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Eleições Democráticas?

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As eleições deveriam ser a demonstração máxima da democracia, da virtual possibilidade de expressão livre e popular. Ou seja, ela deveria ser a representação de que vive-se num mundo livre, sem opressão ideológica e onde é possível que haja mudanças drásticas na forma de governar somente com o voto popular. A maioria de votos, desta forma, seria a forma perfeita e neutra de se chegar a um resultado bom em termos gerais. Não se pode esperar um consenso, como Rousseau esperaria de sua sociedade perfeita, mas, como Locke já havia aceitado anteriormente, a maioria deve ser respeitada em sua vontade.

Inevitavelmente haverá um grupo que não concordará com os resultados obtidos, o grupo que votou naquilo que traria outros resultados. Isso já seria uma forma de caracterizar uma ditadura da maioria, entretanto, creio que o ponto interessante é a forma como a democracia se faz neutra, sem ideologia, para depois legitimar os resultados como sendo resultados realmente populares. O voto só é um instrumento democrático no instante em que se admite que é a escolha livre dos indivíduos que decide o futuro de um país, cidade, estado e etc. Mas já sabemos que não há como trabalhar com o pressuposto iluminista de que a sociedade se trata de indivíduos livres, racionais e conscientes de seus atos que pretendem obter o máximo de vantagem com sua racionalidade em cada decisão. Não dá mais pra admitir que os indivíduos simplesmente constroem as suas vidas individualmente, mas se deve perceber que isso ocorre em sociedade, imerso em um sistema cultural, em uma estrutura social, etc e etc.

Isso nos leva a uma conclusão: não há democracia realmente livre e realmente neutra em nenhuma canto do universo. Se todas as sociedade tem sua própria estrutura, seu sistema simbólico, suas regras vigentes, sua moral e, se pensarmos que todas essas estruturas, todo esse sistema social, econômico e político, atuam de forma coercitiva, então a democracia é só a ilusão da decisão. O povo pode até decidir sobre quem ficará no poder, mas não decide se o poder deve se manter da mesma forma que está. Como Marx já denunciava na Ideologia Alemã, a classe dominante detém o domínio de toda a produção intelectual e isso não é difícil de se ver, afinal, se há uma classe com o domínio material em uma sociedade, se a sociedade depende dela para se manter ou, na verdade, se ela faz parte estrutural da sociedade e detém um domínio dos meios de produção, então, haver um domínio intelectual, uma legitimação teórica de seu domínio material é um caminho natural de legitimação de classe.

Não é uma surpresa ver que toda a ciência de uma determinada época em um determinado lugar é apropriada pela classe dominante para sua auto-legitimação. Por que a democracia estaria fora disso? Os pressupostos ontológicos individualistas não se confirmam com a realidade, mas, mesmo assim, ainda se tem uma sociedade pautada neste pressupostos que, desta forma, ainda confia no voto uma real decisão sobre a vida social e política. Isso não é verdade. A própria maneira como as eleições são estruturadas nos leva à observações interessante sobre seu poder de manutenção da ordem, afinal, ela regula um ciclo que se perfaz como um presente eterno. Os ciclos de votação são como as renovações que ocorrem em uma mesma sociedade: a renovação da escolha de nosso futuro, a suposta decisão sobre nossa vida (imutável em seu núcleo, mas mutável em sua superfície), mas que não passa de uma celebração à ordem. É um movimento pseudocíclico espetacular, que se sincroniza com a vida alienada, com o trabalho alienado, já que é um ciclo não-verdadeiro e que tenta suprimir os conflitos constitutivos do sistema em que opera.

Este espetáculo da vida política ainda lança forma de supostamente garantir uma igualdade de visibilidade à todos que participam do processo de votação e eleição. Ou seja, num país neoliberal, um comunista pode tentar ser eleito e tem direto aos comerciais na TV. Mas, vejamos, se toda a sociedade, a educação, as instituições e a própria norma social são estruturados de maneira onde certas forma de viver se reproduzem automaticamente, além de serem reconhecidas e reconhecíveis, por meio da linguagem, sem nem precisar de um esforço de raciocínio muito maior, então, de que vale abrir lugares para os opostos da ordem vigente? Por que dar lugar para comunistas se elegerem? Exatamente por que comunistas nunca vão se eleger e realizar um governo comunista.

Essa porta aberta tem uma função específica, que é demonstrar a justiça dentro de um sistema de eleição democrática – uma justiça não existente, uma justiça que não é possível, mas que é ilusória, que se demonstra no discurso, na aparência, no espetáculo. Exatamente esse tipo de ilusão que aproxima o indivíduo e a população da política, ao mesmo tempo que os afasta, já que a política fica cada vez mais (aparentemente) possível de ser modificada e possível de participação e mudança, ao mesmo tempo em que, exatamente por ser superficialmente de fácil participação, causa a apatia social de não participação em movimentos sociais de mudanças drásticas e não-democráticas, pois, supostamente, não seria necessário nada “violento”, por que a democracia já oferece o lugar para a expressão de todo e qualquer grupo social e político.

Exatamente essa face da democracia que envenena toda forma de agitação social, afinal, não é necessário agitar coisa alguma, agitação é para selvagens do terceiro mundo, coisa que nós estamos deixando de ser – ou pior, agitação é para favelados que botam fogo no ônibus. Democracias civilizadas não precisam disso. Já se nota a aversão pela agitação como uma representação do afastamento da realização das pulsões, sendo bem freudiano, não agitar é manter-se sob as regras sociais, que são, sem sombra de dúvida, inibidoras de comportamentos e pensamentos, logo, o outro que se satisfaz, que parece não ter regras a obedecer, é um objeto de mal-dizer perfeito, ele deve ser regrado instantaneamente, ele deve perder sua selvageria não civilizatória. A democracia é a sociedade dos limpos. A revolução é a atitude dos porcos.

Dentro desta lógica onde, da mesma forma que Freud já havia percebido no Mal-Estar da Civilização, a higiene é um valor social, ela também é utilizada para manter sistematicamente a noção de ordem e livre-escolha civilizada, culta e racional. O voto racional, higiênico, limpo é um discurso muito bem estruturado por trás de toda a apatia extremamente funcional que a própria sociedade democrática trás em seu bojo e que precisa de uma quebra drástica e suja para não se reproduzir ciclicamente ad infinitum.

Qual é o resultado disso? Como Zizek já analisou na Europa, aqueles que conseguem firmar uma posição clara em relação às questões básicas e fundamentais, como em relação ao aborto, direito das mulheres e negros, se mostram como mais aptos a representar a população, que já não acredita nos candidatos “administrativos”. PT Vs PSDB seria um exemplo disto, nas municipais de SP. Russomano é o sujeito que se posiciona – o conservador nato que tem as respostas para os anseios mais básicos das pessoas.

Quando não se responde nada, por pura vontade de não perder votos, ou seja, por pura administração – disputa administrativa, não política – nada pode ser afirmado ou identificado. Já quando um sujeito assim o faz, ele se torna um ponto de cor diferente na massa pontilhada.

Restaurante, Submissão, Autoridade e Todo Mundo Odeia o Chris

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Hoje eu almocei no lugar onde eu sempre almoço, de boa, tranquilo, comida gostosa, pessoal gente fina, etc e etc. Depois que a gente se serve, precisa pedir o que vai tomar e esperar na própria mesa, lá eles entregam o suco, refrigerante, café, seja o que for… O modo como acontece essa entrega é aquele comum: a pessoa coloca o copo de suco (por exemplo) na bandeja, chega à mesa do sujeito que está comendo e coloca o copo sobre a mesa. O que achei interessante foi a dona do lugar levar o copo sem colocar na bandeja e servir o sujeito que estava comendo. Ele não reclamou, nem olhou torto.

Esse modo de servir o sujeito que está almoçando, com toda a submissão ao Senhor cliente, já com aquele pressuposto da autoridade máxima do sujeito que compra os serviços que, porventura, pagarão seu salário e etc, essa relação de submissão de quem serve para quem é servido já é uma merda. Isso já me deixa constrangido de ir à maioria dos lugares. Nem dá pra contar nos dedos a quantidade de vezes que presenciei os clientes exigirem determinadas coisas que são tão inúteis quanto aquilo que eles fazem da vida.

As exigências inúteis só traduzem esse poder, essa autoridade do cliente sobre o sujeito que está lhe servindo. Referenciando o papel do sujeito que serve (garçom e garçonete) com o dos escravos, rebaixando da mesma maneira. Os escravos ainda existem, ainda fazem o que faziam, mas agora são assalariados e podem comprar um produto no fim do mês para massagear a revolta de ser um neoescravo.

Eu digo, essa analogia com escravo não está somente no trabalho, mas em todo conteúdo histórico acoplado nele. Servir, lavar, enxugar, servir, abaixar a cabeça, o Outro tem razão, servir, etc e etc.

Aí entra a ação da dona do restaurante. Ela serviu sem seguir as regras que ela própria determinou (ou melhor, que a sociedade determinou, ela só o fez formalmente). Ela demonstrou sua autoridade em fazer o que quer, já que, oras, o restaurante é dela. Ela é a autoridade máxima do lugar. Essa frase é confirmada pela não-ação do cliente, ele não fez nada por que sabia que era a dona que estava servindo. Não era qualquer garçonete submissa sem autoridade, era a dona. Ela pode.

Isso me faz lembrar do episódio de Todo Mundo Odeia o Chris, onde Julius e Roxelle vão a um restaurante e, ao perceber que seu prato veio sem repolho, ela reclama com o garçom que, rapidamente retruca “vou chamar o gerente”, Julius diz “Não queremos gerente, só queremos repolho”, e ele repete pausadamente “Eu vou chamar o gerente”.

Ou seja, o garçom, para se proteger de qualquer tipo de agressão, chama o gerente que, diga-se de passagem, falou a mesma coisa que o garçom deveria ter dito (que foi treinado a dizer): a salada de repolho não está inclusa. A autoridade do gerente vale mais do que a autoridade formal do menu. Não seria este um exemplo de argumento da autoridade, onde, a veracidade da informação se dá pela autoridade daquele que a expressa? O garçom não representaria perfeitamente o sujeito sem autoridade, indefeso e autômato?

Julius e Roxelle, acatando o gerente, não foram como o sujeito que aceitou o suco sem reclamar da falta de ética com o cliente e etc?

Não há nada mais confortável que se servir. Confortável para mim e para o garçom (que não existiria, no caso). Aí sempre vem algum nobre liberal pra mandar uma de que “assim, várias pessoas seriam demitidas e etc”

É como o papinho de que greve é ruim pra população, mas isso é pra outro post.

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