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Correção Automática

Ensaio meu publicado na Revista Pittacos

Correção Automática

Ao escrever uma palavra errada, ela é corrigida automaticamente, retirando a necessidade do trabalho de correção e mantendo a língua padrão vigente com suas regras gramaticais ou sintáticas. A auto-correção tem papel duplo – de correção e de anulação da mudança. O corretor do word, desta forma, trata a realidade com monitoramento e manutenção da ordem. E óbvio que é necessário haver uma ordem para haver comunicação, pois é somente com um pressuposto de relação mútua na comunicação que ela pode ser completada com sucesso. O papel do corretor é coercitivo e passivo, pois mantém a ordem e não pede esforço positivo do usuário. Especificamente neste caso, a ordem se refere à norma vigente da gramática e do português culto, entretanto, eu creio que o corretor não pode ser analisado só como uma ferramenta a informática para maximização da eficiência. Se existe a ferramenta, então também existe uma realidade onde a existência dessa ferramenta é, de alguma forma, palpável. Ou seja, a existência da ferramenta é ligada com a existência daqueles que se utilizam e que criaram a ferramenta.

Desta forma além de enxergar o papel da ferramenta, sua dinâmica positiva e negativa, também deve-se analisar os pressupostos do usuário da ferramenta. Se os dois são ligados necessariamente, então saber o que se espera do usuário é essencial. Entende-se que, para a ferramenta ser utilizada é primordial que algum texto seja escrito e que alguma palavra ou sentença seja escrito de forma errada. Existe um pressuposto de produção e de erro. A produção perfeita é sem erros, é utopia maquinaria, é pautada na rotina perfeita sem perdas, com aproveitamento total durante o processo. Não passa de um ideal. Ao ser aplicada em um ambiente real, com humanos, toda rotina corre o risco de ser quebrada por um erro.

O Erro

Um sujeito definitivamente não é uma máquina, definitivamente não é perfeito e não consegue estabelecer rotinas lineares e não influenciáveis. O mesmo sujeito que é trabalhador, é pai, é mãe, filho, gestor da creche do bairro, síndico, apreciador de futebol e sujeito sexual – Ele pode ser uma infinitude de coisas, pode se localizar em diversas posições sociais, pode estabelecer um número diverso de relações que inevitavelmente vão atingir o todo. O seu Eu não se pode dissociar toda a vivência por fases não comunicantes, como se o sujeito trocasse de personalidade a cada momento.

Desta forma, a contingência do erro é inevitável. Entretanto, se existe um ideal de trabalho, um processo ideal, se ele é um objetivo e se há sanções para qualquer forma de erro (erro sendo o oposto do ideal de trabalho, erro sendo a quebra do processo), como as advertências formais, informais, e a demissão, então, o erro se transforma em uma ferramenta de coerção e vigilância. As próprias advertências informais como a “bronca” e o mal-dizer (um direto e concentrado, o outro indireto, difuso), constituem uma má reputação para o funcionário, que acaba sendo estigmatizado. Esta estigmatização é eficiente por que depende da relação do sujeito com os outros funcionários, com seus superiores e dos funcionários entre si e entre os superiores, assim como, depende da relação da empresa, como centro de poder na esfera do trabalho da vida social e aparelho ideológico, com os funcionários. Isso tudo pra dizer que não é só uma questão de vontade, não basta não se sentir estigmatizado para não estar estigmatizado, mas que, antes disso, o erro trabalho como coerção e seleção. O erro carrega em si as punições àqueles que erram e a classificação automática entre aquilo que é norma e aquilo que é fora da norma. O erro pune por meio da estigmatização e é automaticamente punível por meio das sanções formais de cada empresa.

Logo, se pode concluir que o erro faz parte de uma estratégia de controle – mesmo sendo necessário estabelecer o erro para o alcance do ideal, seu papel ultrapassa a divisória do dentro/fora da norma. Entretanto, como observar uma ferramenta onde o erro ainda é fundamental para o controle do processo? O corretor não anula o erro? Qual a relação da anulação do erro? Creio ser importante observar que o erro anulado é o erro primário, é o erro do detalhe, que, caso feito, não traria um grande dano ao processo. O corretor não anula o erro em geral, ele anula um tipo de erro específico, que se trata de uma falha de especialização. É um erro não significativo, pois não é totalmente improdutivo. Mesmo se errando uma palavra, ainda se consegue entender o que está escrito. A seleção por erro ortográfico é uma seleção inócua, desnecessária, a ordem, no fim, com o corretor, já se mantém automaticamente.

Ordem Mantida

Se o erro é parte de uma estrutura coercitiva, então, de que vale anulá-lo? Somente a aceleração do processo. Mas há um porém: não há somente anulação do erro, também há a correção automática, então, qual a função da correção automática, o que ela representa? Eu creio que, tentando visualizar o erro e a coerção em outros termos, nós conseguimos observar uma expressão fiel da operação ideológica no trabalho. O erro é anulado exatamente por que qualquer transformação na ordem se torna um problema que demanda energia para a solução. Se toda empresa precisa, em uma sociedade de hiperconsumo, lucrar indefinidamente, então não é uma vantagem empacar seus processos produtivos com barreiras pequenas. Como se trata de um problema recorrente, seria de enorme empecilho organizar aparelhos de repressão para cobrir e punir todos os erros, além de ser uma grande perda de massa de trabalhadores. Para manter a massa ainda em produção, deve-se evitar obstáculos – Deve-se evitar o erro e corrigi-lo automaticamente. A ordem é sempre mantida e imposta, pois sua localização se torna ilimitada e sua penetração na realidade não tem obstáculos e nem pede permissões.

O trabalho se reproduz ideologicamente e inscreve no sujeito a sua ordem assim como faz o próprio sujeito se inscrever, por meio de sua estrutura coercitiva. O fato de não haver estranhamento na intromissão da ferramenta no trabalho do sujeito, além de demonstrar a reprodução automática da ideologia, a imposição incontrolável da ordem e a manutenção da massa de trabalhadores não-qualificados ou qualificados unidisciplinarmente, também naturaliza o erro. É como se o sujeito tivesse como pressuposto este erro determinado e a correção automática fosse a tentativa de introduzir o sujeito na esfera da perfeição. O único erro admitido é o erro puntual, o restante precisa ser vigiado, mas esse puntual, mínimo, é corrigido automaticamente.

Eu creio que a rapidez com que a ordem penetra a atividade, a normatizando inflexivelmente, descreve o próprio movimento ideológico “cara-de-pau”. Ou seja, a ideologia, como Zizek descreve, não mais inverte a realidade para se legitimar, mas ela utiliza a realidade crua, supostamente verdadeira, e a naturaliza. A ordem não é uma tentativa de legitimar uma relação de domínio e exploração, a transformando em sofrimento justificado, mas mostra a exploração como é, o domínio como é, e o justifica colocando em uma categoria de inevitável. De natureza. “O mundo é assim”. O aspecto de ideologia estaria na relação espetacular da naturalização da relação de dominação e da característica de tempo cíclico aparente e tempo irreversível real. A relação ao ser naturalizada, afasta a humanidade de que é composta. Ou seja, ela demonstra uma rigidez não-humana em relações humanas, demonstra uma fixidez não-necessária, media a relação colocando uma referência autoritária para significação.

Ordem Cíclica

Essa reprodução infinita da ordem se faz como um tempo cíclico, mas que se mantém como tempo irreversível, na realidade. se mantém avançando as contradições do sistema, mas demonstra uma reprodução cíclica, sem perdas e sem mudança. É o tempo pseudocíclico que Guy Debord apresenta na Sociedade do Espetáculo, como sendo o tempo transformado em mercadoria, o tempo pautado no trabalho alienado, o tempo que se faz ideologicamente como presente eterno exatamente para manter certas estruturas imóveis. Nisso cria-se um paradoxo em relação à participação do sujeito no tempo, já que “o que foi realmente vivido não tem relação com o tempo irreversível oficial da sociedade e está em oposição direta com o tempo pseudocíclico do subproduto consumível desse tempo”, já que a suposta característica cíclica deste tempo pseudocíclico não corresponde ao acúmulo de mais-valia irreversível e aos referenciais de poder institucionais e fixos (além de, praticamente, herdados) da sociedade.

Logo, o retorno automático à ordem se faz como um retorno do tempo. A sua ciclicidade. O consumo ultra-rápido do tempo que, no fim, retorna ao início e refaz a ordem já vigente. Uma eterna imobilidade, mas que é falsa, já que o processo produtivo não é um fim em si e seu produto não é totalmente consumido. O corretor é um ciclo perfeito, é uma representação, um produto deste espetáculo. O corretor é o espetáculo na operações básicas e nas ferramentas fundamentais do cotidiano tecnológico. Se o espetáculo é a ideologia intrincada em todas as esferas sociais e privadas, em tudo, em todas as ações, se o espetáculo é um estágio de afastamento real e, ao mesmo tempo, suposta aproximação da realidade (a ideologia cara-de-pau), então o corretor é uma ferramenta “natural” deste processo de espetacularização da vida.

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