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Na Estrada: Uma Interpretação Sistêmica

Meu ensaio publicado no Nego Dito.

Na Estrada é o filme de Walter Salles que estreou no dia 13 de julho. Nele o diretor tenta adaptar o livro de Jack Kerouac para o cinema, sem retirar seu conteúdo e apoiando-se nos manuscritos originais, inicialmente cortados e editados para posterior publicação. Minha tentativa aqui é de analisar o filme como expressão, representação cultural e política, colocando-o sob o viés da prática política e social contra-ordem.

Sem contar muito – afinal, o livro já uma grande sinopse -, no filme Marylou e Dean começam como amantes, sendo Sal Paradise o escritor sem inspiração que precisa começar seu livro, mas nada lhe vem à cabeça. A morte do pai virou sua vida, foi então necessário começar uma segunda fase, uma nova jornada de experiências pautadas em todas as possibilidades que o mundo poderia lhe dar. Tendo Carlo como amigo poeta e pessimista, conhece Dean Moriarty, um ladrão de carros bonitão que teve suas façanhas contadas por um amigo em comum. Ao conhecer Dean, eles (Carlo e Sal), ligam-se de maneira intensa ao assaltante e Marylou desperta o interesse do escritor sem inspiração. O interessante é a entrada de ambos na vida de Dean, de um jeito espontâneo e alegre, embebido por muita maconha. É como se Dean já necessitasse da entrada de ambos e como se mos dois estivessem totalmente abertos as novas experiências que Dean proporcionaria.

Porém, duvido que se deva parar por aqui: Sal estava perdido em sua vida, já não havia mais muito significado para sua existência. Era um desempregado, escritor aspirante que não escrevia. Carlo, o poeta jovem que vivia do dinheiro de seus pais. Dean não era grande coisa, afinal, seus anos no reformatório significam a própria sociedade o encurralando em um de seus aparelhos. A união dos três não foi uma união em busca de liberdade ou de novas experiências, me parece que foi uma união em busca do suicídio.

Vejamos, se a vida é uma grande latrina, qual a razão de estar vivo?

Durante o filme, percebemos que as experiências com drogas e as orgias fazem da vida de Sal uma apreciação. Entretanto, não creio que a resposta se encontra no prazer dos atos, mas naquilo que dá fundamento para acontecerem e significarem-se.

A vida dos quatro (incluo Marylou) está baseada na insegurança de estar, de alguma forma, fora de determinados padrões. Mas eles ainda têm seus referenciais fixos, existe a normatividade esperando uma resposta de cada indivíduo. Então, por que On The Road deveria ser On The Suicide Road?

Porque o caminho de ambos para a liberdade pautava-se na negação do estereótipo, mas sem método de superação. A negação pela negação. A liberdade se via guiada por uma reta de direção oposta à normatividade.

Ao contrário dos valores e padrões fluidos atuais, na década de 40/50 ainda haviam figuras fortes de referência. Quando a vida perde seu referencial ou quando o referencial já não é alcançável, ou está em contradição máxima com o sujeito, o jeito é desvencilhar-se da trajetória normal por meio de sua negação suicida. Não digo suicídio no sentido de morte biológica intencional, mas no sentido de autodestruição social. Não há superação, só negação e mais negação. O que seria mais isso do que o puro gozar da vida sem considerar uma mudança social? Do que o puro gozar narcísico, a satisfação das próprias pulsões ignorando as normas sociais? É óbvio que eu não falo em considerar a norma de uma posição de submissão.

A Não-Norma Da Estrada

Para uma atitude legitimamente social, com preocupações realisticamente sociais, que transpassam a satisfação pulsional narcísica e admitem a crueza da vida em sociedade, é necessário um método que realize a transformação social.

Na Ideologia Alemã, Marx crítica Feuerbach por este considerar em suas análise O Homem não os homens, digo, por este partir de uma análise individual, que não considerava o mundo sensível como sendo uma constante de transformação e que todo homem precisa se relacionar com outros homens e mais outros homens e com as gerações sucessivas e etc.

Ou seja, a análise individual não compreendia a característica coletiva da sociedade – somente a característica geral. A satisfação pulsional ilimitada e individual como projeto não passa de uma sustentação do indivíduo em detrimento do coletivo, ou seja, é uma ação que se passa no indivíduo e que é pautada em si, como se ele não precisasse se relacionar com outras pessoas e como se a relação dele com outras pessoas não o torna um objeto sensível (ou melhor, uma atividade sensível).

Em outras palavras, ao simplesmente “fazerem o que querem” (pois acham que realmente querem o que fazem) os sujeitos são a expressão e reprodução da visão ocidental liberal do mundo.

A norma é mantida.

Desta forma, a tentativa de se desviar da norma se transforma em uma reviravolta para a própria norma, já que ela ainda é um referencial – portanto, como Zizek já expressou em seus artigos sobre o Occupy Wall Street, a proposta não deve ser inteligível, não deve estar dentro dos parâmetros de negociação, ela deve transcender esses parâmetros, deve exigir a mudança radical de qualquer parametrização. Ou melhor, somente uma mudança radical na parametrização que iria torna inteligível as exigências do Occupy. Eu creio que o mesmo vale para qualquer movimento revolucionário, mas que não se encaixa em movimentos de posição ou reforma.

O caminho de suicídio social mantém uma rede de segurança para a sociedade: o suicídio acontece para os participantes, entretanto há a manutenção da ordem. É um último suspiro dentro de uma realidade supostamente imodificável. Se não é possível modificar, então eu vou gozar até que me matem.

Inclusive Dean se faz como um libertário reacionário, pois sua relação com todos os personagens é de dependência.

Quem Precisa de Quem?

A fixação de Dean em seu pai e o desligamento de Sal com o seu se relacionam com a dependência de Carlo com seus familiares, explicitado em uma conversa de bar, quando admite o fracasso de sua atual vida. A figura paterna desestabilizou Sal e o introduziu em um outro mundo, em uma nova perspectiva de vida, da mesma forma que é a procura pelo pai que faz Dean tentar se estabilizar e os pais de Carlo o ajudam financeiramente para conseguir se sustentar.

A figura é fixa, não é fluida como na liquidez moderna, o pai funciona como refúgio para o certo. Sem o pai, Sal desembesta; pelo pai, Dean estabiliza; com seus pais, Carlos percebe sua limitação. Pode ser nesta lógica que a parada na casa de Old Bull Lee seja tão bem colocada. Ele é a norma com suas escapadas – um drogado respeitável. Ele é o suicídio que não ocorreu, o controle e a vigilância das escapadelas à normatividade. Bull Lee é como eles, porém sobrevivente. Neste contexto, a passagem por sua casa é a estabilização geral do pessoal. É lá que um casal se une, novamente, é lá que eles conseguem mais dinheiro e é lá que eles marcam seu checkpoint. Dean, por sua vez, ainda se faz como um grande dependente, já que sua dependência ultrapassa a necessidade de uma figura referencial.

A vida de Dean é o máximo da superficialidade das relações que Bauman poderia descrever na modernidade líquida. É como um presságio do que viria. Ele consome Marylou, consome Camille, consome Carlo e, por fim, termina consumindo Paradise, roubando seu dinheiro e deixando-o doente no México. Ele usa o outro como forma de obter seu gozo, somente isso. Se satisfaz com a vida fluida, sem relações, mas com conexões, que podem ser desconectadas em qualquer momento; não quer ficar preso a lugar nenhum, quer sua liberdade – só que esta liberdade é banhada em superficialidade e insegurança. A satisfação própria e irrestrita tem como pressuposto não se responsabilizar pelo outro, logo, tem como base a não-mutualidade entre o outro que é consumido (exatamente por isso que ele é consumido).

Marylou, pelo contrário, sabe que está sendo consumida pouco a pouco por Dean e suas aventuras, sabe que a vida que leva não é aquilo que realmente quer, sabe que a satisfação nunca lhe é plena. Seu gozo é mais um gozo levado por Dean, que a introduz na massa anônima, do que um gozo por consciência própria. Aponto isso com base em sua própria declaração para Sal, enquanto Moriarty está dormindo, que quer ter uma família, uma casa e filhos. Quer ter uma vida “normal”. Sua intenção é se integrar à sociedade e manter-se nas relações.

Dean é a satisfação superficial dela da mesma maneira que ela é a dele. Eles se consomem, mas quando o limite é dado, quando o consumo toma sua verdadeira face, quando ele se demonstra sem um alvo fixo, sem um objeto fixo, sem a ligação forte, sem o estabelecimento de uma relação, mas com o estabelecimento de uma conexão (que é frágil), Marylou se revolta.

A revolta não pode ser atirada como uma em favor da ordem, mas como a impossibilidade de aguentar uma situação tão fluida e insegura. Não é a favor nem contra a ordem (de certa maneira), ela permanece onde está. Qualquer decisão que tome terá uma contagem negativa, que se faça, então, a contagem plausível com sua própria vida. Ela quebra o castelo de cartas de Dean, apesar de não lhe dar uma saída possível. Ela não precisa dar esta saída, sua função no filme é de expôr a inabilidade de Dean e de qualquer um dos personagens em lidar com a realidade.

Marylou, ou Não Ser Criança

É assim que Marylou se situa como Matthew em Os Sonhadores, como o agente social que reintroduz a realidade no grupo. Vejam a realidade não é introduzida como uma imposição externa de estabelecimento de ordem, mas sim como a aceitação de que há essa imposição. Ela existe, é necessário fazer algo, não só fingir estar em um mundo melhor ou gozar indiscriminadamente como se não houvesse amanhã. Se Matthew mostra à Isabelle que há vida fora da relação quase incestuosa com Theo, além de mostrar à Theo que seu desejo é só ficar junto de Isabelle, que ele não se importa realmente no que acontece no mundo (já que ele nem mesmo percebe Maio de 68 até seu pico), Marylou mostra que não se vive separado do mundo, pelo menos não quando se tentar dar uma real significação à vida. Quando se tenta vivê-la, ao invés de só aproveitar os sentidos que o corpo biológico proveu.

Neste ponto a objeção automática pode se referir a intenção dos Beats retratados no filme: aproveitar a vida e ter novas experiências. Ok. Porém essa intenção não importa como ponto de partida para análise, mas sim como objeto de análise. Digo, o método não deve se submeter à vontade dos personagens, mas deve tomá-la como objeto de análise. Desta forma, o fato dos personagens quererem ou não mudar o mundo, a vila ou a cidade é irrelevante, pois a participação social de todos eles nestas esferas da vida (política, econômica e social) acontece quer queiram ou quer não queiram.

Tendo o filme como sistema, Marylou é a realidade morna que não tarda, mas que não muda radicalmente a estrutura dos personagens. Digo, é necessário algo mais. Para Sal, este algo mais foi a traição de Dean. Ao ser deixado doente no México, Paradise percebe o que aconteceu e quando volta pra casa, se foca em seu livro, realizando a sua incrível escrita. Carlo, assim como Marylou, também percebe o consumo de Dean, mas se reprime, vai embora, viaja para a Africa, faz a sua vida em separado, embora nunca deixe de esquecer Moriarty.

Ele se liberta com o consumo de drogas, alcança lugares inóspitos e volta pra contar a história. Se faz como um grande visionário, mas é preso à história por ser um objeto de consumo de Dean e por estar dentro do padrão de reverência à figura do Pai.

Por assim dizer, a vingança cristã da vida mal-vivida vem com a despedida de Sal com Dean, todo sujo e maltrapilho. O que mais pode isso significar que há uma justiça superior operando a vida de cada um de nós?

O que mais isso pode ser senão a caída cristã do equilibro de forças entre o bem e o mal?

Sal se dá bem ao perceber os abusos de Dean, Carlo se dá bem ao perceber o mesmo e seguir sua vida, Marylou tem um filho e Camille até lhe dá outra chance. A única saída de Moriarty é a vida que ele não quis levar. É a vida normal, fora disso, ele é um vagabundo disfuncional.

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