grupo, afinal, obedecê-las faz parte de estar no grupo. Mas quando o oprimido não percebe sua opressão como tal, aí deve-se tomar cuidado.

É isso que acontece com o não-adaptado que precisa seguir às regras como se estivesse fora de sua posição. É quase como uma evasão: ele se afasta de si e se olha por fora, externamente, depois, quando volta a si, faz uma imitação de si. Não é ele mesmo, mas a tentativa de ser aquilo que as atribuições do grupo o obrigam tomar.

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O Esforço Em Ser Patológico

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No dia da apresentação do curso que me matriculei, isso há um ano, o professor falou sobre as possibilidades de um especialista em sócio-psicologia e apontou uma contradição na forma de perceber as coisas atualmente: o indivíduo como o único responsável por sua felicidade, como se vivesse sozinho no mundo (esta visão é propagada em grande escala por livros e palestrante de auto-ajuda empresarial pseudo-existencial); e o indivíduo como nunca responsável por si, já que a biologia explica o por que de determinadas ações como exterior à consciência do agente: até mesmo o roubo pode ser justificado por algum gene em específico. Basta citar que não é visto com estranhamento em roda de conversa nenhuma.

Depois de ver tantas “lutas de doença” – vocês sabem, quando duas pessoas, normalmente idosos, começam a fazer uma disputa verbal sobre quem é mais doente. É legal que, normalmente, eles nem sabem que estão disputando uma posição superior na hierarquia, com esta disputa e que o vencedor da disputa, no fim, é o que está mais perto de comer capim – a gente começa a pensar se ser mais doente não teria uma função latente para firmar o sujeito em uma posição de “vida sofrida”, que, por sua vez, justifica toda uma vida de não satisfação das exigências do super-ego e da inalcançabilidade do Ideal de Eu.

Aí, quando qualquer comportamento é patologizado, já podemos ter certeza que a ordem vigente está se hegemonizando: está criando argumentos para se firmar como verdade imutável, afinal, não se muda uma determinação genética, não se culpa um doente e etc e etc. Se não se muda a genética, então qualquer comportamento padrão atual, qualquer um que manifeste alguma relação de dominação, como aqueles que reproduzem o racismo, são colocados como uma “coisa” imutável, que está na entranhas do organismo biológico – a ação pára de ter um significado social e somente sua “neutra” (bote muitas aspas) e fria interpretação biológica dita as regras.

Yoani Sánchez e sua função social

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Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

Malafaia na Gabi é Pura Ciência

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Ontem passou a entrevista do Pastor Silas Malafaia no De Frente Com Gabi, que desde antes de começar já tinha uma certa polêmica por destacar o momento em que Malafaia diz “amar gay como ama bandidos”. Durante a entrevista, o pastor cheio de ênfase dizia ter planos para processar a Forbes, dizia que sua imagem estava manchada, que poderiam achar que sua fortuna era fruto da manipulação de fiéis e etc. Ok. Veremos.

Durante a entrevista a própria Marília Gabriela se enfezou com o cara, coisa que eu não achei muito legal, mas completamente compreensível. Na minha humilde opinião, ela deveria somente perguntar e deixar Malafaia se enrola com seu discurso conservador.

Entretanto, o ponto alto foi sobre a homossexualidade – foi neste momento em que mais besteiras foram faladas: desde fundamentos para afirmar uma “ditadura gay” até teoria de gênero, foi tudo sendo jogado pela guela. Para explicar por que homossexualidade não era natural, ele citou algo que seria uma teoria genética de gênero… Além de citar as estatísticas de que 46% dos homossexuais foram abusados quando criança. A partir desta concepção se pode concluir que Homem e Mulher coincidem com Pênis e Vagina e que, além disso, são determinados geneticamente. Uma ligação não muito segura ou determinística, já que ser homem ou ser mulher é muito mais que ter um determinado órgão reprodutor.

O interessante é que, para ele, a lei vale igual para todos – isso quer dizer: uma lei contra violência deve valer para homo ou heteros ou quem quer que seja, não importa. É muito bonito dizer isto quando se é extremamente conservador e normatizado. A lei não funciona assim por que ela também é contextualizada. Ela também depende daquilo que se tem por “todos”. Quem são “todos os cidadãos cobertos pela lei”? Homossexuais não entram neste grupo, por isso há uma luta imensa sobre direitos gays.

Abaixo a entrevista inteira:

A Opinião Pública Sempre Negativa Sobre Os Transportes Públicos

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Após andar de trem e metrô junto com toda a população, Serra e Alckmin escutaram poucas e boas dos populares que, por lá, passavam. Não tem como não xingar o candidato, mas as críticas à superlotação dos vagões de trem e metrô nos horários de pico foram mais incisivas, tanto que despertou uma pequena revolta por parte de Serra: “É natural as pessoas quererem mais trem e mais metrô mesmo depois de todo o nosso investimento.”

Ele realmente acha que o serviço que fez em relação aos metrôs deve ser analisado como uma bola dentro, não como uma obrigação mínima de qualquer gestor de uma cidade enorme e superpopulosa como São Paulo. É como se se esperasse que a população tivesse absorvido a organização do transporte público com superlotação como se fosse normal, natural, coisa de cidade grande, e todas as melhoras feitas por Serra fossem excessos de sua gestão, não o prejuízo sendo alcançado e deixado pra trás de pouco em pouco (deixar pra trás é uma coisa difícil de acontecer enquanto o próprio prejuízo tiver uma função essencial na cidade de São Paulo – como diminuir custos públicos e aumentar as possibilidade da indústria privada e da organização privada sobre os serviços públicos, supostamente retirando tal serviço das mãos burocráticas de uma instituição estatal, além de incrustar nos usuários a vida “sofrida” como uma vida natural, como algo que é e que sempre vai ser. A desorganização nos transportes públicos educa o trabalhador e o estudante, mas os educa à apatia e servidão).

As críticas continuam por que o trasporte de uma cidade grande como São Paulo não pode ter erros regulares e cotidianos, como a lotação nos horários de pico. A tentativa de saudar as melhorias de sua gestão é uma tentativa de deslocar o centro da questão: o transporte público DEVE atender ao povo perfeitamente e caso não faça, então não é eficiente.

Acostumados à podridão de várias gestões e ao empobrecimento do centro da cidade, todos os problemas estruturais de São Paulo são recolocados em outras categorias, pois não são mais problemas, são partes constituintes da cidade e toda vez que são melhorados, o ato da melhora deve ser considerado um excesso não obrigatório do partido gestor.

Desta forma a imagem é colocada como real e a realidade é afastada da percepção. Se retira o contexto da ação. A melhoria dos trens não é analisada junto às constantes crises que o trasporte público atravessa e ao colapso geral em que se localiza, demonstrado pelas grandes lotações em horários de pico.

Duas Ações Diretas Da Globo Perante As Eleições Municipais de SP

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Novamente ficou fácil de ver a posição política do aparelho midiático – não como um todo, mas sim em sua maior expressão, que é a rede Globo, por dois motivos: a proposta de cobertura de eleição na cidade de São Paulo com foco somente nos dois primeiros colocados das pesquisas (José Serra – PSDB e Celso Russomano – PRB) e a inflexibilidade em relação aos prazos para apresentação de propaganda política, que o PT entregou 9 dias atrasado do prazo determinado.

Em relação à proposta de cobertura somente dos dois primeiros colocados, não há muito o que dizer: ambos são farinha do mesmo saco (não que o terceiro não tenha seu punhado de farinha espalhado pelo corpo, mas ele é uma oposição virtual à Serra). É muito confortável e conveniente promover uma disputa democrática valorizando os dois candidatos mais bem colocados quando ambos não representam nada contra os interesses que a emissora se alinha.

Desta forma, podemos ver como a emissora trabalha realizando uma “censura” no conteúdo apresentado por seu monopólio. Na verdade, o fato da Globo ser a emissora líder no país lhe dá um monopólio supostamente não-monopolista, mas que, na prática, ainda é monopólio. Ela ainda é centro de poder da informação. Ainda tem o poder de expressar aquilo que é supostamente importante de ser expressado. A censura estaria, por exemplo, em não noticiar as greves na federais em programas de grande audiência. É uma “livre-escolha”, na verdade, pautada no poder de apresentar a notícia que quiser, por ser uma empresa privada.

Isso só já demonstra a pseudo-neutralidade da mídia que, por ter interesses, já perde qualquer imparcialidade. Eu creio que é interessante que, conforme Debord diz na Sociedade do Espetáculo ao criticar a ideologia revolucionária, onde a burocracia se esconde como classe e tem como característica não se fazer existente, a própria mídia se faz como neutra em relação às notícias e se faz como um registro do real, puro e não-ideológico. É uma força para se manter ainda como uma cobertura imparcial do real – que, na verdade, é o ideológico.

A segunda artimanha é incrivelmente legítima. Isso mesmo, legítima. Essa legitimidade que salta aos olhos, pois não é um problema prático. Todas as outras emissoras aceitaram a propaganda fora do prazo, seja lá qual for o motivo de estarem fora do prazo, mas a rede Globo manteve-se firme à lei. O que não seria novidade, já que essa lei que a emissora se mantém firme, é uma lei que a convém. Pra que fazer “caridade” quando o mendigo é alguém que detestas? Digo, qual a razão de dar essa colher de chá ao PT?

Nessas horas a democracia se mostra como pressupostos de lei, não como prática democrática.

O Uso do Tempo-Livre

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A mais supérflua banalidade reiterada pelos sociólogos de esquerda recentemente é que o lazer se tornou um dos pontos principais de avanço na sociedade capitalista. Esta banalidade é a base de incontáveis debates a favor ou contra a importância de uma reforma nos padrões de vivência, ou sobre a participação dos trabalhadores nos valores de vida que prevalecem em nossa sociedade e que eles, os trabalhadores, estão se tornando cada vez mais integrados. O que é contra-revolucionário em toda essa verborragia é que ela equaciona tempo-livre com passividade de consumo, como se o tempo livre fosse usado exclusivamente para se tornar cada vez mais um espectador em tempo integral dos absurdos vigentes. As ilusões manifestadas em um ponderado simpósio em particular, deste sociólogos, foram sonoramente refutadas em dois artigos na Socialisme ou Barbarie #27. No primeiro, Pierre Canjuers escreveu que: “Enquanto o moderno capitalismo constantemente cria novas necessidades justamente para aumentar o consumo, a insatisfação das pessoas continua a mesma de sempre. As suas vidas já não têm mais nenhum significado além de uma corrida ao consumo e esse consumo é utilizado como legitimação do aumento da frustração de qualquer atividade criativa de genuína iniciativa humana – ao ponto das pessoas não conseguirem enxergar essa ausência de significado como um ponto importante.” No segundo artigo, Jean Delvaux percebeu que o problema do consumo não substituiu a distinção qualitativa entre o pobre e o rico (a cada cinco trabalhadores, quatro ainda precisam se esforçar para conseguir pagar suas despesas). De modo mais significativo, ele também apontou que não há razão para se preocupar se o proletariado participa ou não dos bens de valores cultural e social vigentes, pois “nenhum deste valores existem.” e ele adicionou o ponto essencial que a cultura presente, “cada vez mais separada da sociedade e da vida das pessoas (artistas pintando para outros artistas, romancistas escrevendo romances que serão lidas por outros romancistas sobre a impossibilidade de se escrever um romance) – esta cultura, na medida em que tem alguma originalidade, ela não é nada mais que uma auto-denúncia: a denúncia desta sociedade e um ódio contra a cultura em si.”

O vazio do lazer, deriva do vazio da vida na sociedade atual, e não pode ser preenchido pelo escopo desta sociedade. O vazio é simultaneamente expresso e ocultado pelo espetáculo cultural como um todo em três formas básicas.

A “clássica” forma de cultura continua a existir, seja produzida em sua forma pura ou como em imitações recentes (Teatro Trágico, por exemplo, ou a polidez burguesa). Em segundo lugar, há as inúmeras representações espetaculares degradadas em que, através delas, a sociedade vigente se apresenta ao explorado de forma em que consegue se mistificar (esportes televiosionados, virtualmente todos os filmes e romances, publicidade, o status simbólico social do automóvel). Por fim, há uma negação de vanguarda do espetáculo, uma negação que é frequentemente incosnciente de suas bases, mas que é o único aspecto “original” da atual cultura. O “ódio contra a cultura” expresso por suas formas últimas como a mesma indiferença que os proletários como classe têm para qualquer forma da cultura espetacular. Até o espetáculo ser negado, qualquer audiência que assista esta negação não poderá ser distinguida de toda a audiência suspeita e infeliz que consiste em artistas e intelectuais isolados. Quando o proletariado revolucionário se manifestar, não será como uma nova audiência para um novo espetáculo, mas como pessoas participando ativamente de todos os aspectos de suas vidas.

Não há nenhum problema revolucionário em relação ao lazer – de um vazio a ser preenchido – mas sim um problema de tempo-livre, como tempo que pode ser livremente utilizado pelo indivíduo e pela sociedade como um todo. Como já dissemos: “Não é possível haver nenhum uso do tempo-livre, ou uso livre do tempo, até que possuamos as modernas ferramentas para a construção do cotidiano. O uso destas ferramentas marcaria um salto da arte revolucionário utópica para a arte revolucionário experimental” (Debord, “Theses on Cultural Revolution,” Internationale Situationniste #1 ). A superação do lazer pelo desenvolvimento de uma atividade de livre-criação e consumo só pode ser relacionado com a dissolução das artes tradicionais – em sua transformação à modos superiores de ação que não recuse a arte ou tente aboli-la, mas sim que tente preenchê-la completamente. Por este caminho, a arte seria substituída, conservada e superada com uma atividade mais complexa. Seus elementos tradicionais poderiam continuar parcialmente presentes, mas transformados, integrados e modificados pela totalidade.

Movimentos anteriores de vanguarda se apresentavam declarando a excelência de seus métodos e princípios, que seriam imediatamente tidos como a base de seus trabalhos. A IS [Internacional Situacionista] é a primeira organização artística a se basear na completa e radical inadequação à todas as formas permissíveis de trabalho artístico; e que sua significância, sucesso ou falha, só serão possíveis de verificar com a práxis revolucionária de seu tempo.

IS – 1960

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Traduzido do texto em inglês, aqui.

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