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Inclusão e Exclusão

Abaixo meu texto publicado no site da Caros Amigos 

Inclusão e Exclusão

Todos Somos Bonitos

Eu vejo uma coisa muito frequente nas conversas, em programas de TV e, na verdade, em todos os cantos do espaço social de nossa sociedade como um todo: a tentativa de inclusão. No entanto, essa tentativa de inclusão, vale dizer, não se trata de estabelecer uma igualdade social, política e econômica negada historicamente, como no caso das lutas contra o racismo e homofobia, mas sim, na tentativa de inclusão como maneira de (pasmem) evitar os conflitos – que são naturais, por exemplo, nas lutas contra o racismo e homofobia já citados. É uma forma de inclusão que causa mais apatia do que promove a real igualdade em termos políticos, sociais e econômicos, e eu creio que o exemplo de digestão fácil e que, ao mesmo tempo, tem um grande conteúdo, é aquele comum nas escolas primárias: todo mundo é bonito, mas cada um é bonito à sua maneira.

É óbvio que a frase do exemplo não é um fim em si. O conceito que há por trás dela pode ser generalizado para o restante da maneira como, em um mundo multicultural e tolerante, vemos o mundo. Eu creio que ser interessante esse tipo de afirmação, pois ela demonstra, primeiro, que todos são iguais, depois, que todos são diferentes. Há a afirmação de que há uma essência, um núcleo, pertencente à todos os seres humanos, ao mesmo tempo que todos são, superficialmente, diferentes. A beleza é única em cada um por que cada um expressa de maneira diferente seu corpo físico, entretanto, a beleza está no núcleo do sujeito – ela está lá, emanando algo comum à todos os humanos que, ao passar por alguns filtros biológicos, se expressa da maneira como vemos no dia-a-dia.

Se o objetivo da afirmação é retirar as pessoas da exclusão por serem feias (ou estranhas, ou impuras, ou qualquer coisa que possa ser colocado como exclusão), por que manter a dicotomia feio e bonito? A grande jogada do exemplo do primeiro parágrafo é manter o bonito como uma categoria de inclusão, como uma categoria normativa e jogar todos dentro deste alçapão de beleza, porém, para manter todos dentro de um saco é necessário demonstrar uma característica comum que faz todos serem iguais, que aprova a participação de todos no mesmo grupo. Primeiro problema: a beleza não deixou de ser normativa, portanto, não deixou de determinar certas características necessárias para ser belo e certas características necessárias para ser feio.

O Reconhecimento e a Função de uma Expressão Social Determinada: Sonic Youth

Em Crítica a uma Cultura Agonizante, Caudwell define a arte como uma função social. Arte não seria, portanto, só a emanação idiossincrática do artista, mas a arte é aquilo que é reconhecido simbolicamente pela sociedade – esse reconhecimento modifica a obra na concepção do artista, pois é colocado um traje social, uma perspectiva socialmente compartilhada em relação ao mundo, inclusive em relação à arte – e, desta forma, classificado dentro do novo contexto que assume. A arte só é arte se consegue entrar em determinados grupos de classificação e, desta forma, cumprir uma função social, assim como ser uma expressão social. Para saber sua expressão social, é necessário, por sua vez, perguntar: que função social a arte está desempenhando?

Porém, essa característica não poderia ser generalizada para todas as formas de associação? Não são todas elas uma expressão social que necessita de reconhecimento simbólico para ser entendida e colocada dentro do nosso espaço social? Desta forma, conseguimos, por exemplo, realizar uma leitura das artes, música, por exemplo, não retendo as impressões superficiais do som, mas analisando a relação do som e do contexto onde ele é expressado, assim como a própria imagem que o som traduz.

Posso tomar como exemplo a banda de rock Sonic Youth, que, embora seja considerada experimental, em seu núcleo carrega a mesma fórmula consonante ocidental. A consonância luta para acontecer e a dissonância é colocada sem conteúdo, sem objetivo – a dissonância aparece mais como uma falha da consonância do que como real expressão de si. A música é igual a qualquer música não experimental, exatamente por ter seu núcleo/contexto igual. Podemos ver isso em sua função social, Sonic Youth sempre foi traduzido como a imagem de o que é uma banda alternativa, de o que é uma banda de garagem e experimental, seu reflexo é a própria expressão de unicidade que cada ouvinte carrega. A banda é underground, portanto, o ouvinte é genuíno, se ele é genuíno de uma expressão experimental/alternativa, então ele é alternativo e experimental.

Qual o problema disto? Sonic Youth deixou de ser undergound desde que todos que participam do grupo designado “rock” a conhecem. Como uma banda é reconhecida como pai do rock de garagem e alternativo se não é amplamente conhecida? No entanto a imagem permanece. Os efeitos do som da banda mostra sua função social: o agrupamento de pessoas que participam de uma expressão superficialmente diferente mas, em seu mais íntimo ser, igual, são também, massa. Mas são uma massa reconhecida pela diferença, mesmo que superficial. Quando há uma ideologia vigente operando nossas relações, a diferença tem como pressuposto uma base que se mostra idêntica e imutável, exterior aos indivíduos – a própria ideologia.

A Indústria Cultural e O Outro Sem Alteridade

Até mesmo como a indústria cultural reproduz o conceito da inclusão, já é notável a forma normativa: nos comerciais de TV, por exemplo, há sempre a presença de algumas mulheres, alguns negros e o restante, isto é, os homens brancos. Qual o ponto? Não há mulheres, homens, negros e brancos, há mulheres, negros e o restante é o normal. O restante não salta os olhos pela diferença. A indústria cultural cumpre seu papel de reproduzir a individualidade que cada sujeito deve ter. Individualismo ilusório.

A liberdade é a liberdade de consumo, que pode ser exemplificada na nova noção de Nerd: se antes, ele era o sujeito desengonçado, hoje, é o sujeito que usa determinadas roupas e acessórios. Antes ser nerd era parte do sujeito, hoje, é o que o sujeito consome.

Retornando ao ponto inicial, incluir todos num mesmo grupo de beleza os classificando dentro dos padrões normativos ainda é manter tais padrões (mantem-se, por consequência, o feio e o bonito) e o efeito imediato é a consideração de que todos que não estão incluídos no padrão normativo não fazem, também, parte da sociedade – o discurso de todos serem bonitos abre espaço para evitar qualquer tipo de conflito entre o feio e o belo, entretanto, ao mesmo tempo que se afirma uma maneira de ser, coloca-se a culpa de não ser bonito no próprio indivíduo. Todos são bonitos, mas desde que colocados dentro de seu espaço social particular – que os feios fiquem satisfeitos em serem reconhecidos bonitos em seus grupos sociais, mas não na regra geral da sociedade. Trago, de volta, o exemplo do nerd, que sempre foi rejeitado pela sociedade, entretanto, agora deve ser feliz por sua beleza ser reconhecida dentro de seu grupo social. O outro é aceito, desde que sem sua alteridade.

Segundo problema: o reconhecimento da beleza dentro dos grupos sociais só ameniza os conflitos entre os grupos da camada normativa e os grupos maginais.

Seguindo Caudwell, a arte, sob perspectiva funcional, tem como o belo, um conceito construído socialmente, que varia conforme há a variação nas estruturas da sociedade, portanto, a noção de estranho, de bonito e de nojento estão todas submetidas à uma base ideológica, reproduzida pela industria cultural, traduzindo essa suposta cultura que é formada pelas relações sociais e sua leitura ideológica em mercadoria, que, por sua vez, faz todo o diferente ainda ser uma face do igual – vide a acensão nerd (melhor dizendo, consumo nerd) ou Sonic Youth (melhor dizendo, consumo da unicidade), dois exemplo citados. O consumo destes dois itens se dá pela relação superficial e unicamente assimiladora do sujeito com a coisa. É a fome de receber o prazer que o objeto pode dar.

Violência Simbólica e O Retorno dos Conflitos

Desta forma, a afirmação “Todos são bonitos, porém, cada um à sua maneira” tem como mensagem oculta, além dos pontos já citados, os fundamentos de uma apatia entre grupos sociais. Basicamente, o discurso não elimina as formas de desigualdade, mas as mascara sob um manto de tolerância e vida em harmonia, entretanto, sem identificar uma maneira realmente eficaz de manter a vida em harmonia e tolerante. É óbvio que admitir que uma sociedade (utópica) sem referenciais de julgamento baseados na beleza seria o ideal, entretanto, também se torna uma prática sem nexo contemplar tal sociedade sem modificar as estruturas da sociedade atual, oras, não é possível mudar realmente o pensamento das pessoas se mudar toda a vida material delas. Chega a ser uma grande trapaça manter as formas da sociedade que garantem certos privilégios para determinados grupos e esperar que uma iluminação interior os transformem em filantropos, que abdiquem de seu poder por uma causa maior.

A forma como o discurso de inclusão é praticado, só se remete à violência mais popular e individual, não se refere à violência simbólica, colocada por Zizek como aquela que se situa na própria linguagem. Luiz Cardoso de Oliveira exemplificou essa violência simbólica com o que ele chamou de insulto moral, onde, apesar de haver leis, regras explícitas que visam manter uma igualdade entre negros e brancos, os primeiros ainda são tratados de forma desigual, recebem sanções morais ou satíricas por serem negros e por “aproveitarem” de um direito tipicamente branco – a igualdade (que ainda é desigualdade) é tida como um favor feito à força para o sujeito inferior negro.

É exatamente com essa violência que tal discurso não se preocupa, aquela que age na/com a própria linguagem, com a própria noção de símbolos construídos socialmente, construídos com base na própria vida e na manifestação da vida em sociedade: no mundo material. Eu creio que mais do que nunca, todos devem admitir sua diferença, aquilo que os torna marginais, e admitir essa marginalidade, pois somente com esses conflitos atualmente desconsiderados como conflitos estruturais, que algum tipo de mudança substancial pode acontecer.

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