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Conversa de Trem, Anacronismo e Liquidez Moderna

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Hoje eu estava voltando de trem para casa e não pude deixar de escutar uma conversa muito boa entre dois amigos, um homem e uma mulher, a respeito de suas relações e das relações do amigos. O papo foi interessante de ambos os lados, vejamos.

O rapaz a todo momento dizia como o amigo dele foi errado em não dar valor para os relacionamentos onde a namorada realmente gostava dele, realmente se importava com ele e etc, e que sua namorada atual “só dá vexame”. O ponto alto foi a afirmação de que o rapaz deveria “ensinar ela. Dizer como se comportar, mandar ela parar de conversar alto” e etc. O que concluo disso? Bom, a moça deve se desprender de seus costumes, sejam eles quais forem, pelo namorado? Pela convivência em grupo? Esse não é o ponto.

Pra mim, o ponto é: o rapaz precisa ensinar sua namorada a se portar perante a sociedade, enquanto namorada dele. O que temos aqui é a velha noção do patriarca que, literalmente, cuida/educa da esposa. Vale dizer que não há nada de romântico nisso, pois logo que percebemos que o valor social da mulher se esvai, vaza pelo “bom” tratamento recebido, já ficamos perto de ter a resposta indesejada – a mulher se torna um sujeito “reciclado”, simplesmente não-livre.

Não é só um “toque de amigo”, é a utilização da autoridade masculina e, obviamente, não se trata somente de uma relação individual, não é culpa do rapaz, apesar dele ser responsável imediato, nem culpa da moça em aceitar a autoridade, caso aceite – é um fenômeno social e somente neste âmbito pode ser resolvido. Óbvio que não significa que devemos esquecer dos atos em âmbito individual, também é necessário negação da ordem neste âmbito.

Apesar deste comentário, o que me deixou também muito interessado foram os comentários da mulher, amiga dele. Ela dizia, “hoje penso primeiramente em mim, depois na família, depois nas outras pessoas. Se tá tudo bem pra mim, aí eu vejo se posso fazer alguma coisa pelos outros. Já cansei de levar os outros em consideração e a mim por último”. Ou seja, ela “começa a se perguntar com maior frequência “o que eu ganho com isso” e exigir mais resolutamente dos parceiros e de todos os demais que lhes deem “mais espaço” – ou seja, manter-se distanciados e não esperar, totalmente, que os compromissos assumidos durem para sempre”.

É a demonstração de como os relacionamentos, sejam eles de afetividade, econômicos e etc, são cada vez mais líquidos e que seus participantes são cada vez mais individualistas e… inseguros. O outro já é um inimigo, nunca uma esperança. Ou melhor, o outro já assume seu papel de mercadoria, que pode ser tratado como um ser dispensável. No fim, não há mais relacionamentos, mas sim, conexões – fáceis de serem quebradas, supostamente leves e libertadoras.

Dentro dessa conversa, já é possível ver a união do novo e do antigo, uma coexistência do patriarcado enferrujado e da liquidez moderna, no entanto, essa união é das pontas nojentas da modernidade e da, digamos, antiguidade.

Não é esse o cenário brasileiro, como um todo? Uma política econômica liberal se estreitando com uma moral de viés conservador?

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