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Greves, Todo Mundo Odeia Salário Mínimo e A Espera de Um Milagre

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Após a greve dos correios, quando eu voltava do trabalho, vi uma mulher reclamando com o carteiro do atraso de suas cartas, dizendo que, no fim, quem sai perdendo é cidadão como ela. Essa mesma reação a gente vê em relação a maior parte das greves que têm como consequência alguma parada de serviços com os cidadãos comuns e etc. Mas, então, como a greve deveria ter acontecido?

Eu creio que a greve mais simbólica, em relação ao tema, seja a dos transportes públicos, onde a mídia cobria a greve da perspectiva dos usuários de ônibus e trens, insinuando a falsa legitimidade da paralisação pelo descontentamento dos cidadãos que precisam do transporte público. Mas, não seria exatamente esse o objetivo da greve? A paralisação de toda uma rede que depende de seu trabalho? Eu digo, qual seria o resultado da greve se os ônibus continuassem a andar, porém, para demonstrar seu protesto, não cobrassem passagem?

Se o verdadeiro objetivo da greve é atacar a raiz político-econômica dos problemas dos trabalhadores, então ela não deve se limitar ao combate fechado. Eu digo isso, pois, se os trabalhadores fazem parte de uma classe social que, seja qual for a cidade ou país, ainda é a mesma, a greve só é um real protesto de âmbito político-econômico se for um protesto de classe, caso contrário, se transforma em um protesto contra a má ética de um determinado patrão. O protesto que era para ser objetivo, se torna subjetivo.

É aí que o inimigo se torna o chefe imoral, não aquilo que alimenta a existência do chefe imoral.

É fácil relacionar essa situação com o episódio de Todo Mundo odeia o Chris em que ele se demite do Dock’s, por que o mesmo recusara a pagar um salário mínimo, e foi trabalhar no restaurante chinês do Sr. Fong. A forma de Chris demonstrar seus desapontamento foi indo trabalhar em outro lugar, mas não em duvidar do sistema de salários ou do patronato.

Quando recebe seu primeiro salário (e essa cena é reveladora), Chris percebe que está menor do que o quanto recebia no Dock’s, pede explicação ao Sr. Fong, que lhe responde que a diminuição de seu salário se dá pelos descontos do imposto (maldito Estado). Após trabalhar com o mínimo de condições e recebendo menos que em seu antigo emprego, Chris se demite do restaurante chinês e volta para o Dock’s. Ou seja, entre ter um péssimo emprego, mas os direitos trabalhistas, ou ter um emprego bacana, mas sem direito nenhum e salário um pouco maior (essas são as únicas opções declaradas na série), ele escolhe o suposto bom emprego que, no início, ele lutou contra.

Eu acredito que essa seja a expressão de como um ideal é considerado, hoje. Chris, como a imagem do revolucionário absorvido pela naturalidade do sistema capitalista democrático (ele teve um ideal, mas a realidade é outra… Abandonou o ideal falido e viveu a realidade, ponderando o que era melhor para si). Ou seja, ele perde toda sua objetividade se torna um ideal ético, algo que é desejado, mas que não contraria a concretude da realidade (naturalmente, capitalista).

Ainda me arrisco ao colocar essa mesma expressão de naturalidade, de concretude real Vs. Ideal ético, em A Espera de Um Milagre, onde, apesar de ser inocente, apesar de um dos guardas saber da sua inocência, o prisioneiro é morto pela falta de provas concretas. Não há o que fazer se não há provas concretas (quando digo provas concretas, a relação da sua concretude está em sua lógica com o sistema que a denomina concreta, ou seja, concreta na perspectiva de quem ditou as regras), ele deverá seguir para a cadeira elétrica. Percebam, uma fuga com o prisioneiro não é nem cogitada.

A verdadeira mensagem por trás do filme é a autoridade do contrato social sobre as pessoas. Não se brinca com as regras do contrato e o dever proposto por ele deve sempre ser cumprido (caso seja contra sua vontade, relaxa, se deus existe, tudo é permitido).

Restaurante, Submissão, Autoridade e Todo Mundo Odeia o Chris

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Hoje eu almocei no lugar onde eu sempre almoço, de boa, tranquilo, comida gostosa, pessoal gente fina, etc e etc. Depois que a gente se serve, precisa pedir o que vai tomar e esperar na própria mesa, lá eles entregam o suco, refrigerante, café, seja o que for… O modo como acontece essa entrega é aquele comum: a pessoa coloca o copo de suco (por exemplo) na bandeja, chega à mesa do sujeito que está comendo e coloca o copo sobre a mesa. O que achei interessante foi a dona do lugar levar o copo sem colocar na bandeja e servir o sujeito que estava comendo. Ele não reclamou, nem olhou torto.

Esse modo de servir o sujeito que está almoçando, com toda a submissão ao Senhor cliente, já com aquele pressuposto da autoridade máxima do sujeito que compra os serviços que, porventura, pagarão seu salário e etc, essa relação de submissão de quem serve para quem é servido já é uma merda. Isso já me deixa constrangido de ir à maioria dos lugares. Nem dá pra contar nos dedos a quantidade de vezes que presenciei os clientes exigirem determinadas coisas que são tão inúteis quanto aquilo que eles fazem da vida.

As exigências inúteis só traduzem esse poder, essa autoridade do cliente sobre o sujeito que está lhe servindo. Referenciando o papel do sujeito que serve (garçom e garçonete) com o dos escravos, rebaixando da mesma maneira. Os escravos ainda existem, ainda fazem o que faziam, mas agora são assalariados e podem comprar um produto no fim do mês para massagear a revolta de ser um neoescravo.

Eu digo, essa analogia com escravo não está somente no trabalho, mas em todo conteúdo histórico acoplado nele. Servir, lavar, enxugar, servir, abaixar a cabeça, o Outro tem razão, servir, etc e etc.

Aí entra a ação da dona do restaurante. Ela serviu sem seguir as regras que ela própria determinou (ou melhor, que a sociedade determinou, ela só o fez formalmente). Ela demonstrou sua autoridade em fazer o que quer, já que, oras, o restaurante é dela. Ela é a autoridade máxima do lugar. Essa frase é confirmada pela não-ação do cliente, ele não fez nada por que sabia que era a dona que estava servindo. Não era qualquer garçonete submissa sem autoridade, era a dona. Ela pode.

Isso me faz lembrar do episódio de Todo Mundo Odeia o Chris, onde Julius e Roxelle vão a um restaurante e, ao perceber que seu prato veio sem repolho, ela reclama com o garçom que, rapidamente retruca “vou chamar o gerente”, Julius diz “Não queremos gerente, só queremos repolho”, e ele repete pausadamente “Eu vou chamar o gerente”.

Ou seja, o garçom, para se proteger de qualquer tipo de agressão, chama o gerente que, diga-se de passagem, falou a mesma coisa que o garçom deveria ter dito (que foi treinado a dizer): a salada de repolho não está inclusa. A autoridade do gerente vale mais do que a autoridade formal do menu. Não seria este um exemplo de argumento da autoridade, onde, a veracidade da informação se dá pela autoridade daquele que a expressa? O garçom não representaria perfeitamente o sujeito sem autoridade, indefeso e autômato?

Julius e Roxelle, acatando o gerente, não foram como o sujeito que aceitou o suco sem reclamar da falta de ética com o cliente e etc?

Não há nada mais confortável que se servir. Confortável para mim e para o garçom (que não existiria, no caso). Aí sempre vem algum nobre liberal pra mandar uma de que “assim, várias pessoas seriam demitidas e etc”

É como o papinho de que greve é ruim pra população, mas isso é pra outro post.

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