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Simone de Beauvoir, Política Corrupta e Violência Simbólica

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Ontem, uma mulher e sua filha foram mortas no Afeganistão por homens armados, sob a acusação de atividades imorais e adultério, porém, a mulher era viúva. No Afeganistão, 87% das mulheres já sofreram algum abuso por parte de homens, seja violência (física, psicológica ou sexual) ou casamento forçado.

Basicamente, caso você tenha vagina, você será um sujeito inferior.

Isso me faz lembrar da declaração de Simone de Beauvouir, sobre os negros nos Estados Unidos, onde, ao perceber que os americanos tentavam fazer descobertas científicas para provar a inferioridade negra, ela declarou, “Isso não é necessário, basta andar nas ruas”. Nem preciso dizer que a mesma foi altamente mal interpretada em relação à essa frase.

Sem muitas explicações, a mensagem da frase é: se você é simbolicamente inferior, reconhecido como tal e se reconhece como tal, então você é inferior. Não significa que objetivamente essa inferioridade seja verdadeira. Ela é simbólica, mas, enquanto existir, enquanto for reconhecida pela “vítimas”, continuará sendo hegemônica… Continuará sendo verdade. Eu coloco aqui a mesma coisa para a questão do patriarcado e suas consequências.

Já fiz um post sobre cliotoridectomia e perguntava, no fim do texto, como seria possível uma articulação de liberdade, quando, na sociedade respectiva, não há nem mesmo o conceito de liberdade? Como protestar pela humanidade da mulher, quando as mulheres não são nem conceituadas como seres humanos de iguais direitos aos homens? Como articular uma argumento quando não se tem linguagem necessária para isso?

Então, reformulo a frase supostamente racista da Simone de Beauvouir: por que tentam, a todo momento, demonstrar uma inferioridade da mulher, por meio de comerciais, piadas, novelas, filmes e etc? Basta andar nas ruas que você perceberá isso. Mas, o que isso significa? Que a suposta inferioridade feminina está incrustado na linguagem.

Esse modo de reconhecimento de massa e etc, também está incluso em outro assunto de suma importância: a política. A política é comunicada como ruim, é reconhecida como ruim, os políticos são tidos como a política personificada, logo, defender algo que envolva assuntos políticos se torna ingenuidade, imaturidade, afinal, “Não está vendo toda essa corrupção?”. Dentro deste contexto o apolítico tem sua posição firmada.

Entretanto, o apolítico é a política ideológica vigente sendo reproduzida de maneira absurda.

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Políticos Corruptos, Devio de Atenção, Tropa de Elite e Cidadão Médio

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Neste texto vou me apropriar de um tema instigado no blog Contra Cultura.

Ultimamente é fácil escutar um “Enquanto isso os políticos roubam em Brasília!”, ou “Contra a corrupção ninguém faz nada!”, quando qualquer tipo de manifestação ou protesto é feito. Por exemplo, no caso do Rafinha Bastos, foi fácil ver a comoção no Facebook de pseudodefensores da liberdade de expressão em disseminar uma publicação com os dizeres: “Brasil: Levam os humoristas a sério e os políticos na brincadeira”.

Desculpa nenemzada, o fato de haver políticos corruptos não anula o FATO de que ainda há diversos outros problemas que também são importantes e que também merecem atenção. Basicamente, exigir uma atenção contra os políticos corruptos quando se vê protestos contra homofobia, racismo, conservadorismo e etc, só demonstra uma tática ideológica de trocar o verdadeiro alvo das ações.

Enquanto toda atenção for desviada para assuntos insolúveis (pois o problema da política é sistêmico, não dá pra tentar fazer nada só por reformas ou protestos anticorrupção), os assuntos onde pode acontecer um impacto maior (como a legalização da maconha), acabam sendo suprimidos naturalmente, sem intervenção repressiva, somente ideológica.

Ou como foi dito no Contra Cultura:

É o fenômeno do “enquanto isso os políticos roubam”. Essa frase é usada sempre quando se quer desclassificar uma questão importante para determinado grupo, seja os negros, as mulheres, as lésbicas, os gays, enfim, minorias em geral. Nos comentários da notícia sobre o novo vídeo feito pela Caixa, agora colocando o Machado de Assis como ele de fato era, mulato, muita gente diz: “pra que perder tempo com essas bobagens? enquanto isso, tem um monte de político roubando”.

Essa frase pode vir de outras maneiras: “e enquanto isso, tem um monte de crianças sofrendo na África”, ou “e enquanto isso a gente tá destruindo o mundo, poluindo o meio-ambiente” e por aí vai.

Há melhor exemplo de tática ideológica para desvio de assunto? Puro alarmismo liberal.

É como em Tropa de Elite, onde a apresentação do cidadão médio sendo o mais natural possível, sem as amarras da sociedade é apresentada como sendo a solução para os problemas do RJ. Basicamente, se queremos acabar com os problemas, vamos bater em playboy que compra maconha de traficante e vamos matar os traficantes. Porém, o grande problema com as drogas não está na sua venda ilegal, mas está na ilegalidade e nos motivos para tal estado.

Na realidade, não faz diferença se meia dúzia de pseudorevolucionários boicotassem o tráfico. Na verdade, a afirmação de que quem compra maconha está alimentando o tráfico é muito mais carregada de carga ideológica que pode parecer. Basicamente, isso é argumento de quem boicota a Coca-cola, ou de quem acha que acha que o problema das drogas é cultural, ou até, por incrível que pareça, individual (a pessoa que se droga, problema dela, ela é culpada, ela usa por que ela quer). Então, e aqui expresso de forma direta, quem compra droga do traficante não modifica em nada a situação atual, pois ela é sistêmica! O boicote ao tráfico como maneira de acabar com algum mal da sociedade é pura massagem no ego. Vão pensar, cambada.

O Capitão Nascimento e a ideologia por trás do BOPE no filme são, assim como o Bolsonaro, a representação do cidão médio conservador, aquele que ignorou completamente as censuras sociais da democracia liberal e quer ser anti herói, pois a única salvação do país é “se livrar das medidas de proteção que só protegem os bandidos”.

 

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