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Arquivo da tag: MIDIA

Crimes de Gênero Atuais

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Como bem lembrou Maíra, do site Território de Maíra, é necessário lembrar que a relação dos crimes contra mulheres dos últimos anos está na relação de dominação entre gêneros. Não são crimes comuns, aleatórios, cotidianos (não levem a mal), mas são, isso sim, crimes que tem como condição de possibilidade uma sociedade machista.

São crimes que acontecem não por que os indivíduos que o cometeram são “maus”, mas sim, por que a sociedade em que vivemos forma sujeito como estes. Que o machismo é estruturante, que ele não é fruto individual de uma ação errada, mas de fruto coletivo de uma reprodução de estruturas de dominação em diversas esferas da vida. Tratar esses crimes como espetáculo é esquecer que eles não são roubos de galinha, mas são, por sua vez, uma sociedade machista se expressando como tal.

Eliza Samúdio, Mercia Nakashima, as mulheres na índia, no oriente médio, nos grupos cristãos fervorosos, todas elas são vítimas de um sistema que não dá chance para oposição.

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Masculinismo, Equilibrio dos Papéis e Doutrina Dogmática

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As supostas reivindicações masculinistas entram na esfera dos privilégios sociais: as mulheres têm privilégios sociais, o que o masculinismo propõe é um equilíbrio entre os sexos. Como? Por meio do retorno aos valores sociais já consagrados, por meio da definição clara de papeis sociais por gênero. As mulheres deveriam reconhecer a liderança do homem na família e o homem deveria prover o sustento e ser o protetor clássico tradicional. É um retorno à família tradicional, patriarcal, nuclear e etc.

As acusações dos masculinistas se valem, por exemplo, do fato de mulheres não precisarem ir para o exército (se alistar), enquanto homens são obrigados a ir, ou ao fato de mulheres serem passivas quando rola algum xaveco, enquanto homens precisam se virar, se mexer. Esses seriam dois privilégios sociais (e são muito citados). O problema de criticar essa situação sem análise histórica, isolando o fato social é que ele nos leva à análise bizarras. O fato de não haver mulheres no exército não é um privilégio feminino, mas uma demonstração de autoridade e superioridade masculina, é produto do próprio machismo. O mesmo vale para o argumento do xaveco.

Mas é interessante ver esse novo machismo (o masculinismo), por que sua forma de agir é diferente daquele antigo, que reafirmava uma situação reconhecida pelos agentes. O antigo machismo reafirmava uma superioridade já reconhecida, declarada e formalizada, eles eram completamente conservadores, contra as correntes sufragistas, por exemplo, impedindo qualquer tipo de mobilidade social ou cultural.

Já o neomachismo tenta a todo momento afirmar uma posição revolucionária (propondo equilíbrio nas relações sociais). Até mesmo no nome existe essa tentativa, sendo utilizado o termo simetricamente oposto ao feminismo, ou Man’s Right Activism. O neomachismo, dessa maneira, tenta realizar uma mudança social e cultural. Só há um problema: continua sendo conservadora e reacionária – não é uma mudança progressista, como o feminismo tenta, não tem como base a abolição da desigualdade politica, social e econômica entre os gêneros.

E a própria maneira como a mídia direciona os papeis sociais já nos dá um empurrão às reivindicações masculinistas. Digo, ainda é possível reconhecer o movimento como legítimo. Basta percebermos como os meios de comunicação de massa repassam o que a mulher é: se ela é poderosa, é por que é gostosa, e esse se torna o símbolo da revolução feminina, por exemplo; se ela é durona, é por que é uma mãe dedicada que também tem um emprego, e assim continua. A mulher ainda é classificada por um mass media reprodutor de doutrina dogmática, que se estabelece na própria linguagem para se manter, que se introduz subliminarmente como o correto… O comercial da Hope é um exemplo.

A forma como Rafinha Bastos foi protegido pelas redes sociais, com a comparação fajuta com o Maluf – piadas levadas a sério e políticos impunes blá blá blá. Isso tudo age de maneira à nos fazer interpretar a situação atual como catastrófica, mas só se pode agir na via principal (por exemplo, só se for pra protestar contra os políticos corruptos), mas a via principal precisa receber uma ação dentro das leis e das normas morais, o que torna a ação contra o problema principal uma ação nula, sem possibilidade nenhuma.

É lutar por algo que não vai conseguir exatamente na esperança de não conseguir.

Reblog: A ditadura da mídia corporativa

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Vai um vídeo muito bom que eu vi no post A ditadura da mídia corporativa, do blog do Cão Uivador.

“Sensacional o documentário “Levante a Sua Voz”, inspirado no premiadíssimo “Ilha das Flores” (1989), de Jorge Furtado. Assista, e entenda os motivos pelos quais eu – além de vários outros blogueiros – tanto criticamos a “grande mídia” que de neutra e imparcial não tem nada.”

Jornal da Cultura, Vladimir Safatle e Julgamentos Categóricos

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No dia 10 deste mês, no jornal da Cultura, o debate sobre a ocupação da USP foi retomado, porém, desta vez, Vladimir Safatle estava presente. O que foi interessante: A outra professora convidada, não recordo o nome, professora de Direito Internacional na USP e a âncora do Jornal, Cristina Poli, eram totalmente reacionárias. Enquanto Safatle acusou a mídia de “destilar preconceitos contra os alunos”, o que a âncora do programa, meio envergonhada fez, foi desviar o assunto e apelar para os argumentos na linguagem liberal democrática de, “Mas eles eras a minoria, né?”, ou, igual o dito pela professora de Direito, representando de maneira perfeita o leitor da Veja, “Manifestação pró-Louis Vitton”.

Esses preconceitos da mídia são como veneno em corpo com imunidade baixa. A massa assimila como sendo uma representação verdadeira do manifesto, logo, o protesto na USP se torna um protesto de maconheiros playboys bancados pelo papai. Com eu já havia dito, é uma maneira eficaz de manter o povo contra o protesto que tem como caráter, manifestações de povo, e não de elite.

Não se deve esquecer da ligação destes protestos com a esquerda brasileira e com a representação máxima do político (e da política): corrupção, malandragem e etc. Os protestos já nascem perdendo moral por conta de sua conjuntura política e terminam com menos moral ainda, por conta do manejo de informações da mídia. Aqui eu volto para a representação falsa da política como sendo algo ruim.

Ela (a representação do diabo chamado política) é até interessante num mundo pós-político, onde a política se limita a uma política administrativa, já que, no mundo pós-moderno, o capitalismo ganhou sua batalha contra o comunismo e não há mais alternativa nenhuma para desbancar sua hegemonia. A esquerda se envereda para o centro, a direita assume as rédeas, e desta forma um capitalismo sadio (e absoluto) é montado.

Logo, o apolítico sendo a representação e, por consequência, a reprodução ideológica, ele é seu maior inimigo. Mas eu acredito que não, que a negação da política e, por exemplo, luta contra a corrupção, feita pelo apolítico, é baseada na profunda crença de que essa luta nunca será ganha. O fato do apolítico identificar certos privilégios ou direitos morais adquiridos com a existência da corrupção no país e, ao mesmo tempo, identificar uma cristalização neste fato, o incentiva a lutar contra essa depravação moral, já tendo a garantia de, embora expressar sua indignação, ser o mesmo medíocre de sempre.

Para terminar, ainda no assunto da representação da ideologia vigente, eu digo que a própria existência do sujeito já faz dele uma representação da ideologia vigente. Antes mesmo do sujeito ser julgado por suas qualidade, expressões diretas e etc, ele recebe um julgamento categórico, onde certas características são levadas como pressuposto de julgamento: etnia, classe-social, vestimentas e etc. Numa sociedade pós-política, o julgamento categórico básico é aquele onde o sujeito já é, só por existir, o sujeito médio, ou deveria ser o sujeito médio. Sem contar que os outros preconceitos… Por etnia, por exemplo, já são a expressão conservadora, racista, daquele que julga.

Greves, Todo Mundo Odeia Salário Mínimo e A Espera de Um Milagre

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Após a greve dos correios, quando eu voltava do trabalho, vi uma mulher reclamando com o carteiro do atraso de suas cartas, dizendo que, no fim, quem sai perdendo é cidadão como ela. Essa mesma reação a gente vê em relação a maior parte das greves que têm como consequência alguma parada de serviços com os cidadãos comuns e etc. Mas, então, como a greve deveria ter acontecido?

Eu creio que a greve mais simbólica, em relação ao tema, seja a dos transportes públicos, onde a mídia cobria a greve da perspectiva dos usuários de ônibus e trens, insinuando a falsa legitimidade da paralisação pelo descontentamento dos cidadãos que precisam do transporte público. Mas, não seria exatamente esse o objetivo da greve? A paralisação de toda uma rede que depende de seu trabalho? Eu digo, qual seria o resultado da greve se os ônibus continuassem a andar, porém, para demonstrar seu protesto, não cobrassem passagem?

Se o verdadeiro objetivo da greve é atacar a raiz político-econômica dos problemas dos trabalhadores, então ela não deve se limitar ao combate fechado. Eu digo isso, pois, se os trabalhadores fazem parte de uma classe social que, seja qual for a cidade ou país, ainda é a mesma, a greve só é um real protesto de âmbito político-econômico se for um protesto de classe, caso contrário, se transforma em um protesto contra a má ética de um determinado patrão. O protesto que era para ser objetivo, se torna subjetivo.

É aí que o inimigo se torna o chefe imoral, não aquilo que alimenta a existência do chefe imoral.

É fácil relacionar essa situação com o episódio de Todo Mundo odeia o Chris em que ele se demite do Dock’s, por que o mesmo recusara a pagar um salário mínimo, e foi trabalhar no restaurante chinês do Sr. Fong. A forma de Chris demonstrar seus desapontamento foi indo trabalhar em outro lugar, mas não em duvidar do sistema de salários ou do patronato.

Quando recebe seu primeiro salário (e essa cena é reveladora), Chris percebe que está menor do que o quanto recebia no Dock’s, pede explicação ao Sr. Fong, que lhe responde que a diminuição de seu salário se dá pelos descontos do imposto (maldito Estado). Após trabalhar com o mínimo de condições e recebendo menos que em seu antigo emprego, Chris se demite do restaurante chinês e volta para o Dock’s. Ou seja, entre ter um péssimo emprego, mas os direitos trabalhistas, ou ter um emprego bacana, mas sem direito nenhum e salário um pouco maior (essas são as únicas opções declaradas na série), ele escolhe o suposto bom emprego que, no início, ele lutou contra.

Eu acredito que essa seja a expressão de como um ideal é considerado, hoje. Chris, como a imagem do revolucionário absorvido pela naturalidade do sistema capitalista democrático (ele teve um ideal, mas a realidade é outra… Abandonou o ideal falido e viveu a realidade, ponderando o que era melhor para si). Ou seja, ele perde toda sua objetividade se torna um ideal ético, algo que é desejado, mas que não contraria a concretude da realidade (naturalmente, capitalista).

Ainda me arrisco ao colocar essa mesma expressão de naturalidade, de concretude real Vs. Ideal ético, em A Espera de Um Milagre, onde, apesar de ser inocente, apesar de um dos guardas saber da sua inocência, o prisioneiro é morto pela falta de provas concretas. Não há o que fazer se não há provas concretas (quando digo provas concretas, a relação da sua concretude está em sua lógica com o sistema que a denomina concreta, ou seja, concreta na perspectiva de quem ditou as regras), ele deverá seguir para a cadeira elétrica. Percebam, uma fuga com o prisioneiro não é nem cogitada.

A verdadeira mensagem por trás do filme é a autoridade do contrato social sobre as pessoas. Não se brinca com as regras do contrato e o dever proposto por ele deve sempre ser cumprido (caso seja contra sua vontade, relaxa, se deus existe, tudo é permitido).

Sobre a classe baixa e o luxo

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A televisão mostra o sonho de consumo da menina rica e da pobre. Para a rica, será uma realidade cotidiana, para a pobre, um luxo momentâneo. Os carros, as casas, as roupas e os lugares…Só serão obtidos caso haja um milagre ou uma presa trabalhadora que gastará cada centavo para o sustento da sonhadora imanente.

A situação feminina no mercado de trabalho é claramente desfavorável. Cargos como de secretária, atendente, faxineira, cozinheira e tantos outros são os mais comuns. A realidade comprova que o número de mulheres em cargos altos é menor que o de homens e que historicamente há trabalhos próprios de homens e próprios de mulheres, reforçando os mitos femininos, onde a mulher é curandeira, a frágil inteligente, a calma e artística, delicada e histérica, dentre tantos estereótipos.

O tesão feminino pelo uso do luxo não é anormal, na verdade ele é o mais normal possível, já que é passado como única opção. Quando uma situação é passada como atemporal, nada nela nos faz querer mudar, só se adaptar. E é isso que a adolescente de classe baixa tenta fazer, se adaptar a um mundo onde ela é discriminada, marginalizada e desprezada. Ela tenta não ser mais desprezada, se aglutinando na multidão, ao invés de modificá-la, de transformá-la para algo mais justo e menos estigmatizado. Ela tenta passar a imagem dos mitos femininos e se encaixar nos padrões.

Dentro deste mundo de luxos efêmeros, a pseudo/futura-patricinha se transforma de pouco em pouco naquilo que quer ser, mas que deve repudiar. O que ela quer ser é o que a oprime feito um martelo contra um prego enferrujado. Culturalmente a vida das mulheres das classes mais altas foi sempre a da imanência extrema e absoluta, sem sequer mover os músculos para algum tipo de trabalho que não seja governar a própria casa, que não seja administrar os empregados ou a loja da família. Já a classe média é um exemplo de classe com orgulho de ter um exército de donas-de-casa lambisgoias, dependentes e alienadas.

Enquanto haver a propaganda deste tipo de vida, a tendência será de continuidade. A menina da classe baixa se sente atraída pelo mundo que não teve e que não terá caso tente, pelas próprias pernas, sobreviver.

É neste contexto que vemos a menina que sempre se vestiu muito discreta, de repente, usar um vestido extravagante, sem motivo aparente nenhum. Ela chega até a se envergonhar de estar “mais bonita”, pois aquele não é seu mundo e ela sabe disso, mas se há aceitação, se há comparação, ela irá gostar dessa situação e manterá o desejo de ser A expressiva.

Em seu emprego de complemento de renda ela ainda será inessencial, continuará a vida de dependente. A maioria das mulheres que trabalham e moram com parceiros, tem de seu emprego, somente um complemento de renda, o salário dela não é o principal. Ela não é essencial.

Sem essa essencialidade, seu valor social continua menor, ela continua parasita do marido e continua a expressar um mundo que não é seu. Um mundo contra qual ela deve lutar!

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