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FEMEN, Protestos e Valor Subversivo da Nudez

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O FEMEN é um grupo autodenominado feminista, criado na Ucrania e que costuma realizar protestos de topless.

Antes de tudo, vou comentar sobre dois casos onde também houve a nudez como protesto. Primeiro com a Geyse Arruda. Vocês lembram de o que houve com a menina depois da aparecer com um vestido curto na faculdade? Ela foi quase linchada do local, foi necessário chamar a polícia para tirá-la de lá, ela foi alvo de violência gratuita pelos alunos da UNIBAN. Depois do acontecido, a moça ainda foi expulsa da faculdade! Como contraposição, os estudantes da UnB tiraram a roupa em protesto de apoio à Geyse Arruda.

Segundo, o Slutt Walk, em Toronto. O Slutt Walk aconteceu após um policial reclamar que as mulheres deveriam se vestir melhor se não quisessem ser estupradas. Partindo do ditado “para ser respeitado é necessário se fazer respeitar” – ou seja, se você quiser ser respeitado, seja cristão, hetero e branco. O protesto aconteceu com as mesmas características: mulheres nuas protestando sobre a maneira de se vestir. Em outras palavras, a culpa não é do vestido, a culpa é do estuprador!

Os dois protestos tiveram sua localidade no contexto. Ou seja, os dois protestos foram claramente contra uma normativa social repressiva a respeito não das roupas, mas da roupa como pressuposto de respeito à integridade física e moral. Dois protestos perfeitos, na minha visão. Ambos subverteram a própria repressão, utilizam dela para jogar a crueza da ilógica contida no discurso, em seus próprios reprodutores. Perfeito!

Agora o FEMEN, em qualquer protesto, qualquer um, as protestantes tiram a roupa, tudo isso sob a desculpa de “ser a única coisa que elas têm”  e sob a falsa antimoral burguesa de que “não deveria ser estranho ficar sem roupa”. Os dois argumentos básicos são impotentes, já que o primeiro confirma a objetificação da mulher e o segundo desloca o contexto histórico-social e dá aval pra existência do primeiro. Dizer que deveria ser normal ficar sem roupa é algo que todos nós dizemos, sabemos que se trata de norma social, porém, há um significado simbólico em tirar a roupa, tirar a roupa em um protesto contextualizado e (por consequência) subversivo e tirar a roupa por que o corpo é a “única coisa que temos”.

Ainda é interessante reparar em quais mulheres estão protestando no FEMEN… Loiras, magras de corpos completamente dentro do padrão vigente de beleza. Elas são as modelos perfeitas da Europa, quero dizer, a subversividade do movimento está em colocar mulheres completamente aceitas pelo padrão social de beleza, de topless, em qualquer tipo de manifestação, contra qualquer proposta, sob o pretexto de que aquilo é a única coisa que têm como forma de subversão.

Eu creio que o protesto gera exatamente o oposto, queima o filme do feminismo. É difícil não deduzir que a presença dos fotógrafos em massa existe pela nudez de mulheres bonitas. Só. Como um movimento feminista objetiva o próprio corpo e “coincidentemente” realiza manifestações somente com moças que poderiam ser candidatas à miss Ucrânia? E tudo isso sobre o pretexto falso de que “só temos nosso corpo”.

Não contextualizar a afirmação (que eu concordo) “Não há nada errado em mostrar os seios na rua” é esquecer que se vive em uma sociedade, onde as relações são mediadas por símbolos e que, em âmbito individual, achar que não há nada de errado é uma ação sem controle social, porém, não existe a garantia de que, ao avistarem o sujeito na rua, vão saber de suas convicções para tal ato. No protesto, por exemplo, será reconhecido o significado simbólico da nudez como birra, sem sua profundidade simbólica demonstrada na UnB ou em Toronto. A afirmação acima, então, abre espaço pra afirmação “só temos nosso corpo”. Quando a moça diz que só tem o corpo, o coloca na mesma função do dinheiro, dos contatos políticos e etc. Quase como uma arma. Porém, essa funcionalidade é subvertida pela descontextualização do próprio protesto – o protesto com nudez é banalizado (no sentido de perder sua profundidade simbólica).

Há o mesmo reconhecimento dos protestos da UnB, em Toronto e das mulheres do FEMEN? Eu creio que não, por conta disso, a nudez se torna legitimada socialmente (como contraposição ao aparelho repressivo) nos dois primeiros, demonstrando sua subversividade e rompimento com o significado social comum, para um novo significado, uma simbolização de violência contra os preconceitos sociais, contra o Estado atual, contra a ideologia hegemônica.

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Desocupação da USP, Polícia Repressiva, Bem Público e Equilíbrio na Consciência Comum

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Estudantes que haviam invadido a reitoria da USP são rendidos por policial militares

Com a desocupação da reitoria da USP, feita pela tropa de choque da PM, houve a investigação para contabilizar os danos públicos. Esse está sendo o argumento chave pró-polícia e anti-manifestantes: a universidade é pública, bancada por nossos impostos, e, desta forma, não está à mercê de alguns alunos, mas sim, da vontade pública, escolhida democraticamente, representada pelo governo vigente. Logo, a polícia deve estar dentro da universidade.

Mas eu duvido um ponto disto: a USP realmente é pública? Ela realmente é a expressão da universidade pública? Eu digo que não, a USP está pouco a pouco, assim como todas as outras universidades públicas, se tornando uma fabrica de especialistas para o mercado. Posso dar o exemplo nas exatas, onde as indústrias financiam pesquisas que melhorem o seu produto em específico, ou seja, financiam pesquisas que servem como aperfeiçoamento do produto.

Mas o papel do cientista não é, simplesmente, evoluir a ciência? Refazer as perguntas, reorganizar as ideias, questionar a concepção dominante e etc? Por que, ao invés disso, os cientistas estão sendo, na verdade, especialistas de mercado?

A universidade só é pública quando convém realçar essa característica, mas, quando ela não é bem vinda, não há problema em burlá-la em nome do mercado. Aqui há implícito, a hegemonia da ideologia atual, onde o capitalismo democrático ganhou e é incontestável. É aqui que Fukuyama vive.

Principalmente, e aqui falo sobre outro argumento conservador, quando vemos como a mídia, por exemplo, fica inconformada com a permanência dos protestantes da USP mesmo após a decisão da justiça para a retirada (assim como Geraldo Alckmin, que também ficou meio nervoso). A justiça não é a-histórica e os estudantes não saíram com a decisão da justiça por lutarem contra aquilo que determina como as leis e como a justiça é feita.

Basicamente, manter leis, justiça e democracia como incontestáveis, é fazer deles o Grande Outro, àquele que você pode, até mesmo, descumprir algumas de suas regras, desde que seja pela sua sobrevivência.

Eu não nem preciso reafirmar a polícia como aparelho repressivo por excelência, sua atitude já demonstra isso de um jeito bem claro. A polícia, sendo o “braço armado da lei” é, já na expressão, o aparelho que protege a ideologia de seus filhos subversivos.

A ação desproporcional da polícia só demonstra que ela não foi lá para “reintegrar a posse”. Foi para anular a força subversiva dos alunos, desta forma, remontando à USP, uma situação ideológica em equilíbrio. A polícia não foi para desocupar a reitoria, ela foi para equilibrar o “mal” causado pela agressão  dos estudantes à ideologia hegemônica.

USP, Protestos Pró-Polícia, Marcha para Jesus e Reivindicações Pró-Vida

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Alguns alunos da USP organizaram um protesto a favor da presença da polícia no campus. Sob o discurso de que a cidade universitária faz parte da cidade de São Paulo e quem comete infrações à lei, lá dentro, merece ser punido. Depois afirmam que “A minoria contra tudo e todos não pode nos impedir de querer o que é nosso de direito!”.

Somente neste discurso já dá pra reparar certos cacoetes conservadores, como a insinuação de que a lei é a cristalização da ordem máxima e etc, assim como, na tentativa de fazer uma ditadura da maioria a denominando democracia. Ou seja, nós, a maioria, queremos que (por exemplo) gays não entrem na FFLCH, portanto, democraticamente, exigimos que nossa voz vire lei, que é a cristalização máxima da justiça social e, portanto, deve ser seguida cegamente.

Antes de acreditar em qualquer neoconservador que queira dar uma de democrático que luta pela liberdade de expressão e pelo reconhecimento da vontade do povo, creio que nós precisamos reconhecer que a vontade do povo não costuma ser uma vontade progressista nem nada. O povo não quer aborto legalizado, maconha legalizada, Estado realmente laico, leis anti-homofobia e etc. O povo acha que bandido bom é bandido morto, que bandido é bandido por que não tem caráter e etc. Que é tudo uma questão de escolha.

Então, tentar desqualificar o protesto na USP por não ser constituído de uma maioria de estudantes é, no mínimo, desonesto intelectualmente. Onde está a maioria contrária ao protesto? Em casa? Cheque-mate.

O protesto pró-polícia me faz lembrar as marchas para jesus, onde os conservadores saem às ruas em defesa da vida e etc.  Uma maneira emocional de disfarçar a total falta de progresso no pensando religioso. Lutar em defesa da vida é a mesma coisa que lutar pela liberdade de expressão. É possível perceber o real contexto em que essas palavras são colocadas e como são manejadas.

Um exemplo muito bacana, ainda sobre o aborto, para exemplificar como as palavras são manejadas e, em si, já carregam um significado (histórico-social) traiçoeiro: bebê. Quando uma mulher está grávida, a maneira comum de se chamar o que ela carrega na barriga é bebê. Só há um problema, aquilo não é um bebê, é um feto. Bebê é a romantização cristã do valor à vida em detrimento da própria autonomia (e vida) da mulher.

A própria reação ao termo feto é uma prova: quem o diz é frio, cruel, não reconhece a vida que existe num ventre materno e etc. Porém, o que há lá é um (em sentido social) vir-a-ser. Não dá pra chamar de ser humano, não dá pra chamar de vida, é ilógico se ater somente à biologia neste tipo de caso, pois a vida não é só o organismo biológico, mas, também, o aspecto social. A vida é vida enquanto ela é reconhecida materialmente, não? Quero dizer, só existe vida social enquanto existe relação social.

Por isso, eu termino associando essas duas faces conservadoras com a face pseudo revolucionária da luta pela liberdade, por livre-expressão e etc, mas ainda mantém a linguagem engessada aos moldes liberais-conservadores. A discussão sempre estará perdida ou sempre terá como fim algum tipo de reivindicação ética e blá blá blá.

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