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Yoani no Roda Viva

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O Roda viva com Yoani Sanchéz foi meio lá meio cá. No momento, enquanto escrevo este texto, Gossip Girl passa no SBT, com aquela tradução maravilhosa que faz cada personagem parecer um ser humano com problemas vocais – está melhor que o Roda Viva. Não quero dizer que o programa estava ruim por ser tendencioso, isso não, mas o programa estava morno, estava em clima de “boa hospitalidade”. Mas hospitalidade para quem?

Delicadeza excessiva

Os jornalistas estavam tão delicados com Yoani como Alan é delicado e atencioso com Charlie, quando precisa de uns trocados. Se tirarmos de nossa conta um pergunta mais ácida, feita por Chantal Reyes, ao comentar sobre o título de diplomata do povo de Yoani – “Como você sabe que representa o povo cubano?”

Apesar dos rodeios – e que rodeios, ela girava tanto em torno de cada pergunta que me fez gorfar um suco de manga – é necessário ver a entrevista e notar que a falta de conteúdo expresso é uma boa evidência da falta de sua teoria ser bem alicerçada. O que isso significa? Que ela é financiada pelo EUA? Eu não sei, mas isso se encaixa com a descrição já bem sabida do ativistas pós-modernos: pouco conteúdo e muito berro.

Definir-se é limitar-se (!?)

Ela não se define, muito provavelmente para ainda ter a opção de transitar por todos os lados quando bem quiser sem ser importunada por isso, mas, vejamos, uma posição não precisa ser imutável, então, por que não se definir? Eu creio que posições políticas são, também, artigos de consumo – não se definir, não se delimitar, é ter a possibilidade de consumir qualquer posição dentro do leque de opções.

É provável, também, que não se posicionar seja, além do leque aberto para o consumo, uma maneira de não se queimar, afinal, sua fama é de ser uma marionete americana, uma reafirmadora da ideologia dominante (o que não é mentira) – Eu só fiquei sentindo falta de um incendiário para botar fogo naquele programa.

A entrevista está mais pra baixo:

Yoani Sánchez e sua função social

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Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

Morte de Kim Jong-Il, Personificação do Estado e Brecha na Liderança

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Com a morte de Kim Jong-Il, estabelece-se uma tensão na Coreia do Sul, uma preocupação com possíveis ataques, já que o peso que equilibrava a situação delicada entre as duas Coreias era a “estabilidade” levada pelo então líder do país. Essa “estabilidade” temporária faz parte da imagem de ditador sanguinário aloprado que os meios de comunicação distribuíam aos espectadores. Kim Jong-Il era um Calígula moderno, pelo menos é assim que sua imagem é transmitida. Sem contar com o suposto drama nuclear e a ajuda nobre americana à Coreia do Sul.

Não há dúvida de que a Coreia do Norte era uma ditadura totalitária dinástica, era um stalinismo de olhos puxados, e é exatamente por isso que a morte do líder foi ocultada durante dois dias, até ser anunciada pela tv estatal. Se um ditador totalitário é a encarnação de seu regime, a morte do líder é a desestruturação do mesmo. O culto a personalidade, toda propaganda de endeusamento do ditador, fez de sua morte a morte de algo maior que um líder de um país, a morte de um líder de vida, destinado ao que fez.

Dentro desta perspectiva, aliando também o significado simbólico do próprio líder autoritário, é notável que somente com a morte dele que pode haver alguma mudança real, significativa, e seja ela qual for, no regime autoritário. Melhor, é necessário haver a morte simbólica do líder (para haver a morte simbólica do sistema por ele representado). Percebam em Cuba, onde a força simbólica do Fidel tem diminuído, porém, mesmo assim, nenhuma reviravolta -esperada- aconteceu. É a espera pelo momento messiânico, pela morte de Fidel e o fim do sistema comunista cubano.

A morte de Jong-Il  não foi declarada no mesmo instante que aconteceu pelos mesmo motivos que a morte de Stálin também não foi, ou que a morte de Fidel não será. É necessário preparar um novo substituto simbólico para assumir a representação do sistema. Desta forma, não há a brecha exposta da falta de poder ou de administração no sistema. Não é demonstrado o caráter não-popular e não-democrático do Estado em forma crua.

Se a morte é divulgada e não há um sucessor definido, a representação simbólica do Estado fica a vagar, já essa falta de lugar fixo para representatividade do sistema, depois de sanada em público, ou seja, com a “coroação” do novo líder sendo feito tudo em esfera pública (desde a preocupação com a liderança, até a própria declaração de “secretário-geral”), remete automaticamente ao caráter totalitário do sistema – oras, o novo líder foi nomeado por qualquer um e, de repente, tomou o poder do Estado. Isso revela mais um caráter pessoal de política do que realmente um caráter político ideológico.

Logo, a própria nomeação em meio à turbulências leva à conclusão de determinado regime ser, na verdade, um regime pessoal. A nomeação acontece anteriormente, já planejado, remetendo a representatividade do Estado como sendo algo maior e em uma realidade diferente do próprio líder. Como um ser ontológico.

Para nós, a crítica é sempre óbvia e reta, mas, para eles, com todo o culto à personalidade, com a falta de informação nos veículos de comunicação de massa, qualquer brecha pode desencadear aquilo que a própria situação material pulsa – uma revolta violenta.

United We Stand, Leste Europeu e Cuba Messiânica

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United We Stand é um curta metragem dirigido por Hans Petter Moland, de 2002. Este curta me deixou bem interessado, a história toda é simplesmente bela, pois trata com alegorias a derrota do eixo comunista do leste europeu.

Basicamente, no curta, um grupo de velhos amigos (no sentido simbólico e literal) vão para a área florestal de uma cidade, passar uns dias, só como diversão. Logo no início tem-se a declaração óbvia da crítica, todos os amigos, dentro de uma van, estão cantando músicas da Internacional, e quando chegam à parada, para deixar o carro e entrar na floresta, o amigo jovem e cego é noticiado que alguns dos velhos morreram. Achei essa cena o máximo! É a caracterização da notícia ruim disfarçada, o velho que está conversando com o rapaz cego não fica triste ao avisar sobre, fica sem graça!

Enquanto os velhos são os países associados da URSS, já decrépitos, prontos para falir, o sujeito cego é a representação perfeita do idiota que acredita no sistema falido do leste europeu. Porém, a facada final vem com a reação do rapaz cego ao saber da morte de alguns dos velhos: ele dá um sorrisinho meio sem graça, tentando não perder a motivação na presença do grupo de amigos.

Após esta crítica à camada que, idiotamente, acredita no leste europeu, o fracasso final retorna com a morte de todos os amigos, num pântano.

Ao salvar uma mulher que estava afundando na areia movediça, eles ficam presos no pântano e esperam calmamente por uma ajuda. As falas de cada personagem foram muito bem colocadas: todos reconhecem a beleza da moça, sua jovialidade e sentem-se (ironicamente) gratos por ainda conseguir ajudar alguém, depois disso, reparam que estão na posição dela. Ou seja, aqueles que a ajudaram agora estão prontos para afundar.

Assim como o capitalismo quando as revoluções comunistas começaram, quando pensaram que o mundo todo seria comunista. Entretanto, aconteceu o contrário, os regimes comunistas se tornaram burocracias e caíram.

A espera por ajuda é mais estressante ainda. Todos, calmamente, esperam pela ajuda que não chega e, por fim, cantam uma música. É tão sombria quanto uma marcha fúnebre – é uma música da Internacional.

Depois a câmera mostra somente as mochilas dos rapazes deixadas no lado firme do pântano, enquanto foca o vazio no local onde estavam. A derrota foi comprovada, a morte silenciosa é a morte tragicômica
de uma utopia. Feliz, ideologicamente feliz. Este filme é uma expressão popularmente liberal da Queda do Muro de Berlim.

É a expressão da suposta falta de realidade nas afirmações comunistas onde, cada velho amigo é a representação do comunismo soviético e da mentira na posição de verdade, característica do espetáculo. Todos acreditam piamente na salvação, e esperavam tranquilamente por ela. Quando a mentira passa a ser verdade, a verdade é um lapso da realidade. Acredito que essa seja a mensagem básica do curta.

A certeza na ajuda me lembra até mesmo a certeza dogmática da salvação cristã, quero dizer, a espera do messias para desalinhar o reto e, milagrosamente, refazer a realidade, mostrar o caminho da salvação. Esse estado de inércia, essa espera pelo messias, é a mesma que ocorre, por exemplo, em Cuba, onde a espera pelo evento messiânico é a espera pela morte de Fidel. Todos já sabem que Cuba faliu, que está viva por magia, mas somente quando a personificação cair que o caos da desorganização geral tomará conta da ilha. Depois da morte de Fidel, tenham certeza, Cuba entrará 100% no mercado global, a não ser que uma autoridade que se aposse simbolicamente do sistema cubano entre em cena.

Todos vivem pela espera do evento messiânico, todos estão com os dedos cruzados para seu acontecimento, ao mesmo tempo que essa espera se torna o ópio para revoltas de cunho anticomunistas. Pra que se arriscar numa revolta se, a qualquer momento, o regime cai?

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