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Arquivo da tag: dominação

Crimes de Gênero Atuais

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Como bem lembrou Maíra, do site Território de Maíra, é necessário lembrar que a relação dos crimes contra mulheres dos últimos anos está na relação de dominação entre gêneros. Não são crimes comuns, aleatórios, cotidianos (não levem a mal), mas são, isso sim, crimes que tem como condição de possibilidade uma sociedade machista.

São crimes que acontecem não por que os indivíduos que o cometeram são “maus”, mas sim, por que a sociedade em que vivemos forma sujeito como estes. Que o machismo é estruturante, que ele não é fruto individual de uma ação errada, mas de fruto coletivo de uma reprodução de estruturas de dominação em diversas esferas da vida. Tratar esses crimes como espetáculo é esquecer que eles não são roubos de galinha, mas são, por sua vez, uma sociedade machista se expressando como tal.

Eliza Samúdio, Mercia Nakashima, as mulheres na índia, no oriente médio, nos grupos cristãos fervorosos, todas elas são vítimas de um sistema que não dá chance para oposição.

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Homem Estuprador, Poder e Gênese do Masculinismo

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Se um sujeito nasce, cresce, em suma, vive num ambiente de linguagem completamente machista, onde o homem é o dominador, o agente ativo, aquele que delimita as ações dos outros, aquele que tem o poder de fazer o mundo sua imagem, há como fugir completamente disso? Mesmo sendo conscientemente contra tais coisas, contra tais relações de poder, há como ser completamente imune?

Eu, realmente, não sei responder essa questão… O grande problema é que, logo após pensar sobre isso, me veio outra questão clássica, que era quase risível, que comumente é feita por pessoas extremamente idiotas: todo homem é um estuprador em potencial? Se pararmos para ouvir os papos neutros da galerinha da sauna, percebemos que sempre alguém vem com aquela velha ideia da pílula do esquecimento.

Se você desse uma pílula do esquecimento para uma mulher, onde ela não se lembraria de nada que aconteceu e você, por consequência, nunca seria pego por violação nenhuma, você a estupraria? Você cometeria estupro se não houvesse possibilidade de ser pego? – Esse é o conceito da pergunta. E aí, estupraria?

A pergunta parte de um pressuposto de que todo homem já é um estuprador, só que controlado. Todo homem é um estuprador em potencial, porém, com as normas repressivas, não cometem tal ato. Eu sempre achei uma ideia meio idiota – como podem partir do pressuposto de que já somos estupradores?

Porém não consigo achar tão idiota assim, agora.

Se o sujeito assimila uma linguagem na qual ele é o poderoso, na qual somente ele pode ser estuprador e, por convenção heteronormativa, nunca estuprado. Como considerar que ele não será (ainda) um estuprador reprimido socialmente?

Essa é minha pergunta e eu peço pra que respondam, por favor, pois eu queria muito conversar sobre isso. Partindo dessa lógica, o homem seria já um estuprador que se controla pra não realizar o ato, o que não impede a existência do conceito já assimilado. Ou seja, o homem sabe que é poderoso, que é agente ativo, mas tem o bom-senso, a amabilidade, de não exercer seu privilégio.

Não seria essa uma contradição da sociedade atual, onde há o significado simbólico da superioridade masculina, porém, também há repressão formalizada em forma de leis e sanções morais caso o ato seja realizado? Você pode ser um estuprador, pode saciar essa vontade supostamente animal, você tem esse poder, mas, caso o faça, será punido gravemente.

Será essa a fonte do masculinismo, exigindo a supressão das atividades que expressem a mulher como sujeito ativo e, desta maneira, as mantendo de forma passiva, onde não há o desafio do estupro, pois ele é natural, acontece nos pequenos atos e na totalidade da relação, onde há a passividade absoluta da mulher e a atividade absoluta do homem? Agora ele sente que tem o poder, sente que pode utilizar (o estupro) e que não precisa do estupro (o significado popular, sexo e dominação, sem consentimento). Ou seja, sua dominação já está saciada, sua suposta animalidade já está afirmada. O estupro é cotidiano e contínuo, não há necessidade do estupro na forma de sexo e dominação.

Restaurante, Submissão, Autoridade e Todo Mundo Odeia o Chris

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Hoje eu almocei no lugar onde eu sempre almoço, de boa, tranquilo, comida gostosa, pessoal gente fina, etc e etc. Depois que a gente se serve, precisa pedir o que vai tomar e esperar na própria mesa, lá eles entregam o suco, refrigerante, café, seja o que for… O modo como acontece essa entrega é aquele comum: a pessoa coloca o copo de suco (por exemplo) na bandeja, chega à mesa do sujeito que está comendo e coloca o copo sobre a mesa. O que achei interessante foi a dona do lugar levar o copo sem colocar na bandeja e servir o sujeito que estava comendo. Ele não reclamou, nem olhou torto.

Esse modo de servir o sujeito que está almoçando, com toda a submissão ao Senhor cliente, já com aquele pressuposto da autoridade máxima do sujeito que compra os serviços que, porventura, pagarão seu salário e etc, essa relação de submissão de quem serve para quem é servido já é uma merda. Isso já me deixa constrangido de ir à maioria dos lugares. Nem dá pra contar nos dedos a quantidade de vezes que presenciei os clientes exigirem determinadas coisas que são tão inúteis quanto aquilo que eles fazem da vida.

As exigências inúteis só traduzem esse poder, essa autoridade do cliente sobre o sujeito que está lhe servindo. Referenciando o papel do sujeito que serve (garçom e garçonete) com o dos escravos, rebaixando da mesma maneira. Os escravos ainda existem, ainda fazem o que faziam, mas agora são assalariados e podem comprar um produto no fim do mês para massagear a revolta de ser um neoescravo.

Eu digo, essa analogia com escravo não está somente no trabalho, mas em todo conteúdo histórico acoplado nele. Servir, lavar, enxugar, servir, abaixar a cabeça, o Outro tem razão, servir, etc e etc.

Aí entra a ação da dona do restaurante. Ela serviu sem seguir as regras que ela própria determinou (ou melhor, que a sociedade determinou, ela só o fez formalmente). Ela demonstrou sua autoridade em fazer o que quer, já que, oras, o restaurante é dela. Ela é a autoridade máxima do lugar. Essa frase é confirmada pela não-ação do cliente, ele não fez nada por que sabia que era a dona que estava servindo. Não era qualquer garçonete submissa sem autoridade, era a dona. Ela pode.

Isso me faz lembrar do episódio de Todo Mundo Odeia o Chris, onde Julius e Roxelle vão a um restaurante e, ao perceber que seu prato veio sem repolho, ela reclama com o garçom que, rapidamente retruca “vou chamar o gerente”, Julius diz “Não queremos gerente, só queremos repolho”, e ele repete pausadamente “Eu vou chamar o gerente”.

Ou seja, o garçom, para se proteger de qualquer tipo de agressão, chama o gerente que, diga-se de passagem, falou a mesma coisa que o garçom deveria ter dito (que foi treinado a dizer): a salada de repolho não está inclusa. A autoridade do gerente vale mais do que a autoridade formal do menu. Não seria este um exemplo de argumento da autoridade, onde, a veracidade da informação se dá pela autoridade daquele que a expressa? O garçom não representaria perfeitamente o sujeito sem autoridade, indefeso e autômato?

Julius e Roxelle, acatando o gerente, não foram como o sujeito que aceitou o suco sem reclamar da falta de ética com o cliente e etc?

Não há nada mais confortável que se servir. Confortável para mim e para o garçom (que não existiria, no caso). Aí sempre vem algum nobre liberal pra mandar uma de que “assim, várias pessoas seriam demitidas e etc”

É como o papinho de que greve é ruim pra população, mas isso é pra outro post.

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