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Arquivo da categoria: Trabalho

Comprar Livros – Sim ou Não?

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Hoje eu fui comprar livros. Comprei 4 livros. Essa semana eu baixei uma porrada de livros – na minha vida, com certeza eu baixei mais livros e filmes do que comprei.

Esta matéria do Opera Mundi, que é bem curtinha, fala sobre uma editora francesa que publica poucos livros por ano e se mantém viva com seus próprios recursos. Não pede empréstimos bancários, não se endivida, mas não passa de doze publicações anuais – entre elas Alain Badiou e Slavoj Zizek – que cobrem temas subversivos.

Eric Hazan, fundador da La Fabrique

De acordo com Eric Hazan, o fundador da La Fabrique, seus livros “publicam a ordem existente”. São livros que não são publicados com uma estratégia de marketing para atrair um “público-alvo”. Digamos que não há um “público-alvo” no sentido mercadológico da coisa para livros subversivos, afinal, gente subversiva não costuma nascer igual chuchu na cerca, tê-los como um público fiel seria o mesmo que não ter um público. Exatamente por isso as publicações são escassas.

Preço Dos Livros

Eu ganhei alguns vale-presentes de uma livraria, fui até lá e gastei cada tostão deste vales e o que percebi é que cada livro custa em média 40 reais ~ 50 reais. Não é pouca coisa… Na verdade, é muita coisa, entretanto, é o preço médio dos livros, sejam quais forem. A pergunta que ecoa é: como financiar uma editora que tenha um tema bacana se seus livros são caríssimos? Claro que a culpa não é da editora, há custos para produção de cada livro e há custos administrativos, como aluguel do escritório e salário de funcionários não-produtivos. No fim, o preço é realmente nesta faixa.

A opção menos elegante é baixar os livros. As editoras não ganham nada e podem, sem dúvida, falir. Isso significa que aquela editora que publica os livros que gostamos poderá falir por que nós não compramos os livros que gostamos diretamente das livrarias que compram diretamente dela ou por que nós não compramos diretamente da editora.

Não compre! – Manda o Mercado

No fim, o que se percebe é que há um custo fixo que, a priori, torna a compra dos livros inviável e que tem como desdobramento a falência dessas editoras e, por consequência, o fim de editoras que publiquem livros subversivos. A cultura impressa se revela como apossada pelo mercado – o mercado editorial. Qual é a finalidade do mercado: o intercâmbio com base na demanda construída socialmente. O que vender mais será mais produzido e aquilo que não vende não tem chance de reprodução.

Numa sociedade consumista e individualista, pautada numa naturalidade do sistema capitalista, qual será a demanda do mercado? Livros de Bakunin? Creio que não.

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Ideologia Mediando A Hierarquia

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Um plano linear de carreira que nos faz esquecer que cada legenda representa uma posição na estrutura de trabalho e não você, indivíduo trabalhador. Portanto, a posição fica, mesmo após você deixá-la.

Há uma coisa que eu via muito com meus antigos companheiros da faculdade – eu fazia um curso voltado totalmente para a indústria e a indústria é, obviamente, marcada por hierarquias muito bem formalizadas e claras – eles sempre reclamavam da posição que ocupavam na hierarquia (todos eramos trabalhadores das primeiras linhas da hierarquia, assistentes administrativos, trabalhadores de linha de produção, manutenção, assistentes de laboratório e etc).

Reclamar da posição que se ocupa é um direito muito legítimo. Realmente, não há nada pior do que realizar trabalho robotizado ou burocrático incessantemente e, ainda por cima, ser subjugado e dominado por um chefe que, no fim das contas, não tem esse direito por natureza, como parece ser. Mas o que me deixava receoso era o final da reclamação: no fim, sempre havia a esperança, a utopia, o plano futuro da situação ideal de trabalho; este plano era tornar-se um chefe.

Manutenção da Hierarquia

Uma das funções da ideologia é inculcar estruturas hierárquicas de forma que pareçam naturais, imutáveis. Essas estruturas retiram o conteúdo humano da relação de trabalho e faz se tornar uma relação de trabalho mediada por uma coisa, por uma imagem, ou seja, por uma estrutura opressora imutável.

É tudo questão de escolha?

Desta forma, o antagonismo é disfarçado, fantasiado, e as relações de dominação e exploração são substituídas por relações morais – são substituídas pelos deveres do empregado e do empregador, e são mediadas por uma estrutura de dominação naturalizada, conforme o parágrafo anterior. A ética no trabalho é, muitas vezes, uma tentativa de docilizar o trabalhador, colocando contra ele uma série de armas que ele próprio poderia utilizar, sejam elas consideradas leais ou não, como as informações industriais secretas de uma empresa, além de homogeneizar o corpo de trabalhadores, impondo maneiras de se vestir, de se portar e de se apresentar.

São essas estruturas inconscientes (para usar um termo da sociologia pós-estruturalista) que mediam as relações entre os indivíduos (como a hierarquia do trabalho), que não são pensadas nem discutidas, mas, em última instância, são formadoras da realidade, que Guy Debord chamaria de espetáculo. Esta ideologia que está na espreita de qualquer relação e que não consegue ser conceituada, só designada, que só suscita imagem, mas nunca significado, é esta terrível dominação que não dá chance de defesa que podemos chamar de espetáculo.

Espetáculo É Cotidiano

Guy Debord

Eu creio que isso não precisa ser aplicado só ao trabalho, mas a qualquer grupo. Em um grupo social qualquer, por exemplo, vemos que há regras implícitas no seu funcionamento. Essas regras delineiam um possível líder (declarado ou não). Quando um indivíduo do grupo não consegue incorporar as regras e recebe inúmeras sanções (como abuso moral feito pelo líder), ele passa a racionalizar essas regras, a reproduzi-las conscientemente, mas sem consciência de que se trata de uma reprodução. O que isso significa? Que o indivíduo vê as regras, como num livro, mas elas não foram inculcadas.

Este mesmo indivíduo acaba, por sua vez, reproduzindo as regras que o oprimem e, portanto, oprimindo, também, os outros indivíduos. É óbvio que não se deve colocar toda a carga de culpa naqueles que reproduzem as regras do grupo, afinal, obedecê-las faz parte de estar no grupo. Mas quando o oprimido não percebe sua opressão como tal, aí deve-se tomar cuidado.

É isso que acontece com o não-adaptado que precisa seguir às regras como se estivesse fora de sua posição. É quase como uma evasão: ele se afasta de si e se olha por fora, externamente, depois, quando volta a si, faz uma imitação de si. Não é ele mesmo, mas a tentativa de ser aquilo que as atribuições do grupo o obrigam tomar.

Yoani Sánchez e sua função social

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Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

Certas Formas Legítimas Do Saber Cotidiano

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Existe uma oposição muito fácil de se perceber na música e na criação musical: a técnica/conhecimento teórico X Feeling/Liberdade de Criação.

Como se a técnica e o conhecimento teórico fosse “travador” da criatividade, que, por sua vez, só seria livre para se expressar sem as regras da teoria musical e o feeling só seria realmente mostrado sem o uso da técnica, facilitadora de demonstrações inúteis. Isso parece ser verdade num primeiro momento, afinal, a regra é aquilo que delimita uma lógica e, portanto, é aquilo que delimita caminhos corretos e caminhos errados, caminhos possíveis e caminhos impossíveis.

Mas Caudwell já examinava que a liberdade só existe como controle das determinações da natureza, como conhecimento da lógica do sistema e, portanto, não há como definir liberdade em uma jarra vazia de conteúdo – não há como exercer a liberdade quando não se tem o saber dos símbolos socialmente construídos, não se exerce a liberdade sem se ter aquilo que se exercer. Não dá pra se alimentar de um prato sem comida.

Em suma só se pode dizer que há liberdade de criação quando há conhecimento daquilo que se cria, já que a liberdade só consegue ser exercida dentro da esfera de possibilidades de se exercê-la e essa esfera de possibilidades só cresce com a acumulação de conhecimento acerca daquilo que se pretende dominar. Logo, não ter conhecimento sobre música não dá mais liberdade, mas, pelo contrário, limita ao básico já aprendido, ao básico já incorporado.

Se não se estuda sobre um assunto, aquilo que dá base para articular algo a respeito do assunto é um arcabouço geral de conhecimento: o senso comum. Todos sabem que o senso comum não é um baú muito confiável de conhecimento e muito menos completo. Logo, as categorias de percepção que são pautadas no senso comum, são as categorias que são pautadas em um conhecimento e em uma forma de classificação já dada (ideológica por excelência, já que aquilo que é “dado” – evidente por si – é produto óbvio de uma relação de dominação de um grupo dominante sobre grupos dominados).

A faculdade da vida não passa de senso comum.

Talvez o mesmo possa ser aplicado à oposição Leigo X Intelectual, que é estruturado em oposição associadas, como Humilde X Arrogante e Vida Interessada X Vida Desinteressada. O leigo, associado ao sujeito que tem como conhecimento aquilo que a vida prática lhe deu, que “se vira” dessa forma e que é, por conta disso, humilde em relação à vida – ao contrário do intelectual que tem a pretensão de explicar o mundo, assumindo uma posição de arrogância, onde deslegitima a visão do leigo.

Isso me parece uma dupla dominação.

Primeiramente ela justifica e pedestaliza a posição de leigo – a ignorância é legitimada, o senso comum é legitimado. Segunda que, a maioria dos intelectuais que têm esse injusto papel de, de alguma forma, quebrar o senso comum, são também àqueles que querem quebrar a ordem vigente, logo, classificá-los como arrogantes e distanciá-los de qualquer validação popular é uma ótima maneira de anular seus discursos.

Eleições Democráticas?

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As eleições deveriam ser a demonstração máxima da democracia, da virtual possibilidade de expressão livre e popular. Ou seja, ela deveria ser a representação de que vive-se num mundo livre, sem opressão ideológica e onde é possível que haja mudanças drásticas na forma de governar somente com o voto popular. A maioria de votos, desta forma, seria a forma perfeita e neutra de se chegar a um resultado bom em termos gerais. Não se pode esperar um consenso, como Rousseau esperaria de sua sociedade perfeita, mas, como Locke já havia aceitado anteriormente, a maioria deve ser respeitada em sua vontade.

Inevitavelmente haverá um grupo que não concordará com os resultados obtidos, o grupo que votou naquilo que traria outros resultados. Isso já seria uma forma de caracterizar uma ditadura da maioria, entretanto, creio que o ponto interessante é a forma como a democracia se faz neutra, sem ideologia, para depois legitimar os resultados como sendo resultados realmente populares. O voto só é um instrumento democrático no instante em que se admite que é a escolha livre dos indivíduos que decide o futuro de um país, cidade, estado e etc. Mas já sabemos que não há como trabalhar com o pressuposto iluminista de que a sociedade se trata de indivíduos livres, racionais e conscientes de seus atos que pretendem obter o máximo de vantagem com sua racionalidade em cada decisão. Não dá mais pra admitir que os indivíduos simplesmente constroem as suas vidas individualmente, mas se deve perceber que isso ocorre em sociedade, imerso em um sistema cultural, em uma estrutura social, etc e etc.

Isso nos leva a uma conclusão: não há democracia realmente livre e realmente neutra em nenhuma canto do universo. Se todas as sociedade tem sua própria estrutura, seu sistema simbólico, suas regras vigentes, sua moral e, se pensarmos que todas essas estruturas, todo esse sistema social, econômico e político, atuam de forma coercitiva, então a democracia é só a ilusão da decisão. O povo pode até decidir sobre quem ficará no poder, mas não decide se o poder deve se manter da mesma forma que está. Como Marx já denunciava na Ideologia Alemã, a classe dominante detém o domínio de toda a produção intelectual e isso não é difícil de se ver, afinal, se há uma classe com o domínio material em uma sociedade, se a sociedade depende dela para se manter ou, na verdade, se ela faz parte estrutural da sociedade e detém um domínio dos meios de produção, então, haver um domínio intelectual, uma legitimação teórica de seu domínio material é um caminho natural de legitimação de classe.

Não é uma surpresa ver que toda a ciência de uma determinada época em um determinado lugar é apropriada pela classe dominante para sua auto-legitimação. Por que a democracia estaria fora disso? Os pressupostos ontológicos individualistas não se confirmam com a realidade, mas, mesmo assim, ainda se tem uma sociedade pautada neste pressupostos que, desta forma, ainda confia no voto uma real decisão sobre a vida social e política. Isso não é verdade. A própria maneira como as eleições são estruturadas nos leva à observações interessante sobre seu poder de manutenção da ordem, afinal, ela regula um ciclo que se perfaz como um presente eterno. Os ciclos de votação são como as renovações que ocorrem em uma mesma sociedade: a renovação da escolha de nosso futuro, a suposta decisão sobre nossa vida (imutável em seu núcleo, mas mutável em sua superfície), mas que não passa de uma celebração à ordem. É um movimento pseudocíclico espetacular, que se sincroniza com a vida alienada, com o trabalho alienado, já que é um ciclo não-verdadeiro e que tenta suprimir os conflitos constitutivos do sistema em que opera.

Este espetáculo da vida política ainda lança forma de supostamente garantir uma igualdade de visibilidade à todos que participam do processo de votação e eleição. Ou seja, num país neoliberal, um comunista pode tentar ser eleito e tem direto aos comerciais na TV. Mas, vejamos, se toda a sociedade, a educação, as instituições e a própria norma social são estruturados de maneira onde certas forma de viver se reproduzem automaticamente, além de serem reconhecidas e reconhecíveis, por meio da linguagem, sem nem precisar de um esforço de raciocínio muito maior, então, de que vale abrir lugares para os opostos da ordem vigente? Por que dar lugar para comunistas se elegerem? Exatamente por que comunistas nunca vão se eleger e realizar um governo comunista.

Essa porta aberta tem uma função específica, que é demonstrar a justiça dentro de um sistema de eleição democrática – uma justiça não existente, uma justiça que não é possível, mas que é ilusória, que se demonstra no discurso, na aparência, no espetáculo. Exatamente esse tipo de ilusão que aproxima o indivíduo e a população da política, ao mesmo tempo que os afasta, já que a política fica cada vez mais (aparentemente) possível de ser modificada e possível de participação e mudança, ao mesmo tempo em que, exatamente por ser superficialmente de fácil participação, causa a apatia social de não participação em movimentos sociais de mudanças drásticas e não-democráticas, pois, supostamente, não seria necessário nada “violento”, por que a democracia já oferece o lugar para a expressão de todo e qualquer grupo social e político.

Exatamente essa face da democracia que envenena toda forma de agitação social, afinal, não é necessário agitar coisa alguma, agitação é para selvagens do terceiro mundo, coisa que nós estamos deixando de ser – ou pior, agitação é para favelados que botam fogo no ônibus. Democracias civilizadas não precisam disso. Já se nota a aversão pela agitação como uma representação do afastamento da realização das pulsões, sendo bem freudiano, não agitar é manter-se sob as regras sociais, que são, sem sombra de dúvida, inibidoras de comportamentos e pensamentos, logo, o outro que se satisfaz, que parece não ter regras a obedecer, é um objeto de mal-dizer perfeito, ele deve ser regrado instantaneamente, ele deve perder sua selvageria não civilizatória. A democracia é a sociedade dos limpos. A revolução é a atitude dos porcos.

Dentro desta lógica onde, da mesma forma que Freud já havia percebido no Mal-Estar da Civilização, a higiene é um valor social, ela também é utilizada para manter sistematicamente a noção de ordem e livre-escolha civilizada, culta e racional. O voto racional, higiênico, limpo é um discurso muito bem estruturado por trás de toda a apatia extremamente funcional que a própria sociedade democrática trás em seu bojo e que precisa de uma quebra drástica e suja para não se reproduzir ciclicamente ad infinitum.

Qual é o resultado disso? Como Zizek já analisou na Europa, aqueles que conseguem firmar uma posição clara em relação às questões básicas e fundamentais, como em relação ao aborto, direito das mulheres e negros, se mostram como mais aptos a representar a população, que já não acredita nos candidatos “administrativos”. PT Vs PSDB seria um exemplo disto, nas municipais de SP. Russomano é o sujeito que se posiciona – o conservador nato que tem as respostas para os anseios mais básicos das pessoas.

Quando não se responde nada, por pura vontade de não perder votos, ou seja, por pura administração – disputa administrativa, não política – nada pode ser afirmado ou identificado. Já quando um sujeito assim o faz, ele se torna um ponto de cor diferente na massa pontilhada.

A Opinião Pública Sempre Negativa Sobre Os Transportes Públicos

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Após andar de trem e metrô junto com toda a população, Serra e Alckmin escutaram poucas e boas dos populares que, por lá, passavam. Não tem como não xingar o candidato, mas as críticas à superlotação dos vagões de trem e metrô nos horários de pico foram mais incisivas, tanto que despertou uma pequena revolta por parte de Serra: “É natural as pessoas quererem mais trem e mais metrô mesmo depois de todo o nosso investimento.”

Ele realmente acha que o serviço que fez em relação aos metrôs deve ser analisado como uma bola dentro, não como uma obrigação mínima de qualquer gestor de uma cidade enorme e superpopulosa como São Paulo. É como se se esperasse que a população tivesse absorvido a organização do transporte público com superlotação como se fosse normal, natural, coisa de cidade grande, e todas as melhoras feitas por Serra fossem excessos de sua gestão, não o prejuízo sendo alcançado e deixado pra trás de pouco em pouco (deixar pra trás é uma coisa difícil de acontecer enquanto o próprio prejuízo tiver uma função essencial na cidade de São Paulo – como diminuir custos públicos e aumentar as possibilidade da indústria privada e da organização privada sobre os serviços públicos, supostamente retirando tal serviço das mãos burocráticas de uma instituição estatal, além de incrustar nos usuários a vida “sofrida” como uma vida natural, como algo que é e que sempre vai ser. A desorganização nos transportes públicos educa o trabalhador e o estudante, mas os educa à apatia e servidão).

As críticas continuam por que o trasporte de uma cidade grande como São Paulo não pode ter erros regulares e cotidianos, como a lotação nos horários de pico. A tentativa de saudar as melhorias de sua gestão é uma tentativa de deslocar o centro da questão: o transporte público DEVE atender ao povo perfeitamente e caso não faça, então não é eficiente.

Acostumados à podridão de várias gestões e ao empobrecimento do centro da cidade, todos os problemas estruturais de São Paulo são recolocados em outras categorias, pois não são mais problemas, são partes constituintes da cidade e toda vez que são melhorados, o ato da melhora deve ser considerado um excesso não obrigatório do partido gestor.

Desta forma a imagem é colocada como real e a realidade é afastada da percepção. Se retira o contexto da ação. A melhoria dos trens não é analisada junto às constantes crises que o trasporte público atravessa e ao colapso geral em que se localiza, demonstrado pelas grandes lotações em horários de pico.

Duas Ações Diretas Da Globo Perante As Eleições Municipais de SP

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Novamente ficou fácil de ver a posição política do aparelho midiático – não como um todo, mas sim em sua maior expressão, que é a rede Globo, por dois motivos: a proposta de cobertura de eleição na cidade de São Paulo com foco somente nos dois primeiros colocados das pesquisas (José Serra – PSDB e Celso Russomano – PRB) e a inflexibilidade em relação aos prazos para apresentação de propaganda política, que o PT entregou 9 dias atrasado do prazo determinado.

Em relação à proposta de cobertura somente dos dois primeiros colocados, não há muito o que dizer: ambos são farinha do mesmo saco (não que o terceiro não tenha seu punhado de farinha espalhado pelo corpo, mas ele é uma oposição virtual à Serra). É muito confortável e conveniente promover uma disputa democrática valorizando os dois candidatos mais bem colocados quando ambos não representam nada contra os interesses que a emissora se alinha.

Desta forma, podemos ver como a emissora trabalha realizando uma “censura” no conteúdo apresentado por seu monopólio. Na verdade, o fato da Globo ser a emissora líder no país lhe dá um monopólio supostamente não-monopolista, mas que, na prática, ainda é monopólio. Ela ainda é centro de poder da informação. Ainda tem o poder de expressar aquilo que é supostamente importante de ser expressado. A censura estaria, por exemplo, em não noticiar as greves na federais em programas de grande audiência. É uma “livre-escolha”, na verdade, pautada no poder de apresentar a notícia que quiser, por ser uma empresa privada.

Isso só já demonstra a pseudo-neutralidade da mídia que, por ter interesses, já perde qualquer imparcialidade. Eu creio que é interessante que, conforme Debord diz na Sociedade do Espetáculo ao criticar a ideologia revolucionária, onde a burocracia se esconde como classe e tem como característica não se fazer existente, a própria mídia se faz como neutra em relação às notícias e se faz como um registro do real, puro e não-ideológico. É uma força para se manter ainda como uma cobertura imparcial do real – que, na verdade, é o ideológico.

A segunda artimanha é incrivelmente legítima. Isso mesmo, legítima. Essa legitimidade que salta aos olhos, pois não é um problema prático. Todas as outras emissoras aceitaram a propaganda fora do prazo, seja lá qual for o motivo de estarem fora do prazo, mas a rede Globo manteve-se firme à lei. O que não seria novidade, já que essa lei que a emissora se mantém firme, é uma lei que a convém. Pra que fazer “caridade” quando o mendigo é alguém que detestas? Digo, qual a razão de dar essa colher de chá ao PT?

Nessas horas a democracia se mostra como pressupostos de lei, não como prática democrática.

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