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Na Natureza Selvagem

Meu ensaio publicado no du Anémic.

Na Natureza Selvagem é um filme de 2001, dirigido por Michel Gondry que tem um ponto muito interessante em sua história: o bom selvagem.

O conceito do ser humano em estado natural foi desenvolvido principalmente por três autores: Hobbes, Rousseau e Locke. Os dois últimos com uma perspectiva mais simpática aos “selvagens”, enquanto o primeiro não sentia nenhum remorso em rejeitar completamente qualquer noção de bondade no humano fora da regulamentação do Estado. Eu creio que é necessário analisar o filme sobre este aspecto (contratualista) para conseguir chegar ao ponto chave.

A Teoria Contratualista

Em Locke, o estado natural é o estado onde o sujeito pode fazer o que quiser sem prestar contas à ninguém e à nenhuma autoridade institucional – basicamente suas relações são regradas por sua vontade e pelo poder de se utilizar da lei natural, de infringir sofrimento àquele que o infringiu anteriormente, como forma de justiça natural. Num estado de total liberdade, um sujeito só pode esperar que o mesmo que ele faz aos outros, seja devolvido à ele – a lei natural é uma lei consciente e intuitiva de preservação da vida do outro em precaução da própria vida.

Seguindo o mesmo sentido, entretanto, retirando todas as noções de lei natural, Rousseau admite que o sujeito é bom em seu estado natural. É dócil e preocupado com o sofrimento daqueles da mesma espécie. O autor francês nos diz que há dois instintos naturais no sujeito: auto-preservação, que o mantém sobre constante proteção aos males causados pelas contingências da vida, e a piedade para com o sofrimento do outro, a compaixão. Um instinto centrado no eu e um instinto centrado no outro.

Hobbes, por sua vez, acredita que o sujeito é naturalmente mau, egoísta e violento, e que somente um Estado forte consegue controlar essa natureza mau do humano, ideia essa compartilhada por Freud em seu mal-estar da civilização, onde argumenta – pautado na psicanálise – que a pulsão agressiva e a pulsão sexual, ambas centradas nas satisfações do ego e onde o sujeito pode muito bem abusar do outro para sua satisfação, são inibidas na sociedade e somente desta forma que ela pode se desenvolver ou, até mesmo, existir. O pressuposto da sociedade é a inibição das pulsões e a sublimação das mesmas em atividades culturais.

Puff, desta forma, se posiciona no longa como o sujeito no estado natural, ainda não tocado pela sociedade, ainda não corrompido pelas leis da civilização ou pelas tradições de cada cultura, um sujeito longe das leis de convenção, mas próximo às leis naturais, um sujeito que não precisa controlar a pulsão (vide a masturbação em cima da árvore). A forma como ele assimila os valores, a língua e aprende as tradições da nova cultura onde foi empurrado ainda não anula a pulsão sexual, que tenta ser satisfeita em momento inimagináveis, como no restaurante com a garçonete. A forma como Puff aprende o que é necessário para sair de sua jaula, a forma como ele estuda a nova cultura o coloca sob uma categoria de passagem. Ele não é mais um selvagem, entretanto, ainda não é um civilizado – ele ainda não pode ser tratado como um civilizado por ainda ter em sua história as marcas da selvageria.

Eu não acredito que Puff, enquanto ex-selvagem, poderia ser um cidadão comum, mas somente como cidadão comum ele poderia ser um cidadão comum, ou seja, somente não tendo em sua vida a história do sujeito selvagem que ele poderia conviver como “um de nós”. Pertencer ao grupo estaria intimamente ligado ao não conhecimento deste grupo em relação ao seu passado, portanto, do ponto de vista de Nathan, Gabrielle e Lila, não há possibilidade dele ser alguém normal, nunca, já que suas raízes estão fincadas num espaço fora da civilização. Essa essencialização do sujeito ainda é muito comum e a percebemos na tentativa infantil de se colocara culpa de todos os males que acontecem no Brasil, nos políticos corruptos e justificar os políticos corruptos com a cultura da malandragem brasileira; isto se torna óbvio ao vermos manifestações pela internet onde a crítica de um cidadão é anulada em detrimento de suas ações malandras, que o fazem tão mau quanto o político criticado – só há um problema, a contingência de um indivíduo ser um assassino serial killer não anula sua crítica e a cultura, por outro lado, não pode ser usada como desculpa, já que ela também é produto das relações sociais, políticas, econômicas e etc.

O que eu quero dizer com isso? A atração de Gabrielle por Puff se faz como a atração dela pelo selvagem, não pelo civilizado. A diferença entre Puff e Nathan está no fato de um ser da cidade, da civilização, já o outro ser um sujeito em processo de civilização.

A Sociedade Corrompida

Todas as cenas de traição, de sacrífico da própria individualidade em prol do outro, da manipulação do objeto sexual e etc, são representações da sociedade corrompida, que também acabou corrompendo o inocente Puff, como a cena da traição dentro do laboratório nos indica, ao deixar visível um semi-gente aprendendo o que é traição, o que é satisfação carnal pura em contraposição ao amor fiel. Ainda mais a forma como Puff manipula Lila para ela se entregar, fingindo dar o mínimo de valor para a vida na selva, demonstra como o filme retrata a assimilação da falta de verdade nas respostas dos homens ocidentais. Ele aprendeu essa sordidez ao ver os amantes sempre realizando o ato errado às escondidas, além de ser exatamente a satisfação que o próprio estava procurando.

Rousseau diz que aquilo que começou a causar desigualdade entre os participantes das tribos foi fruto do culto à imagem dentro daquilo que ele chamou de ciúme que acontece naturalmente nos encontros festivos ou nas reuniões entre a fogueiras nas antigas formas de sociedade. Esta festa coletiva iniciava a noção de que haviam bons dançarinos e maus dançarinos, bons cantores e maus cantores, iniciando a busca pela melhor posição que a inveja causaria. Esta foi a primeira forma de desigualdade moral, fruto da formação de noções de ideais coletivos. Entretanto, não me parece que seja correto afirmar a construção da noção de ideal e não relacioná-la com a própria vida em sociedade, já que a noção do ideal de sujeito é uma noção feita em sociedade, por meio de todas as experiências e símbolos do local. O que isso quer dizer? Que a desigualdade começou quando as noções de mérito e honra, como diz Rousseau, nasceram da convivência, nasceram da vida em sociedade tentando se organizar, mas se organizando sob determinados pressupostos materiais, que é toda a tecnologia e as técnicas que precisam utilizar.

A Vida De Puff

Puff só se interessou pelo caminho urbano de se viver, com Gabrielle, por meio da enganação e da traição, que é totalmente relacionada com os outros personagens que tentam afirmar as falência naturais da vida humana em sociedade, dando ao filme a característica de ser a história da corrupção de um sujeito neutro. Não consigo ver nada que dê alguma classificação anterior para Puff, quando ainda está em seu estado na natureza, ele me parece estar posto como o perfeito sujeito neutro, fora da dinâmica moral da sociedade. É um animal, ainda não foi tocado pela alma da espécie (de José Ingenieros – o básico para a vivência na sociedade, mesmo sem essa vivência ser prazerosa ou natural), por que a própria alma requer um mínimo de social para ser existente – ele ainda só é um animal perdido na floresta.

O filme se mostra como um alarme ao poder da sociedade – o de corromper um sujeito bondosamente neutro, amoral, que agia com o medo e com a docilidade animal. Mas não creio que o longa deva ser analisado como uma expressão negativa da sociedade, já que o próprio se localiza dentro de uma das época mais inseguras, com referenciais mais instáveis da história, sendo assim, o estabelecimento de um papel de corrupção para a sociedade é a demonstração da raiva que as próprias pessoas tem sobre a organização social, que pode ser localizada neste filme pela repugnância que o Estado causa aos mais liberais, que só o quer em regulamentações e repressões de qualquer coisa que possa desorganizar a ordem econômica vigente.

Então, a expressão do filme, inserida dentro de seu contexto social, de seu local de produção e criação, se refere mais à própria estrutura política, que possibilita este tipo de saudosismo, resignificando os autores iluministas em autores de afastamento da tutela de um Estado. Já que, dentro desta crítica, o Estado é o sinônimo da sociedade, sua mais alta perfeição, pois é totalmente organizado e documentado, além de ser catalogado e fichado. O Estado é a arma burocrática de mais perigo para o comércio livre.

Não obstante, a sociedade é formada por pessoas, que são demonstradas em suas atividades cotidianas como as pessoas mais imorais possíveis de se ser, então, ainda sincronizando com o pensamento rousseaniano, ela próprias se tornam maus e necessitam das regulamentações do Estado para manter as dominações que eram exercidas pelo acúmulo de propriedades de valor ou de imagem. O que parece é que a própria convivência trás consigo a corrupção do humano, não a sociedade e suas regulamentações, em específico. Portanto, nesta crítica ao Estado, a sociedade seria intrinsecamente, independente de sua formalidade em regulamentação ou em sua regulamentação tendo como base somente as tradições e superstições, uma forma de degradação da vida humana.

A conclusão a se tirar, desta forma, não pode ser localizada na relação do sujeito e da sociedade regulamentada – isto seria uma análise simplista e superficial – mas sim na própria situação do sujeito em relação ao Estado atualmente. O filme se projeta como uma negação do Estado como tutor e da colocação de fardos da humanidade (dos nossos problemas cotidianos, da nossa péssima moral e etc) em cima de sua função.

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