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Oposição Comunista x Capitalista

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Em conversas cotidianas, conversas com populares, estudantes, trabalhadores especializados ou não, é comum notar, quando se toca no assunto, é claro, que a oposição comunista x capitalista norteia o significado destes dois termos, de maneira que um é aquilo que o diferencia do outro. Como se fossem análogos, mas com sentido inverso. Isso se reflete em comentários como “Se é comunista, por que trabalha?”, “Por que tem casa própria?” e etc. Mas o que eu queria argumentar é justamente que esta oposição não existe.

O Típico Garoto Pera-Com-Leite Que Manda As Gafes Do Primeiro Parágrafo

Categorias De Análise

Se pararmos para pensar, perceberemos que a oposição em que uma sociedade de classes se constrói, pautada no sistema econômico, é entre proletário x capitalista. Sendo este o detentor dos meios de produção e aquele o possuidor somente de sua força de trabalho que, portanto, precisa vender para conseguir sobreviver numa sociedade capitalista. Proletário e capitalista são duas posições possíveis na estrutura econômica capitalista atual – Mas comunista não é; comunista é uma posição possível em uma estrutura política, quero dizer, ser comunista é relacionado à ação política, à ações que manifestamente corroboram com um ideal de sociedade comunista.

Dentro da estrutura política é mais razoável colocar a oposição entre direita x esquerda, estando na esquerda o comunista, anarquismo e etc, e na direita o liberalismo, conservadorismo, social-democracia e etc.

Desta forma, se tentarmos junta tudo em uma análise político-econômica, chegaríamos num sistema de posições possíveis onde Engels seria classificado como capitalista (já que era detentor dos meios de produção) e comunista (por sua vida política). Não é gafe definir Engels como comunista, assim como, se obedecermos o rigor da classificação, também não será gafe coloca-lo na trupe dos capitalistas.

As Possibilidades Da Estrutura

Ao dizer que Engels foi uma capitalista comunista, eu também posso dizer que não é possível ser uma proletário capitalista, por que estas duas posições dependem uma da outra para existir – formam um sistema onde se definem exteriormente, pela diferença com os demais. Dentro do sistema econômico, as classificações lá contidas são excludentes, não se confundem, mas podem mesclar-se com as classificações de outros sistemas, como do político.

O Comunista Capitalista

O que restringe, na verdade, diminui a probabilidade de se encontrar mais capitalistas comunistas é a complexidade da vida social – ela não é fria e racionalizada, não é um grande cálculo – há outras coisas em jogo, há todo um capital simbólico que flui e se acumula em torno de ações de cunho moral, por exemplo. A honra, a hipocrisia, a dignidade, o trabalho (enquanto valor) são forma de acumular ou denegrir capital simbólico. O que não leva um comunista a ter planos futuros de ser o diretor de uma indústria de carvão é a contradição que isso expressa simbolicamente – é o fato de que a responsabilidade do diretor de empresa é reproduzir e segurar um sistema de desigualdade. Ele (o diretor) é uma das autoridade neste aspecto.

Entretanto, não se deve ficar iludido, pois se se está dentro de uma sociedade capitalista, não há como fugir da sua lógica auto-reprodutora. Por isso que somente uma revolução poderosa pode inverter as relações sociais, por que, no cotidiano, elas se reafirmam continuamente.

Ideologia Mediando A Hierarquia

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Um plano linear de carreira que nos faz esquecer que cada legenda representa uma posição na estrutura de trabalho e não você, indivíduo trabalhador. Portanto, a posição fica, mesmo após você deixá-la.

Há uma coisa que eu via muito com meus antigos companheiros da faculdade – eu fazia um curso voltado totalmente para a indústria e a indústria é, obviamente, marcada por hierarquias muito bem formalizadas e claras – eles sempre reclamavam da posição que ocupavam na hierarquia (todos eramos trabalhadores das primeiras linhas da hierarquia, assistentes administrativos, trabalhadores de linha de produção, manutenção, assistentes de laboratório e etc).

Reclamar da posição que se ocupa é um direito muito legítimo. Realmente, não há nada pior do que realizar trabalho robotizado ou burocrático incessantemente e, ainda por cima, ser subjugado e dominado por um chefe que, no fim das contas, não tem esse direito por natureza, como parece ser. Mas o que me deixava receoso era o final da reclamação: no fim, sempre havia a esperança, a utopia, o plano futuro da situação ideal de trabalho; este plano era tornar-se um chefe.

Manutenção da Hierarquia

Uma das funções da ideologia é inculcar estruturas hierárquicas de forma que pareçam naturais, imutáveis. Essas estruturas retiram o conteúdo humano da relação de trabalho e faz se tornar uma relação de trabalho mediada por uma coisa, por uma imagem, ou seja, por uma estrutura opressora imutável.

É tudo questão de escolha?

Desta forma, o antagonismo é disfarçado, fantasiado, e as relações de dominação e exploração são substituídas por relações morais – são substituídas pelos deveres do empregado e do empregador, e são mediadas por uma estrutura de dominação naturalizada, conforme o parágrafo anterior. A ética no trabalho é, muitas vezes, uma tentativa de docilizar o trabalhador, colocando contra ele uma série de armas que ele próprio poderia utilizar, sejam elas consideradas leais ou não, como as informações industriais secretas de uma empresa, além de homogeneizar o corpo de trabalhadores, impondo maneiras de se vestir, de se portar e de se apresentar.

São essas estruturas inconscientes (para usar um termo da sociologia pós-estruturalista) que mediam as relações entre os indivíduos (como a hierarquia do trabalho), que não são pensadas nem discutidas, mas, em última instância, são formadoras da realidade, que Guy Debord chamaria de espetáculo. Esta ideologia que está na espreita de qualquer relação e que não consegue ser conceituada, só designada, que só suscita imagem, mas nunca significado, é esta terrível dominação que não dá chance de defesa que podemos chamar de espetáculo.

Espetáculo É Cotidiano

Guy Debord

Eu creio que isso não precisa ser aplicado só ao trabalho, mas a qualquer grupo. Em um grupo social qualquer, por exemplo, vemos que há regras implícitas no seu funcionamento. Essas regras delineiam um possível líder (declarado ou não). Quando um indivíduo do grupo não consegue incorporar as regras e recebe inúmeras sanções (como abuso moral feito pelo líder), ele passa a racionalizar essas regras, a reproduzi-las conscientemente, mas sem consciência de que se trata de uma reprodução. O que isso significa? Que o indivíduo vê as regras, como num livro, mas elas não foram inculcadas.

Este mesmo indivíduo acaba, por sua vez, reproduzindo as regras que o oprimem e, portanto, oprimindo, também, os outros indivíduos. É óbvio que não se deve colocar toda a carga de culpa naqueles que reproduzem as regras do grupo, afinal, obedecê-las faz parte de estar no grupo. Mas quando o oprimido não percebe sua opressão como tal, aí deve-se tomar cuidado.

É isso que acontece com o não-adaptado que precisa seguir às regras como se estivesse fora de sua posição. É quase como uma evasão: ele se afasta de si e se olha por fora, externamente, depois, quando volta a si, faz uma imitação de si. Não é ele mesmo, mas a tentativa de ser aquilo que as atribuições do grupo o obrigam tomar.

O Esforço Em Ser Patológico

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No dia da apresentação do curso que me matriculei, isso há um ano, o professor falou sobre as possibilidades de um especialista em sócio-psicologia e apontou uma contradição na forma de perceber as coisas atualmente: o indivíduo como o único responsável por sua felicidade, como se vivesse sozinho no mundo (esta visão é propagada em grande escala por livros e palestrante de auto-ajuda empresarial pseudo-existencial); e o indivíduo como nunca responsável por si, já que a biologia explica o por que de determinadas ações como exterior à consciência do agente: até mesmo o roubo pode ser justificado por algum gene em específico. Basta citar que não é visto com estranhamento em roda de conversa nenhuma.

Depois de ver tantas “lutas de doença” – vocês sabem, quando duas pessoas, normalmente idosos, começam a fazer uma disputa verbal sobre quem é mais doente. É legal que, normalmente, eles nem sabem que estão disputando uma posição superior na hierarquia, com esta disputa e que o vencedor da disputa, no fim, é o que está mais perto de comer capim – a gente começa a pensar se ser mais doente não teria uma função latente para firmar o sujeito em uma posição de “vida sofrida”, que, por sua vez, justifica toda uma vida de não satisfação das exigências do super-ego e da inalcançabilidade do Ideal de Eu.

Aí, quando qualquer comportamento é patologizado, já podemos ter certeza que a ordem vigente está se hegemonizando: está criando argumentos para se firmar como verdade imutável, afinal, não se muda uma determinação genética, não se culpa um doente e etc e etc. Se não se muda a genética, então qualquer comportamento padrão atual, qualquer um que manifeste alguma relação de dominação, como aqueles que reproduzem o racismo, são colocados como uma “coisa” imutável, que está na entranhas do organismo biológico – a ação pára de ter um significado social e somente sua “neutra” (bote muitas aspas) e fria interpretação biológica dita as regras.

Yoani Sánchez e sua função social

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Sinceramente, não me parece que a Yoani tem muita coisa para oferecer a respeito de cuba. Digo isso após ler esta entrevista e verificar que, assim como muitos fora da ilha, ela não faz ideia de como Cuba sobrevive – o problema é que ela é de dentro da ilha. Na verdade, se for ver bem, ela morava na Suiça, então, por ligações familiares (sei lá, saudades) resolveu voltar e ficar com a família na maldita ilha dominada por crápulas. O problema é um: se a ilha é tão ruim, como ela saiu e voltou sem nenhum problema? Se a ilha é tão ruim, por que é o país com a 10ª maior movimentação migratória para os EUA e não o primeiro (levando em conta que os EUA tem uma lei que retira todo tipo de burocracia para qualquer um de Cuba que queria entrar no país – é quase como uma forma de incitar as saídas)?

Não sou idiota, não nego que o país não vive num paraíso, mas não sou idiota de considerar que todas as informações que saem de lá são fruto da “mídia manipulada de um país ditatorial”. Convenhamos, as estatísticas sobre saúde, moradia, emprego e educação são internacionais, não vieram de uma pesquisa de esquina produzida em laboratório conspiratório cubano. Como lidar com Yoani? Qual é a sua função? Por que ela tem tanta importância na mídia internacional?

Eu creio que ela é a salvadora da ideologia – ela é aquela que, mesmo sem autoridade e sem evidência nenhuma (até mesmo contra as evidências) reafirma as ilusões sobre Cuba. Todas as ideias propagadas por grandes meios de comunicação sobre o país costumam ser ideias embebedadas pela ideologia dominante. Tem como pressuposto o ensaio do inferno instalado em Cuba. Tem como princípio o terror comunista digno de filmes hollywoodianos – Como essas ideias vão ser alicerçadas? Com fundição reacionária. Quando se vive em uma sociedade que se funda na recusa de um outro determinado tipo de sociedade e, pior ainda, quando há a hegemonia nos meios de comunicação desta ideologia alarmista e pseudo-defensora das liberdades individuais, é um caminho lógico deduzir que qualquer informação mais geral está imersa na luta que é negada desde a queda do Muro de Berlim: a luta entre um sistema que representa um grupo dominante contra todos aqueles que estão sob seu domínio; mas essa luta não deve aparecer como tal, não deve aparecer como antagonismo, não é confortável deixar essa imagem à vista – ela deve ser escondida e qualquer oposição deve ser colocada como o anacronismo concentrado.

Neste contexto, Yoani é a legitimação da ideologia. Ela é alguém de dentro do inferno que retrata com confiança (pois não foi maculada com a porcada comunista) o território inimigo. Não importa o que ela diga nem como diga, o que ela falar terá uma dose de confiança e será endossado pela opinião pública – afinal, ela “estava lá pra ver” (como se só ela fosse capaz de enxergar algo).

Nesta entrevista em particular, quando perguntada sobre alguns fatos e sobre algumas situações em Cuba, sua resposta sempre é de desprezo ao regime ditatorial, entretanto, quando não há como sair da sinuca de bico, ela nega dados de pesquisas, nega fatos como um “na minha opinião, não. Esta é minha opinião”. Em um dado momento, ela diz que a educação e saúde não melhoraram tanto assim – quando respondida pelo jornalista com dados concretos sobre a melhora, continua dizendo algo que se parece muito com a birra de um adolescente de cidade globalizada “Não, por que não quero e essa é a minha opinião”. Este tipo de resposta incorpora o sujeito pós-moderno que acredita ter a medida de todas as coisas em suas mãos – entretanto, não é assim que funciona. Cada indivíduo poder a opinião que quiser, mas, caso ela não esteja a par com a realidade, então, ela está errada. É sua opinião, você tem direito dela, mas sua opinião está errada. Nem tudo é relativo e nem tudo dependo do ponto de vista.

Ao ser indagada sobre o suposto sequestro e violência policial, ela reafirma o caso e diz ter provas: tem fotos das agressões – quando perguntada do por que de não ter levado estas fotos à mídia, responde que só quer mostrar em tribunais. Quando perguntada sobre o fato de não ter marcas no corpo um dia depois do suposto ocorrido, responde que os violentadores eram “especialistas”. Não há nenhuma lógica no discurso – na verdade, se for ver de maneira mais demorada, é a mesma lógica do “eu sei e não vou te contar”. Ela foi agredida, afirma que tem provas, mas não deseja mostrar. “Opção dela”. Como acreditar realmente em qualquer tipo de situação quando TUDO que se tem para confirmá-la está “guardado para a hora certa”?

Vejamos, não se trata só de violência de gênero, se trata de violência política – mas, a situação como um todo, tem função também legitimadora das ilusões capitalistas sobre Cuba. Haver um caso contado mas não provado sobre agressão por motivos políticos é uma reafirmação de que Cuba é o inferno na terra, é Mordor à pleno vapor. Como esta ilusão já está bem localizada na ideologia dominante, ela não precisa de evidências, pois só um comentário a respeito que se sincronize com a imagem que se tem estruturada sobre Cuba já a faz ser verdadeira. Lembremos, somente aquilo que foge da realidade é desconfiado – a “realidade” de cuba (realidade passada pela ideologia) é essa sala de torturas e essa ditadura pessoal transmitida de maneira recorrente pela mídia.

Existe, então, uma razão para haver discursos tão pobres mas que trazem de um jeito tão fantástico a atenção internacional: são discursos que reproduzem a própria ideologia. Por que ainda existe racismo (algo já “batido”)? Por que não se trata de um ódio individual, mas de uma relação de dominação estrutural em nossa sociedade que, em grande parte, nem depende da moral dos indivíduos, mas se impõe a elas. É inconsciente e implacável.

Desta forma, creio que Yoani Sancéz é uma personagem de fôlego para a ideologia, é uma personagem que trabalha para manter a ilusão a respeito da ilha – claro, sem intenção clara, mas, o fato de pertencer à ilha, a faz ter esse papel de destaque.

Certas Formas Legítimas Do Saber Cotidiano

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Existe uma oposição muito fácil de se perceber na música e na criação musical: a técnica/conhecimento teórico X Feeling/Liberdade de Criação.

Como se a técnica e o conhecimento teórico fosse “travador” da criatividade, que, por sua vez, só seria livre para se expressar sem as regras da teoria musical e o feeling só seria realmente mostrado sem o uso da técnica, facilitadora de demonstrações inúteis. Isso parece ser verdade num primeiro momento, afinal, a regra é aquilo que delimita uma lógica e, portanto, é aquilo que delimita caminhos corretos e caminhos errados, caminhos possíveis e caminhos impossíveis.

Mas Caudwell já examinava que a liberdade só existe como controle das determinações da natureza, como conhecimento da lógica do sistema e, portanto, não há como definir liberdade em uma jarra vazia de conteúdo – não há como exercer a liberdade quando não se tem o saber dos símbolos socialmente construídos, não se exerce a liberdade sem se ter aquilo que se exercer. Não dá pra se alimentar de um prato sem comida.

Em suma só se pode dizer que há liberdade de criação quando há conhecimento daquilo que se cria, já que a liberdade só consegue ser exercida dentro da esfera de possibilidades de se exercê-la e essa esfera de possibilidades só cresce com a acumulação de conhecimento acerca daquilo que se pretende dominar. Logo, não ter conhecimento sobre música não dá mais liberdade, mas, pelo contrário, limita ao básico já aprendido, ao básico já incorporado.

Se não se estuda sobre um assunto, aquilo que dá base para articular algo a respeito do assunto é um arcabouço geral de conhecimento: o senso comum. Todos sabem que o senso comum não é um baú muito confiável de conhecimento e muito menos completo. Logo, as categorias de percepção que são pautadas no senso comum, são as categorias que são pautadas em um conhecimento e em uma forma de classificação já dada (ideológica por excelência, já que aquilo que é “dado” – evidente por si – é produto óbvio de uma relação de dominação de um grupo dominante sobre grupos dominados).

A faculdade da vida não passa de senso comum.

Talvez o mesmo possa ser aplicado à oposição Leigo X Intelectual, que é estruturado em oposição associadas, como Humilde X Arrogante e Vida Interessada X Vida Desinteressada. O leigo, associado ao sujeito que tem como conhecimento aquilo que a vida prática lhe deu, que “se vira” dessa forma e que é, por conta disso, humilde em relação à vida – ao contrário do intelectual que tem a pretensão de explicar o mundo, assumindo uma posição de arrogância, onde deslegitima a visão do leigo.

Isso me parece uma dupla dominação.

Primeiramente ela justifica e pedestaliza a posição de leigo – a ignorância é legitimada, o senso comum é legitimado. Segunda que, a maioria dos intelectuais que têm esse injusto papel de, de alguma forma, quebrar o senso comum, são também àqueles que querem quebrar a ordem vigente, logo, classificá-los como arrogantes e distanciá-los de qualquer validação popular é uma ótima maneira de anular seus discursos.

Tentativa de Refundar o ARENA – Não é Trollagem

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A tentativa de refundar o ARENA tem como pilar argumentativo que não há direita no país e que aquilo que foi feito na ditadura militar não era atividade do partido, mas das pessoas que foram eleitas e estavam no poder. Em outras palavras, não foi o partido que torturou, foram pessoas físicas.

Todo o restante do discurso conservador-nacionalista de atividade moderada, de virtude da via-média, também está incrusto nas entrevistas da líder dessa tentativa torta de recriar uma direita de verdade – assim como a maioria das ações da direita, esquecendo do anacronismo conservador em relação aos problemas sociais atuais.

Não haver direita no Brasil é quase como cuspir pro céu e ficar esperando a meleca voltar para a testa. Os centristas e liberais que a nova iniciativa recusa não são considerados de direita: a direita de verdade “honra pai e mãe”, estupra o trabalhador brasileiro, mesmo, não aguenta a intromissão de outros estupradores nascidos em diversos países já bem desenvolvidos. Valorizar o que é nosso, valorizar o conservadorismo feito em casa.

Mas eu considero como mais engraçada a tentativa de livrar a ARENA de qualquer responsabilidade por ações da ditadura, por ser somente um partido, não o executor – “partido faz política”. Se no bipartidarismo a ARENA era a representante da ditadura, como se faz para desvencilhar as ações da própria ditadura com sua representante na pseudo-democracia bipartidária? Este argumento é espetáculo, pois afasta a relação direta e prática existente em o partido e os indivíduos que são autorizados para executar o que quiserem sob seu manto.

É uma tentativa de fazer da política uma abstração, onde o político só é responsável por si e o partido só pelo seu nome. Desta forma, o partido não existe, o que existe são pessoas. Nada mais idealista, pois o partido é um centro de poder e organização que coage e organiza seus membros para determinados fins. Para atender seus interesses. O partido não existe como forma física, mas existe como organização, existe como centro de coação e união, existe como fortalecedor de ideais e como fonte de propaganda. O partido ainda é colado em seus membros.

Os membros do partido só o são por serem “uno” em suas ações sob o nome do partido – o partido se expressa através de seus membros e exatamente por isso pode expulsá-los caso não ajam de acordo com seus pressupostos. A tentativa de criar um afastamento entre o partido e os membros é a mesma tentativa de desligar a teoria com a prática, é noção de que o mundo muda se as pessoas pensarem de forma diferente, é a separação da matéria e da consciência tanto criticada por Marx na Ideologia Alemã.

Este afastamento ainda é uma forma de ligar os acontecimento da ditadura não como uma ação social, mas como uma ação promovida por um poder pessoal pseudo-neutro (no sentido de não pertencer à nenhuma sigla). A relação se fixa na personalidade autoritária que, supostamente, promoveu por si todos os ocorridos na ditadura – deixando de lado toda a estrutura política e toda a coerção social exercida pelos aparelhos repressivos além de toda a propaganda reproduzida pelos aparelhos ideológicos estatais. Se um líder morre, há outro, pois está tudo ligado estruturalmente (estava, né).

Desta forma, a separação Partido Vs Executores não é válida, não possível de argumentação legítima, é pura ideologia, tentativa de retirar do partido a sua responsabilidade no controle de figuras para eleição, propaganda eleitoral e representação formal da própria ditadura.

Arte Contra Violência e Marginalidade

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Eu estava lendo a coluna do Vladimir Saflate na folha e me deparei com a afirmação:

há os que veem a cultura como ponta de lança de serviços de assistência e integração social. Mais música e menos violência –é o que alguns gostam de dizer, como se houvesse alguma forma de relação direita possível. O que abre um perigoso flanco: se o índice de violência não baixar, o investimento em música parece perder o sentido.

Isso me pareceu bem pertinente, levando em consideração a enorme demanda de projetos culturais que tem como argumento nuclear a retirada das crianças das ruas ou a inserção do sujeito na sociedade e etc; trazendo consigo uma noção antiga de que “cabeça vazia, oficina do diabo”, portanto, cabeça cheia (pode ser de artes plásticas, de música, de fotografia, de qualquer coisa) fica longe de qualquer problema social. E, da mesma forma como Foucault frisa a respeito das prisões, enfatizando que todas as prisões sempre tiveram o objetivo de reformar o indivíduo, ou seja, re-inseri-lo na sociedade retirando todo o mau-caráter e o transformando em um bom sujeito, as atividades culturais me parecem caminhar na mesma direção reformadora.

Se um centro cultural existe, oferecendo música, artes e literatura, e tem como lema retirar as crianças das ruas, do tráfico, da delinquência, do banditismo e etc, se elas não forem retiradas das ruas, então não há sentido em oferecer música e artes? Qual a ligação direta entre cultura e marginalismo? Somente o antigo proverbio, até onde eu vejo.

Mas, na verdade, se o objetivo é ocupar as mentes para não encaminhá-las para a vida marginal, então não é somente cultura que se oferece. A arte é mais instrumento de transgressão e revolução do que de legitimação – quando Hitler montou seu exército de artistas para pintar a verdadeira arte alemã, estava pintando ideologia, estava utilizando a arte como aparelho ideológico no Estado nazista. Analisando desta forma, a “arte na favela” se faz mais como uma “re-educação na favela”. A arte, a música e as iniciativas para retirar os jovens da vida bandida se mostram como maneiras de re-inseri-los na ordem vigente

Se não há inserção na ordem vigente, então não vale á pena ter arte para o povo.

Se a arte é, como afirma Caudwell, uma quebra no ciclo de símbolos que são compartilhados e herdados geração à geração em nossa sociedade, se ela é a quebra de uma ordem estabelecida e é, desta forma, a necessidade de criar sob novos pressuposto – pressupostos esses que suportem essa nova arte e a explique – então não há arte em re-educação de jovens.

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