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Etiqueta da Manhã, Xingar o Chefe e Religião Limitada

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Normalmente eu vou dormir tarde, acordo cedo e fico de mau humor até às nove da manhã. Ou seja, se eu encontro um amigo no trem, eu não serei amigável e isso é natural de ter uma noite de sono curta, não satisfatória, entretanto, ainda sim há o pressuposto da educação com o amigo e etc. Não tenham dúvida, é um sacrifício interagir socialmente durantes as manhãs, é horrível, quase como uma obrigação feita por um déspota que merece ser desobedecida.

Aí vem o ponto. Certas coisas são “obrigação”, todo mundo sabe, por exemplo, tratar educadamente ou calorosamente os amigos. Não importa o horário ou a situação. Aqui vem a contradição: O sujeito é senhor de suas ações, indivíduo agente motor, condenado a liberdade e todos os outros adjetivos que acabam terminando num individualismo onde o patrão não é explorador coisa nenhuma, afinal, o trabalhador escolheu seu emprego; por outro lado, há determinadas convenções que precisam ser obedecidas para o bem andamento de determinadas relações sociais.

Convenhamos, ninguém delibera sobre tratar bem ou não o patrão. Se o sujeito tratar mal, será demitido, se for demitido, não paga as contas do mês, se não pagar as contas do mês, se afoga em dívidas e etc. Ainda há a perspectiva de uma deliberação, pois o sujeito deliberou para saber/concluir que não quer ser despejado de sua casa ou ter a luz cortada, entretanto, antes mesmo desta possível deliberação, há um pressuposto.

O site da Lola teve um post sobre ateísmo, que descambou, nos comentários, em um dado momento, para a tolerância das religiões mais populares. A questão que eu colocava é, dentro dessa percepção de fé moderada e fé fundamentalista, onde, visivelmente, o fundamentalista é taxado de errado e o moderado de correto (afinal, ele é tolerante, respeita a liberdade individual e blá blá blá), o erro não estava em considerar como errado aquele que realmente levava a sério sua crença e pedestalizar o moderado que, antes mesmo da sua crença, tem um sistema de valores [supostamente] universais (de respeito ao outro e seu espaço e etc)?

Por trás da crença do moderado há uma crença fortíssima, que é a própria crença na democracia liberal. Ela sim é totalitária, ela sim assume o papel que a religião, como cosmovisão, deveria assumir. No entanto, ela não se mostra como tal, como ideologia, mas como natural, como óbvio.

Como considerar que há a deliberação do trabalhador a respeito da escolha do trabalho e do respeito sacro ao chefe, quando, por trás desse ato já há uma estrutura embutida nas ações do indivíduo, estrutura essa formada socialmente e anterior ao próprio sujeito? Não, não é uma escolha. A própria noção de escolha envolve a utilização da linguagem que, por usa vez, só é como é por meio das relações sociais.

Então, dentro do trem, essa convenção social de tratar bem o amigo, supera a indisposição individual, o que é expressado até pela sensação de culpa ou pelas repulsas futuras do amigo – para se evitar essas repulsas, trate-o bem. Mas, outra coisa vem em mente, essa convenção não pode parar por aí, em sua definição. Não é só uma convenção, pois, se fosse, teria um acordo entre ambas as partes, mas não há esse acordo, não há deliberação, há coerção!

Se fosse puramente uma deliberação, a ação seria própria, sem sentir culpa por não fazê-la, sem sentir obrigação em fazer. Mas não funciona como uma ação fria. Ela parecer ser fria se dá quando a ação é inteiramente no fluxo da “convenção”, obedecendo-a. Quando é contrária, aí sim sua imperiosidade é sentida.

Restaurante, Submissão, Autoridade e Todo Mundo Odeia o Chris

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Hoje eu almocei no lugar onde eu sempre almoço, de boa, tranquilo, comida gostosa, pessoal gente fina, etc e etc. Depois que a gente se serve, precisa pedir o que vai tomar e esperar na própria mesa, lá eles entregam o suco, refrigerante, café, seja o que for… O modo como acontece essa entrega é aquele comum: a pessoa coloca o copo de suco (por exemplo) na bandeja, chega à mesa do sujeito que está comendo e coloca o copo sobre a mesa. O que achei interessante foi a dona do lugar levar o copo sem colocar na bandeja e servir o sujeito que estava comendo. Ele não reclamou, nem olhou torto.

Esse modo de servir o sujeito que está almoçando, com toda a submissão ao Senhor cliente, já com aquele pressuposto da autoridade máxima do sujeito que compra os serviços que, porventura, pagarão seu salário e etc, essa relação de submissão de quem serve para quem é servido já é uma merda. Isso já me deixa constrangido de ir à maioria dos lugares. Nem dá pra contar nos dedos a quantidade de vezes que presenciei os clientes exigirem determinadas coisas que são tão inúteis quanto aquilo que eles fazem da vida.

As exigências inúteis só traduzem esse poder, essa autoridade do cliente sobre o sujeito que está lhe servindo. Referenciando o papel do sujeito que serve (garçom e garçonete) com o dos escravos, rebaixando da mesma maneira. Os escravos ainda existem, ainda fazem o que faziam, mas agora são assalariados e podem comprar um produto no fim do mês para massagear a revolta de ser um neoescravo.

Eu digo, essa analogia com escravo não está somente no trabalho, mas em todo conteúdo histórico acoplado nele. Servir, lavar, enxugar, servir, abaixar a cabeça, o Outro tem razão, servir, etc e etc.

Aí entra a ação da dona do restaurante. Ela serviu sem seguir as regras que ela própria determinou (ou melhor, que a sociedade determinou, ela só o fez formalmente). Ela demonstrou sua autoridade em fazer o que quer, já que, oras, o restaurante é dela. Ela é a autoridade máxima do lugar. Essa frase é confirmada pela não-ação do cliente, ele não fez nada por que sabia que era a dona que estava servindo. Não era qualquer garçonete submissa sem autoridade, era a dona. Ela pode.

Isso me faz lembrar do episódio de Todo Mundo Odeia o Chris, onde Julius e Roxelle vão a um restaurante e, ao perceber que seu prato veio sem repolho, ela reclama com o garçom que, rapidamente retruca “vou chamar o gerente”, Julius diz “Não queremos gerente, só queremos repolho”, e ele repete pausadamente “Eu vou chamar o gerente”.

Ou seja, o garçom, para se proteger de qualquer tipo de agressão, chama o gerente que, diga-se de passagem, falou a mesma coisa que o garçom deveria ter dito (que foi treinado a dizer): a salada de repolho não está inclusa. A autoridade do gerente vale mais do que a autoridade formal do menu. Não seria este um exemplo de argumento da autoridade, onde, a veracidade da informação se dá pela autoridade daquele que a expressa? O garçom não representaria perfeitamente o sujeito sem autoridade, indefeso e autômato?

Julius e Roxelle, acatando o gerente, não foram como o sujeito que aceitou o suco sem reclamar da falta de ética com o cliente e etc?

Não há nada mais confortável que se servir. Confortável para mim e para o garçom (que não existiria, no caso). Aí sempre vem algum nobre liberal pra mandar uma de que “assim, várias pessoas seriam demitidas e etc”

É como o papinho de que greve é ruim pra população, mas isso é pra outro post.

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