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Homem Estuprador, Poder e Gênese do Masculinismo

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Se um sujeito nasce, cresce, em suma, vive num ambiente de linguagem completamente machista, onde o homem é o dominador, o agente ativo, aquele que delimita as ações dos outros, aquele que tem o poder de fazer o mundo sua imagem, há como fugir completamente disso? Mesmo sendo conscientemente contra tais coisas, contra tais relações de poder, há como ser completamente imune?

Eu, realmente, não sei responder essa questão… O grande problema é que, logo após pensar sobre isso, me veio outra questão clássica, que era quase risível, que comumente é feita por pessoas extremamente idiotas: todo homem é um estuprador em potencial? Se pararmos para ouvir os papos neutros da galerinha da sauna, percebemos que sempre alguém vem com aquela velha ideia da pílula do esquecimento.

Se você desse uma pílula do esquecimento para uma mulher, onde ela não se lembraria de nada que aconteceu e você, por consequência, nunca seria pego por violação nenhuma, você a estupraria? Você cometeria estupro se não houvesse possibilidade de ser pego? – Esse é o conceito da pergunta. E aí, estupraria?

A pergunta parte de um pressuposto de que todo homem já é um estuprador, só que controlado. Todo homem é um estuprador em potencial, porém, com as normas repressivas, não cometem tal ato. Eu sempre achei uma ideia meio idiota – como podem partir do pressuposto de que já somos estupradores?

Porém não consigo achar tão idiota assim, agora.

Se o sujeito assimila uma linguagem na qual ele é o poderoso, na qual somente ele pode ser estuprador e, por convenção heteronormativa, nunca estuprado. Como considerar que ele não será (ainda) um estuprador reprimido socialmente?

Essa é minha pergunta e eu peço pra que respondam, por favor, pois eu queria muito conversar sobre isso. Partindo dessa lógica, o homem seria já um estuprador que se controla pra não realizar o ato, o que não impede a existência do conceito já assimilado. Ou seja, o homem sabe que é poderoso, que é agente ativo, mas tem o bom-senso, a amabilidade, de não exercer seu privilégio.

Não seria essa uma contradição da sociedade atual, onde há o significado simbólico da superioridade masculina, porém, também há repressão formalizada em forma de leis e sanções morais caso o ato seja realizado? Você pode ser um estuprador, pode saciar essa vontade supostamente animal, você tem esse poder, mas, caso o faça, será punido gravemente.

Será essa a fonte do masculinismo, exigindo a supressão das atividades que expressem a mulher como sujeito ativo e, desta maneira, as mantendo de forma passiva, onde não há o desafio do estupro, pois ele é natural, acontece nos pequenos atos e na totalidade da relação, onde há a passividade absoluta da mulher e a atividade absoluta do homem? Agora ele sente que tem o poder, sente que pode utilizar (o estupro) e que não precisa do estupro (o significado popular, sexo e dominação, sem consentimento). Ou seja, sua dominação já está saciada, sua suposta animalidade já está afirmada. O estupro é cotidiano e contínuo, não há necessidade do estupro na forma de sexo e dominação.

Dois é bom, Três é demais, Casamento, Natal e Cavalheirismo

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Dois é bom, três é demais, é um filme dirigido por Anthony Russo e Joe Russo, que trata a história de um solteiro que adora farra, Dupree, morando junto com os recém-casados, Carl, seu melhor amigo, e Molly. Como Dupret perdeu o emprego por tirar uma semana de férias sem avisar, para ir ao casamento de Carl, o mesmo se sente um pouco culpado e lhe dá abrigo temporário.

Esse filme é horrível.

Durante todo o filme acontecem brigas entre o casal e, durante todo o filme, é a presença de Dupree que começa essas brigas (juntamente com as más interpretações ciumentas de Carl, e o senso de privacidade de Molly), porém, no fim, meio que por mágica, quando o casal está praticamente separado, o homem corre em busca da sua amada e mantém o casamento.

O filme é a representação do sagrado matrimônio, onde, você, indivíduo casado, não tem que gostar, você tem que participar. Enquanto Dupree é a representação dos problemas de um casamento e etc, ele também é a ligação que foritifica a instituição casamento, sendo o elo que demonstra o quão sagrada ela é. Repetindo, você não tem que gostar do casamento, você tem que honrá-lo, ou, você sabe que casamento é uma merda, mas, mesmo assim, ele é sagrado.

É uma obrigação fadada ao ostracismo sentimental ou, à separação e, como instituição, já sabemos que ela está acabada em seus moldes antigos, mas continuamos a realizar os rituais antigos – continuamos a reproduzir a crença, assim como com o Papai Noel. Os pais sabem que o Papai Noel não existe, mas não falam para as crianças, por não querer chocá-las em uma idade precoce. Por sua vez, as crianças sabem que não há um Papai Noel, mas não falam para seus pais, com o intuito de ganhar presentes ou não magoá-los. Não existe a mensagem crua: “Papai Noel não existe!” (e nunca vai existir enquanto ele for reproduzido como o símbolo do natal liberal do ocidente e etc).

O Papai Noel não é só um cara gordo que entrega presentes, é muito mais simbólico do que concreto (obviamente), pois ele é o laço da mercadoria e da necessidade da compra de mercadoria. Ele, sendo uma fantasia onde há o dever moral de não destruí-la, ou retirar seu valor real existente, se torna a obrigação máxima da compra de presentes como reprodução da existência de si.

Nós damos presentes no natal por que somos o Papai Noel (somos moralmente coagidos a nos sentirmos a representação do encapuzado), assim, reproduzimos a ideologia do natal consumista que tem como símbolo, o próprio velho gordo.

Isso me lembra do cavalheirismo moderno, onde, por meio de ações já ultrapassadas, o homem demonstra o reconhecimento pela delicadeza da mulher e, assim, reproduz a ideologia machista de sua fraqueza e, ao mesmo tempo, rebaixa o movimento feminista, o colocando como reivindicador de igualdade “desde que respeite a delicadeza intrínseca”. Ou seja, haverá igualdade de gêneros, mas há diferenças “naturais” que não serão quebradas e, por si, já definem o que deve e o que não deve ser feito de antemão. Nós já sabemos que são essas “diferenças naturais” que dão o papel de mãe à mulher e etc.

Um neoconservadorismo romântico, mas tão podre quanto o velho.

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